terça-feira, 30 de abril de 2013

Notas da Fazenda



SERTÃO, GUIMARÃES ROSA E ARIANO SUASSUNA
Estava no alpendre, o telefone chamou e atendi contrariado, porque me deleitava olhando para o nascente com o “céu carregado” de nuvens sombrosas, escutava o ronco do trovão trazendo a chuva, que já vinha perto. Como no mês de janeiro. Uma alegria, uma esperança. O ano passado, esclareço, foi seco, pouca chuva, quase nenhum relâmpago e trovão, e já neste fim de abril corrente, a situação é a mesma, o rebanho no cocho pelo segundo ano, sendo recomprado com o custo da ração. O aborrecimento, todavia, desapareceu: era o amigo Gonzaga Rodrigues. Informou sobre a solenidade regimental da Academia Paraibana de Letras, em memória do imortal sousense Paulo Gadelha, falecido há um mês. Fez consultas sobre Paulo e sua vida, para o discurso que fará na homenagem.  
Chegou enfim o temporal, confirmando “sinais” que eu entrevira durante o dia, e comentário que escutei depois, sobre a chuva da tarde. Pela manhã comparecera a uma cerimônia religiosa católica, para o sepul-tamento de duas idosas senhoras sertanejas, de famílias amigas, da minha vizinhança. “Dona Leó e dona Raimunda eram caridosas, e deram muita água aos que passavam com sede na sua porta. A chuva paga o mereci-mento de sua caridade”, alguém observou. Era a crença local na relação entre a chuva e os atos das pessoas.
Os costumes e hábitos, os adquirimos na infância, verdadeiros, ines-quecíveis, viram lembranças. Aqui, principalmente em relação ao inverno. Para qualquer palavra referente a negócios, nós sertanejos costumamos olhar para o céu, para o Nascente. Não faço charme, o sertão é o meu lugar. Nasci no sertão, me criei no sertão, pouco saí do sertão e moro no sertão. Aliás, a vida, o ambiente, em qualquer local, é entremeado de situações sertanejas, digo, que lembram o sertão, na fala, nos detalhes ambientais, decorativos. E nos encanta e alegra, porque o sertão está em todo lugar: esta afirmação tirei-a de leituras, de citações patrioteiras, legítimas de Gui-marães Rosa. Por sinal, tratando ainda de escritor famoso, escutei o sertanejo Ariano Suassuna, em recente palestra na cidade de Sousa, investir contra a entonação, a pronúncia das palavras, das frases com acento malandro de carioca, preciosismo de paulistas submetidos a múltiplas influências na construção de sua identidade, nascida da memória alheia, de imigrantes de Asia, Europa, África, Américas. Diferente de nós ibéricos-nordestinos, que primeiro descobrimos o Brasil, criamos uma língua brasi-leira. É a dita pelo poeta “flor do Lácio inculta e bela”.
Tal felonia acontece com muitos imigrantes nordestinos, numa rendição servil aos costumes dos que mandam na sua vida. Existe, pois, uma linguagem, um falar, próprios dos habitantes da nossa pátria nor-destina. O que vale para mim, portanto, é a memória, e a minha está na infância. E a minha infância é paraibana, sertaneja, do semi-árido. Sobre o modo de falar, conheço pessoas da catinga que, passando um mês no Sul voltam chiando nos “s”, cantando e escorregando feito passarinho; sei de gente nascida e criada aqui em Sousa, formada na capital, político de mandatos, que fala como os pernambucanos sem nunca ter morado lá: “impertxinentxi”, “osx doisx, tresx. Herança batava, dele? Poderia. Nossa, não. O meu vaqueiro Raimundo de Elias, anos atrás passou um mês em São Paulo, voltou de óculos escuros, com fitas de baiano no punho, trouxe relógio, gravador, uma raridade naquele tempo, chiava nos “s”, exclamava caramba! caralho! a qualquer pretexto. Com algum tempo retornou ao que era. De minha parte, posso dizer que morei doze anos no Recife, viajei pelo Sul e não aprendi a falar como os de lá: difícil para mim, enrola a língua, range os dentes.
Escritores e artistas nordestinos ditaram: a pátria é a infância. Luis Jardim, Santa Rosa, os que lembro. Teve um francês que escreveu: “La patrie c´est  l´enfance retrouvée”. Tal como os nossos. Todas as pessoas têm a sua pátria porque lá nasceram, viveram a infância e não a esquecem. Me envergonha o procedimento de conterrâneos que negam a origem, co-mo argumentei no parágrafo anterior. Li um texto esclarecedor do poeta e polemista Bruno Tolentino, acentuando que as mudanças no tempo e na vida não apagam as lembranças dos fatos, para ele, testemunhas da ci-vilização. Para nós dos tropeiros e boiadeiros. Identificamos o autor de “Verdes mares bravios de minha terra natal”, “Deus ó Deus onde estás que não respondes?” José Alencar e Castro Alves, o que soubemos na escola, nas conversas, nas referências de conspícuos improvisadores, cantadores de viola. Escreviam, falavam,  descreviam o seu lugar.
Importante a leitura do texto a seguir: “Elevar um discurso para fora do alcance do poder letal do tempo significa, justamente, temporalizar ao mais alto grau as coisas e as linguagens da mente... Estou dizendo que o poeta máximo é aquele cujo dizer, fundado nas coisas deste mundo, num presente vivido, tende de modo natural àquelas alturas do pensamento a que convergem o universal, os mistérios da sensibilidade de um poeta e as sutilezas de seu idioma. A partir de então este pode “mudar” o quanto seja – e nosso léxico preferencial e até nossa sintaxe mudaram muito desde a composição de “Vozes d’África” (e acrescento “Iracema”) – mas não lhe será mais possível furtar nada ao impacto emotivo-verbal que a um dado ponto na história nele encarnou-se perfeitamente”.
Em nós, a prosódia, os hábitos e os costumes. 
..............   Fazenda Lagoa de Baixo, abril 2013.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Notas da Fazenda



RASTRO DE ANDARILHO
EILZO  MATOS
“Jardim Miramar, Maio 1966”, esta inscrição está no final do livro que tenho em mãos. É a data do término da composição da novela-romance “Rastros de Andarilho”, de José Urquiza, como o “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, tratando dos dramas e da vida de bichos e pessoas, envolvidas numa existência no mesmo espaço e cenário, comuns à convivência de todos. Os acontecimentos, as tragédias são iguais. Ideólogos e comentaristas atribuem-lhe um qualificativo. Nada mais. A literatura, entretanto, revigora-se dialeticamente, como expressão e fenômeno exclusi-vamente humano, na teoria do conhecimento, tratando do costume, da vida em sociedade. Também é o retrato social e político de uma época.
Vivi aquela data noutro “sitio”, como falam os portugueses. Mas, como acentuou Guimarães Rosa, seria o mesmo lugar, porque o sertão está em todo lugar, por mais afastados que sejam um do outro, em toda parte, e falando-se de Patos de Espinharas e Sousa do Rio do Peixe, a distância quase não conta, porque se troveja e relampeia numa cidade se escuta e vê na outra. Esta é a estreiteza da vida, perceptível, impositiva, coercitiva. A abrangência no seu fazer, tornando a totalidade em semelhança e homogeneidade, submetida inelutavelmente à práxis do ser.
Batedor de tijolo, prostitutas e meganhas desfilando em passadas, no modo do trabalho de cada um, também a sofrida cachorra, amojada, abandonada, requestada, enfrentando um destino de fracassos e sucessos como as mulheres, as pessoas enfim. As famílias sem documentos, os comerciantes sem lastro, as paixões, duradouras ou não, se exibindo na cadeira de balanço de noitinha na calçada. O trono do cabeça-de-casal.  Este um universo inegavelmente humano, trágico e feliz como acontece nas comunidades organizadas, a espada pendendo na cabeça de cada um.
A narrativa de Urquiza é expressivamente literária, para mim mais ao gosto do jornalismo-reportagem. Ignoro se na sua vida ele militou na redação de jornais, como repórter ou assinante de colunas, editoriais, sueltos, reportagens. Encontraria aí a provável influência no estilo de escrever, de redigir. Na sua novela, o relato, os figurantes, os fatos, tudo está efetivamente na linha do realismo  reprodução instantânea do momento, como na fotografia profissional. Esta a impressão que o livro me causou. Mas, o romance está preso também à sociedade dos homens, nos seus percalços. Em nada ligado ao simbolismo recorrente do terror e da tragédia dos romancistas ocidentais do século XIX, tampouco à incompreensível explosão de fatos supostamente produzidos pelo desenvolvimento de processos tecnológicos, à moderna ficção científica, na mitologia das transmutações, dos avatares, incompreensíveis e inaceitáveis para alguns. E o curioso encadeamento de fatos e destinos envolvendo pessoas e bichos, despertaram-me emoção e simpatia. Ah! Como a literatura encerra a minha vida nos seus recursos imaginários jamais permitidos na vida! E estimei a novela do amigo desaparecido.
Não gosto de livros volumosos como tratados de ciência, de romances cíclicos que atravessam épocas, mas da vida sendo vivida em palavras e ações, nada de usufruto, fruição de heranças personalistas. Grande é a vida de cada um, e viver é lutar, mesmo sem arroubos shakespeareanos. Muito tenho a meditar e tentar comentar sobre o livro do contraparente e amigo José Urquiza, em nome da nossa amizade, pelo texto e sentido de sua criação artística.
Fica pra depois.               

domingo, 14 de abril de 2013

Notas da Fazenda

RICARDO, O CAMELÔ NAZISTA CUSTEADO COM MUITO DINHEIRO PÚBLICO

O chamado “Orçamento Democrático” tão badalado na imprensa como uma das grandes realizações do governo estadual, não passa de um capricho irresponsável do governador Ricardo Coutinho, da manifestação irreprimível do seu comportamento ditatorial e antidemocrático. É sua intenção, tornar público e dispensável, o papel fundamental do Poder Legislativo de analisar e votar o orçamento. Visa pressionar e manietar o Parlamento com ações criminosas por ele coordenadas. Mas é preciso reconhecer, e ele jurou respeitar, a legalidade do Poder, porque se trata de um órgão constitucional, como o Judiciário e o Executivo. Não o é, entretanto, o tal “orçamento democrático”. Este é apenas uma gangorra, um disfarce: não trata da administração, mas da reeleição de Ricardo. Sei que os pseudo-cientistas do Direito, que auferem vantagens nos governos antide-mocráticos, partirão em sua defesa. Mais um logro conhecido.

O “Orçamento Democrático”, ao analisarmos a sua estrutura e forma de funcionamento, constatamos que se trata de uma organização espúria, facinorosa, doutrinariamente construída e financeiramente mantida criminosamente com verbas públicas, pelos inimigos da democracia, os aproveitadores, os xeretas. Impossível esconder, negar os fins inconfessáveis.

Peço permissão ao jornalista Rubens Nóbrega, para utilizar os termos do seu recente REPTO dirigido ao Governador: “NÃO, NÃO TEM MORAL!” (Jornal da Paraíba 12/04/2013) Quando entre outros fatos argumenta: “O Passe Livre criado pela Prefeitura da Capital deve beneficiar muito mais alunos do que apenas os 40 admitidos pelo governador Ricardo Coutinho em virulenta, destemperada epropositada desqualificação do programa lançado pelo prefeito Luciano Cartaxo”. Por esta razão chamo a atenção, para esta manifestação trágica, antidemocrática e caricatural do chamado Ricardo Boca Torta. É a inveja e o despeito pingando no seu suor mefítico. E sabemos com que fim.

Acho que vale a pena fazer um levantamento das despesas com a mídia, documentos, transporte, alimentação, hospedagem, material de expediente, diárias, etc, e, principalmente a soma em dinheiro, gasto em gratificações aos articuladores e participantes das “reuniões” de qualquer tipo, como “preparatórias”, “assembléias” etc, que se multiplica em todos os recantos do Estado, com a finalidade de montar a arapuca nazista – o orçamento democrático. Ali ninguém está de graça.

Duvido que pessoas deixem as suas casas, outras ocupações sem a contrapartida da boa alimentação, do transporte confortável, da hospedagem, do pagamento da farra animada por bandas, e da carimbada simpatia do governador. Deve a despesa chegar, como se diz popularmente, a uma grande soma, a uma “fábula”. Porque esse pessoal, ganha e recebe todos os dias, durante o ano inteiro dinheiro e vantagens. E como são muitas! Ali ninguem está de graça, repito.

Aliás, acho mesmo que essa bagunça administrativa, presta-se bem para preparar criminosamente a campanha eleitoral para a reeleição do atual governador. É isso o que ele quer. É mestre na dissimulação, na enrolada. Costuma alimentar-se eleitoralmente dos detritos morais da política estadual. É o típico camelô de luxo, aquele custeado pela administração pública que paga a ostentação de sua magnificência. O sofrido propagandista de produtos do comércio modesto, no meio da rua, é outra pessoa na dignidade do seu trabalho, muitas vezes enxotado, espancado como Ricardo o fez na nossa capital. É, entretanto, o protagonista da exteriorização das perebas, das doenças políticas e sociais deste governo, que não consegue esconder.

Notas da Fazenda

DORGIVAL TERCEIRO NETO
A minha lembrança de Dorgival Terceiro Neto sustenta-se na sua crônica de estudante no colégio de Patos, depois hóspede da Casa do Estudante em João Pessoa - quando a Paraíba começou a conhecer e admirar a fortaleza do seu caráter incorruptível. Daí pra frente a índole, o temperamento definiram o cidadão que permaneceu impoluto como convém a todos, ao homem público principalmente. Não privei de sua convivência no período de sua vida estudantil. De uma geração, um pouqinho mais nova, e estudando no Recife, pessoalmente não o via, mas a sua legenda chegava aos meus ouvidos nas terras pernambucanas. Era o sertanejo que não traía a fala e os hábitos. Autêntico. Conheço gente de Sousa que fala "axs coisaxs".Tipos também chiam aqui de João Pessoa. Dá pena. Conheci Abelardo Jurema, o velho, que morou a vida toda no Rio de Janeiro e não tinha esses tiques na pronúncia. O Abelardinho pode chiar porque nasceu e criou-se no Rio. Dorgival não chiava. Mas o meu conterrâneo João Estrela falar "axs exscolaxs" faz pensar que a sua popularidade política tem aí suas raizes, porque desconheço outro mérito intelectual ou profissional que o destaque. E como administrador público nem se fala. Antonio Mariz achava que a risada de Zé Dantas acabara a liderança de Jacob Frantz em São João do Rio do Peixe. Não encontrava outra explicação. Isso me disse muitas vezes, matutando métodos para as nossas campanhas eleitorais. Mas voltando ao caro Dorgival, assinalo a sorte, o destino que o fez vizinho de moradia, nas proximidades do Clube Cabo Branco, do matuto-político-escritor Zé Cavalcanti. Acocorados os dois na calçada eles conversavam como bons sertanejos. E os moradores do bairro passavam e os cumprimentavam, e não viam nada demais. Como governador Dorgival era o mesmo homem: reto, digno, beradeiro. Sousa e a família Mariz lhe devem a pesquisa que descobriu no João Belchior Marques Goulart um "Marques" de Sousa, que mandou para os pampas bachareis ilustres que lá se fixaram como Benedito Marques da Silva Acauã, parente também do nosso jurista Antonio Elias de Queiroga. A cidade de Sousa alardeou por muito tempo a sua performance política na Camara, no Senado, no Governo do Estado. Faltava a Presidência da República. Pois Dorgival ilustrou a nossa tradição com a sua pesquisa, que lhe conferiu o exercício do mais alto cargo da Nação. Os marizistas comemoraram. Muito mais tenho para dizer, mas o farei noutra oportunidade. Finalizo chamando a atençaõ para os vultos ilustres que Taperoá tem dado à Paraíba: cito Ariano Suassuna, Dorgival Terceiro Neto, Manelito Vilar e Balduino Lelis. Por enquanto.

segunda-feira, 11 de março de 2013



O SOUSENSE PAULO GADELHA - EXÉQUIAS
                                               A convivência aproximada, firmada numa amizade que perdurou até o presente, num relacionamento de con-terrâneos da mesma geração, registram  a minha presença e a de Paulo Gadelha na vida sousense: ainda crianças com pequena diferença de idade, correndo as mesmas praças e ruas, na adolencência frequentado festas e reuniões, adultos, mergu-lhados nas águas turbulentas e agitadas da política de nossa terra. E considero, sem falsa modéstia, que marcamos a nossa presença ética e realizadora de ações que dignificaram os mandatos parlamentares o exercício de secretarias de Estado, que nos couberam.
                            Muitas são as lembranças, agradáveis e honrosas para mim, os registros que nos ligaram vida pública. Eu, cedo me isolei extramuros, Paulo prosseguiu e destacou-se mais no exercício de cargos relevantes: foi diretor do Banco do Nor-deste, Desembargado Federal, escolhido para uma cadeira entre os imortais da Academia Paraibana de Letras. Teve o meu voto para a sua eleição.
                            Na Paraíba, no Brasil e em outros países, juntos participamos de conclaves, um deles na companhia do escla-recido deputado Manoel Alceu Gaudêncio, representando a Assembléia Legislativa, na discussão de teses que tratavam de questões referentes à cidadania, aos direitos humanos, ao progresso e ao desenvolvimento econômico e cultural. Mas o que marcava mesmo a sua presença entre nós, era a vocação intelectual, a sua assiduidade na imprensa escrita, o culto à ciência do Direito, ele um constitucionalista de renome.
Dele recebi o seu livro “A Rosa e a França”, com uma intimação, segundo suas próprias palavras de ofe-recimento, para apresentá-lo aos nossos conterrâneos, o que fiz na solenidade do seu lançamento no auditório da Fa-culdade de Direito de Sousa, de que transcrevo alguns parágrafos.
Desejo destacar em Paulo Gadelha o caráter do político competente, do intelectual “engajado” no melhor estilo francês. Essas qualidades, muitas vezes, passam despercebidas da maioria das pessoas. E em cidades como a nossa, a questão genealógica sobreleva sempre a ideológica. Mas está feito o regisgtro.
O advogado Paulo Gadelha pertence àquela ca-tegoria de bacharéis beletristas, que a Faculdade de Direito do Recife legou também aos paraibanos e espalhou na vida brasileira. Políticos, juristas, poetas, romancistas, historia-dores, críticos de artes, escritores enfim, que o espírito da velha escola, vivo, em todas as épocas, fez povoar nas páginas da história literária e das letras jurídicas do país. Os compromissos assumidos ao longo de sua vida, revelados nos textos do seu livro e na sua ação política, dão continuidade a  uma tradição pernambucana, desde 1817 e 1824: o incon-formismo em face do tratamento discriminatório dos governos da União para com o Nordeste, ainda hoje uma controvérsia crucial para a unidade da Nação.
Esta marca de patriotismo e bravura foi honrada na Paraíba em Brejo de Areia, no Areópago de Itambé, na Fazenda Acauã, em Sousa, com Félix Antônio e os padres Arruda Câmara, Francisco Antônio e José Antônio Correia de Sá, Narciso da Costa Gadelha, Patrício José de Almeida, Luiz José Benevides e outros heróis da nossa história.
Refém da tradição filosófico-sentimental dos fatos pernambucanos, Paulo ressurge no cenário público, desta vez no ambiente intelectual. Falo de um ambiente onde também vivi, de fontes onde também bebi os mesmos ensinamentos, preparando-me para a vida e as responsabilidades profissio-nais. De lá vieram figuras inconfundíveis como Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Epitácio Pessoa, Ernani Sátiro, João Agripino, Salviano Leite, Ivan Bichara, entre os paraibanos ilustres, egressos da vetusta Faculdade, oferecendo uma parcela significativa do ideário que moldou o perfil do estado, da sociedade brasileira, desde Abreu e Lima a Tobias Barreto, Clóvis Bevilácqua, Pinto Ferreira.
Em bancadas opostas, convivemos eu e Paulo Gadelha uma legislatura inteira na Assembléia Legislativa da Paraíba. Daí, poder oferecer um testemunho vivo e insuspeito sobre sua conduta de homem público. Na agitação da vida política, nos momentos difíceis que marcaram a pressão da sociedade civil sobre os governos militares, reclamando democracia, contestando o arbítrio, a sua ação parlamentar crescia na tribuna pela crítica dos fatos, na defesa do Estado de Direito. A social democracia, de que é moda falar-se hoje no Brasil, representava naqueles dias de repressão, uma idéia perigosa e contrária à concepção ditatorial dos governos de então, apoiados na famigerada Lei de Segurança Nacional.
Os Anais da Assembléia Legislativa guardam as corajosas intervenções do deputado Paulo Gadelha diante de um plenário perplexo. Assim, igualmente, a sua presença na imprensa, cujos trabalhos compõem o seu livro “A Rosa e a França”. Revelam o pensador que acredita na idéia do progresso humano, na capacidade de auto-aperfeiçoamento da humanidade. A filosofia, o direito, a economia, a literatura, as artes plásticas, são temas abordados com observações agudas e crítica percuciente, transformada em instrumentos de aná-lises dos fatos sociais. Uma consciência ligada ao racio-nalismo renascentista, ao Iluminismo. A forma breve e sucin-ta manifesta idéias arraigadas, fruto da especulação que alia a ação ao pensamento, como nos breves ensaios do longevo Bertrand Russel.
Sinto-me por esta razão, feliz e recompensado com esta amizade. Vejo que Paulo não renegou as suas idéias, pelo contrário, nelas ainda acreditava, divulgando-as em livro. A vida nos entregou aos nossos destinos pessoais. Distanciados pela ocupação que cada um abraçou, vivemos nossas preo-cupações, cumprimos nossas tarefas. Há quem diga, como o ensaísta norte-americano Francis Fukuyama, com quem não concordo, que chegamos ao fim da história, que a huma-nidade não se move mais no terreno da utopia, pulverizadas todas as ideologias. A falta de idéias, como acentua o ianque, atrai o homem para causas pequenas.
Meu caro Paulo, sabemos que os espíritos nos escutam, peço desculpas pelas digressões, a forma tumul-tuada das minhas palavras, neste momento de dor. Mas no caos da vida moderna, o que restaria a um pobre exilado rural? Como você em “A Rosa e a França”, repudio o trágico pessimismo, o desespero, os desvios totalitários nietzcheanos. O mundo contemporâneo, onde tudo que é sólido desmancha no ar, como acredita Marshall Bermam, mais do que nunca precisa do estoicismo-epicurismo que assegurava ser a vida o maior bem, em face da morte e do efêmero. É a minha crença.  Você continua vivo entre nós com a obra de ação e pen-samento que realizou, deixou como legenda.    ..................

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

PROSA CAÓTICA II - O DURO RE COMEÇO)
CADERNO II (1985 /1990)
1 - Ao nascer do sol já estou de pé. Deito-me cedo e entrego-me aos pensamentos, sozinho no alpendre. Ventos fortes, pingos de chuva ou o avançado da hora empurram-me para dentro de casa. Gosto de ficar em silêncio, espreitando o espetáculo da natureza, como se receasse interromper o desenrolar das cenas noturnas.
Gira o universo. Estrelas aparecem e desaparecem no céu. A Via Láctea no infinito encantamento de suas lendas desenha-se num fundo negro, profundo. Relâmpagos iluminam o nascente, ronca o trovão. O gado fica imobilizado esperando a chuva para começar a andar numa forma de resistência e adaptação ao belo e incomparável fenômeno natural da tempestade.
A chuva vem montada no vento, que escouceia, sopra com violência. “O vento é o cavalo da chuva”, ensina a retórica sertaneja.
Ao amanhecer, os pássaros cantam todos de uma vez. Destacam-se as modulações do sabiá, do galo de campina, chilrear de vozes harmoniosas no meio do alarido. Luz e sombras. As matas reverdecidas depois da longa letargia da seca.
Avisto trabalhadores vindos de suas casas distantes, dirigindo-se para a jornada nas roças. Homens e mulheres, velhos e crianças, em alegres discussões e desafios. A perspectiva de colheita, a superação das dietas forçadas desanuvia-lhes as feições duras como pedras.
Mesmo sabendo que lhes é negado o produto integral do seu trabalho, retesam os músculos como condenados, o suor pingando do rosto, fazendo manchas escuras nos sovacos, nas costas.
2 - Releitura do que venho escrevendo há alguns dias, sem regularidade. Nada além de simples exercício que me impus, de um gesto filho do ócio.
O trivial sem estilo.
Lembro de uma página de Huxley. Anotações de um caderno do intelectual Antony Beavis. A lógica do raciocínio de uma mente poderosa. E eu com os meus pobres escritos, sem leitores, rabiscando para mim mesmo.
É uma longa transcrição, mas vale como exercício de memória e autocrítica.
“Acton quis escrever a História do Homem em termos de uma História da Idéia de Liberdade. Mas não se pode escrever uma História da Idéia de Liberdade, sem ao mesmo tempo, escrever uma História do Fato da Escravização. Nas suas sucessivas tentativas de conceber a Ídéia de liberdade, o homem está constantemente trocando uma forma de escravização por outra.”
“A Escravização primitiva é a escravização ao estômago e à estação adversa. Escravização à natureza, numa palavra. A fuga à natureza se consegue pela organização social e pela invenção técnica. Numa cidade moderna é possível esquecer que existe esta coisa chamada natureza – particularmente a natureza em seus aspectos mais inumanos e hostis. Metade da população da Europa vive no universo forjado por ela mesma. Suprimamos a escravização à natureza e surge imediatamente outra forma de escravização. A escravização às instituições. Instituições jurídicas, religiosas, militares, econômicas, educacionais, artísticas e científicas.”
“Toda história moderna é uma História da Idéia de nos libertarmos das Instituições. E é igualmente a História do Fato da Escravização às Instituições. É porque se procura por em prática a Idéia de Liberdade que as Instituições se transformam.”
3 - Herdei do meu pai o espírito boêmio, dessa boemia livresca com certa dose de álcool. E a tendência ocasional para o isolamento, a introspecção. O dinheiro para mim não tem importância além do que se fizer necessário para despesas indispensáveis e modestas. Mesmo assim o procuro como instrumento e meio indispensável de realização de trocas. Mas o que pesa mesmo na vida das pessoas e ressoam em memórias, reflexões e angústias é a busca pela própria individualidade no campo e na cidade, a tentativa de compreender o significdo da morte e o questionamento dos dogmas da religião. É o que povoa a mente de cada um em transfigurações.
4 - Algo ocupa insistentemente a minha mente, traz-me à lembrança uma leitura da juventude nos momentos de sonhos românticos acossados pela antevisão do futuro. Recebi o livro das mãos de uma pessoa refinada, vestia, com elegância, os gestos discretos, porém efeminados, o sobrenome da nobreza europeía, Grimaldi. Refiro-me aos “Cadernos de Malte Laurids Brigge” do atormentado poeta Rainer Maria Rilke. Ele perorava pretensiosamente em dúvidas cruéis num retorno a Paris: “11 de setembro, Rue Toullier. É para cá, então que as pessoas vêm para viver; eu diria, antes, que aqui se morre. Estive fora. [...] Há um número imenso de pessoas, mas o número de rostos é muito maior, pois cada uma delas possui vários. Há pessoas que ostentam um rosto por anos a fio, e, obviamente ele se gasta, [...] seus filhos devem usá-los. [...] Isso tem, é claro, a sua tragicidade.[...] não estão acostumados a poupar rostos. [...] Voilà votre mort, monsieur. As pessoas morrem do jeito que der; morrem a morte que cabe à doença que têm (pois desde que todas as doenças são conhecidas, também se sabe que os diferees epílogos letais cabem às doenças e não às pessoas; e o doente, por assim dizer, não tem nada a fazer).”
Há os casos de doenças da alma, como a inquietude e a indecisão sobre escolha de modo de viver e de lugar para viver. E os enfrentamentos mortais na guerra e nas disputas pessoais. Eis a morte adrede preparada. E ainda mais cuéis indagações que povoavem a mente do personagem nas suas indagações mórbidas, nietzcheanas: “É possível que apesar de invenções e de progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, tenhamos ficado na superfície da vida? [...] É possível que toda história universal tenha sido mal-entendida? [...] É possível que existam pessoas que digam ´Deus´e pensem que se trata de algo comum a todos? [,,,] Porem, se tudo isso é possível, se tiver apenas uma centelha de possibilidade - então, por tudo que há de sagrado neste mundo, algo tem de acontecer.”

5 - Do meu “diário poético”, que não é diário, mas anotações dispersas:
I- ...estrelas vegetais...
Pasto espacial de melancólicos bois...(?).
Thiago de Melo mora em Paris com Simeão Estilita.
Preferiu a Torre Eiffel às palafitas de Manaus.
II - Distribuindo sorrisos.
Como o trapezista,
Voando perigosamente sobre o picadeiro.
O falso artista. Assim ganha dinheiro.

Há pessoas que se realizam no sofrimento, na distância das coisas, dos seres queridos. Descobrem a pobreza do seu mundo desfrutando da riqueza de outros. Um caso para o divã do pcanalista. Ou para o julgamento da história.

6 - Estas anotações perdem o sentido de um relatório de fatos, como imaginei. Reproduzem no nível de minhas preocupações, o problema capital da vida espiritual da sociedade. Indagação a que Marx respondeu com um axioma: “Não é a consciência do homem que determina a sua existência. É, pelo contrário, a sua experiência social que determina a sua consciência.”
Uma história da idéia...
Antony Beavis percebeu claramente o processo de desenvolvimento, de mudanças qualitativas que se operam na sociedade. É uma história do real. O motor está na base, na prática determinadora das instituições. Querer provar o contrário, ou opor particularizações metafísicas, é como aplicar um “raciocínio lógico a uma situação não existente criada por uma idéia fixa ou uma alucinação.”
A literatura nos estudos linguísticos e estruturalistas – um desvario, uma idéia fixa, elucubrações dolorosas, uma condenação da lógica dialética. Reflexo das situações sociais, ao mesmo tempo expressão estilística do espírito objetivo, autônomo, assim o mestre Carpeaux vê a literatura. Forma e conteúdo na sua complementaridade.
As dimensões sintagmáticas e paradigmáticas da literatura, fundadas no conceito de sobredeterminação de certa formação do inconsciente, como o sonho, não passa de piada, de miragem no direcionamento dos estudos freudianios.
7 - Em Sousa, encontro entre os nossos, indecisão para escolha do candidato a prefeito, causada pela prolongada ausência de Antônio Mariz. Preso a compromissos de trabalho na Assembléia Nacional Constituinte, ele pouco tem aparecido. Esse é o papel do líder. Esperam-no para as decisões que deverão nos levar à vitória, para oferecer-lhe mais uma condecoração.
A submissão a um projeto familiar de realização política prejudicou a luta socialista de Antônio Mariz. Pai, avô, bisavô, tios, primos, foram governadores, deputados, senadores. Esse traço caseiro, a prosápia, refreou-lhe o ímpeto, desviou a linha de sua ação. Mas entre os paraibanos – é preciso que se diga – pelo seu caráter, pelo exemplo dos seus, permanece admirado pelas qualidades morais no trato da coisa pública. Não vejo, atualmente, entre os políticos paraibanos, outro que pudesse arrancar o Estado do caos administrativo, da frouxidão moral em que o enterraram os últimos governos.
Lembro-me de Ernani Sátyro, reacionário “íntegro”, no seu sonho monárquico de uma casa de reis. O lema do seu governo era contraditório no enunciado: “tradição e renovação.” Tradição pelo que fizeram os seus antepassados, pelo que ele fazia e pelo que certamente o fariam outros com o seu sobrenome. Enfim, a renovação no seu estilo inarredável.
8 - Quando Marshall McLuhan afirmou que “o artista é detentor do poder de ver com clareza e julgar o meio vigente criado pela mais recente tecnologia”, ensinou-nos que, a arte é instrumento e meio eficiente, como reflexo da realidade, para o conhecimento, e que o artista é um descobridor das características e situações típicas da evolução social. Os artistas são as antenas da raça. Li essa afirmação, acredito, em Ezra Pound, no seu ABC OF READING.
A prática do intercâmbio cultural pode levar-nos à descoberta e identificação da fonte comum entre as manifestações artísticas em todo o mundo, explicando e desvendando “mistérios” que ainda envolvem o homem. Apesar das características e peculiaridades de cada povo, a soma dos esforços e conquistas do pensamento humano constitue o elo comum, o patrimônio de toda humanidade. A obra filosófica de Karl Marx e as composições de Haendel, alemães pelo nascimento, sugiram na Inglaterra.
(CONTINUA)

sábado, 29 de dezembro de 2012



LUIZ GONZAGA E SOUSA
O destino ligou Luiz Gonzaga, o Gonzagão, à nossa cidade de Sousa, o que comprovam dois momentos de sua vida, marcantes para ele e para os sousenses.  Sobre este assunto são conhecidas declarações dele, testemunhadas, e também fotografias em que aparece em reuniões sociais e festivas de que participou, que existem em arquivos pessoais de filhos de Sousa. Resumo:  num dos seus exclamativos comentários sobre sua vida, gravados com a música de fundo da sanfona,  fala que deixou a casa paterna e sentou praça, que as forças armadas  recrutavam até nas feiras sertanejos jovens. Veio parar em Sousa que acantonava uma unidade do exército. Vivia o país um período político agitado por freqüentes en-frentamentos armados entre os governos estadual  e federal. Era o tempo dos “tenentes”, que culminou com a Revolução de Trinta. Presenciou o fuzilamento do comandante, leal ao governo federal, reagindo a ação golpista planejada. Participou como obreiro de reunião da Loja Maçônica Calixto Nóbrega e guardamos fotografia do evento.  Gonzagão ligou-se com intimidade à nossa terra. Foi amigo pessoal  de Deusdete Queiroga de Oliveira, destacado empresário sousense, que o hospedava e dele conseguia o gesto de consideração de participar e tocar nas comemorações do São João  em Sousa, a mais tradicional festividade social do sertão nordestino. Assim passava a noite inteira conosco, sem a correria atual provocada pelos contratos de apresentação de várias cidades na mesma noite. Estive presente com os sousenses no Clube Campestre e no BNB Clube onde se apresentou, dividindo mesa em demorados momentos, desfrutando o chiste que enfeitava a sua conversa. Fui brindado por ele com uma extensa gravação  exaltando o meu nome e a minha candidatura a deputado estadual em 1978, por solicitação do meu compadre Dezinho Queiroga. Mais de cinco minutos de gabolice e piadas que me exaltavam, com o Boiadeiro como música de fundo, executado por ele na sanfona, que eu divulgava  nos programas de rádio, e como carro chefe dos meus comícios de feira. A votação que obtive ultrapassou os 9600 votos, o que jamais acontecera em Sousa até aquela data.  As votações maiores obtidas por outros candidatos até hoje, não foram, proporcionalmente, em relação ao número de votantes, maior do que aquela, acredito.
Ao lado um flagrante na casa de Dezinho Queiroga com os amigos e correligionários Nivaldo Sá  e Chico Braga, verdadeiros baluartes das nossas campanhas eleitorais.

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GONZAGÃO E A TRADIÇÃO SERTANEJA, ONDE ENTRAM PELOS SEUS DESCENDENTES, O MAJOR MIGUEL SÁTIRO E BASÍLIO QUIDUTE DE SOUSA FERRAZ (adotava no cangaço o cognome de Basilio Arquiduque Bispo de Lorena – Guerreiros do Sol, Frederico Pernambucano de Melo), E JOSÉ MATOS ROLIM (meu avô patrerno) TAMBÉM BACHAREL DO RECIFE.
O colega bacharel da turma de 1964 da Faculdade de Direito do Recife Flávio Sátiro Fernandes, eminente constitucionalista e mestre do Direito, postou no Facebook a sua fotografia e fez referência ao meu nome e de outros mais íntimos no seu relacionamento,  no 48º aniversário de nossa formatura, despertou a minha atenção para a vida no Recife daquele tempo.  Também fui jovem naqueles idos e guardo a memória da com-vivência com a juventude nordestina principalmente a pernambucana, mais numerosa, que freqüentava a famosa Escola do Direito, chamada a Casa de Tobias (Barreto). Refiro por entender necessário, para acentuar o prestígio dos acadêmicos de direito na capital pernambucana e conferir notoriedade a este comentário, alguns brasileiros notáveis que ali estudaram: Castro Alves, Gonçalves Dias, Fagundes Varela, Augusto dos Anjos, José Lins  do Rego, Osman Lins para citar alguns poetas e romancistas,  e políticos e juristas como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José Américo,  Pontes de Miranda, José Mário Porto, Rui Carneiro, Salviano Leite, Otacílio Silveira, Aloisio Bonavides, Clovis Lima, Álvaro Gaudêncio  entre tantos outros.
Mas rendo uma homenagem sentida e especial ao compositor e cantor Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que estimulou o meu sentimento de amor ao mundo do sertão, aos seus costumes, aos protagonistas da vida social local, no centenário do seu nascimento,  e evocarei a sua música que nos embalava na alegria da vida estudantil. Pernambuco é para mim uma referência essencial nas minhas lembranças, nas minhas reflexões de natureza intelectual, nos meus sentimentos políticos centrados no humanismo que veio com o Iluminismo e desaguou no marxismo leninismo que era o substratato das teses políticas da esquerda da época.
Repito o que afirmei outras vezes: nasci na minha querida cidade de Sousa onde abri os olhos para a vida; Campina Grande me apresentou ao mundo da literatura; Recife me alistou na frente de luta democrática. Hoje pachorrentamente recolhido ao campo, curto essas lembranças com a contribuição valiosa da televisão e da internet para me situar no mundo.
Pois bem. Numa daquelas noitadas alegres, chovia fino, e adentrando um bar na descida da Ponte do Santa Isabel para o 13 de Maio, nas proximidades da Faculdade, encontrei o colega José Quidute, no sempre amarrotado terno de diagnonal branco – um luxo para a época  -, de gravata, que gesticulava e cantava alto a música tocada na radiola: Riacho do Navio, de Luiz Gonzaga. Era a sua terra de nascimento. Sentei-me à sua mesa, começamos o papo sobre a eleição para o diretório acadêmico, o mulherio, comprei uma ficha e apertei a tecla do baião Paraíba, a minha terra também de nascimento.
 Muitas horas passamos e sapatear e bater com os pés no rítimo da música que tocava. O colega Quidute, este saltava com a rapidez e o trejeito de cangaceiro, de quem sacava uma arma da cintura, empolgava o ambiente. Quidute era branco e tinha uma farta cabeleira negra que esvoaçava e todos aplaudiam. Eu, sem muito jeito, também dava os meus pulos, batia com força os pés no chão, mal sucedido numa tentativa de rabo-de-arraia fiquei de cócoras. Parecia um desafio. Cansados, quando um sentava o outro levantava. Bebíamos cerveja e comíamos  siri, caranguejo, espeto de carne.  A madrugada nos levou exaustos para os tabiques dos nossos quartos de pensão, nos sobradões coloniais.  -----------------------------