quarta-feira, 13 de maio de 2015

segunda-feira, 11 de maio de 2015

HILDEBERTO



PREZADO HILDEBERTO,
Depois de ler a sua poesia, as análises de sua critica literária, e de percorrer as veredas de suas crônicas na midia eletrônica, favorece-me o marxismo, fundamentando no método do materialismo histórico, inapelavelmente, a explicação do comportamento, diria da vida do homem na sociedade. Estranho? Não me parece.
Gosto de sua literatura: poesia, crítica, prosa em geral. Do melhor nível no país, no meu modesto julgamento. Na mundividência, talvez, está a nossa possível discordância. Mas detalhes somente, que as invalidam, talvez, reciprocamente.
Gosto da sua geo-literatura, inegavelmente fruto da sua vinda ao mundo, num lugar montanhoso de plantas e de rochas graníticas de abstrusas formas, acontecidas nos momentos precisos que se formam as substâncias orgânicas e minerais, e da superestrutura jurídica e ideológica da sociedade organizada como conhecemos, onde você viveu. Tal não acontece com todos, assumindo o fato, entretanto, no seu caso, os fetiches da mitologia cósmica, laboratorial, o contraponto de suas letras.  
Você não é um poeta somente, por lidar com as palavras, como asseverou alhures. O é pela emoção, quando a revela. Escritor, arma-se com a inteligência cultivada, para a guerra da vida, com o artefato e o artifício da linguagem para enfrentar a morte, não para viver a vida que pouco importa, a morte não.
No prejuízo e no lucro, estão os arquétipos da vida em geral, desde as regras sintáticas da linguagem às questões biogenéticas dos seres vivos, a cristalografia mineral. Uma dura contabilidade, a con-tragosto. É a minha ciência da vida e do ser. Mas estas noções bastam para alegrar-me com os sucessos de uns, lamentar os equívocos de outros. Inclusive os meus.
Assevero sem medo de errar, que a minha visão da vida e do mundo  recolhi-a na observação, na aferição de status, dada a minha vivência social, permitindo-me a leitura e o entendimento do estro de Augusto dos Anjos. Nada de esoterismo, de gnose. Mas das atividades tendentes a criar as condições indispensáveis à existência organizada da matéria e da sociedade, e, particularmente, na atividade concreta da produção e da prática humana.
A realização acadêmica de ajuizamentos, não escapa à regra do “Senhor Mercado” que tudo transforma em objeto de comercialização: o Prêmio, o Emprego, a Titularidade.”
            Escrevi para Evandro da Nóbrega:
“Augusto do Pau d’Arco, não era de tergiversação, porque o seu raciocínio alcançava a essência das coisas, moldadas em palavras de-finitivamente, no seu audacíssimo pensamento. E transformava-o em algo profundo, grandioso na explicação dos fatos e fenômenos que constituem a existência, o cosmo:  
Eu, filho do carbono e do amoníaco...”
Não precisava dizer mais. Neste verso descobrimos a matriz cósmica da sua mundividência. Ele não criou modelos nem caminhos. Retratar a vida na plenitude lírica da emoção, de sentimentos entre-vistos na realidade físico-química, explicitados na concreção da lin-guagem científica e filosoficamente mostrada em versos, foi o que ele fez. Algo intuitivamente empolgante e filosófico como os poemas de João Cabral de Melo Neto, duros e fortes tal pancadas de marreta partindo um lajeiro, produzindo paralelepípedos, relatando o trabalho, a fuga do migrante sertanejo sem terra, sem emprego na sua jornada como as águas para o mar, e finalmente o encontro com o hidrópico vivente do manguezal.
 Na minha limitação intelectual, confesso, e concluo que o fracasso final de modelos e sistemas políticos construídos, culminando entre nós, deve-se a atropelada confusão na leitura pelos acadêmicos petistas da sociologia ambulatorial-trabalhista de Josué de Castro, para explicarem textos afins, para criação acadêmica de sovietes, meros factoides, encarregados de emitirem conceitos e normas disciplinado-ras de todas as atividades artísticas. Uma paisagem humana vista e antevista.
O domínio da cena pela “esperteza” capitalista, na conceituação e qualificação de temas e modos de realização literária, dá lugar ao surgimento de uma profusão de teses, incompatíveis na minha con-cepção, para explicação do fenômeno artístico. Impenitente como personagens do meu romance “A Invasão das Cobras”, advertidos por você, sigo em frente com o meu entendimento, sem desdouro a ninguém.
Com a admiração de sempre.

domingo, 10 de maio de 2015

Poeta João Bernardo



JOÃO BERNARDO DE ALBUQUERQUE E O BRILHO DAS LETRAS PARAIBANAS
Morou em Sousa e agitou o ambiente social, como o fez em todos lugares por onde passou e viveu, o bacharel e poeta João Bernardo de Albuquerque, um nosso conterrâneo das barreiras do Rio do Peixe, nascido ali na cidade irmã São João, nomeada depois Antenor Navarro, voltando atualmente ao topônimo do passado, da sua cristã origem: São João do Rio do Peixe.
Em Sousa ele se fez importante, necessário, requisitado, em ações no tocante a elevação do nível social e de funcionamento de instituições civis e públicas que compõem o cerne da sociedade. Jurista de formação na Faculdade de Direito do Recife, famosa nacionalmente, marcou época – como o fizeram Castro Alves e outros notáveis numes das letras brasileiras, impondo regras de comportamento seguidas pela juventude boêmia e culta que frequentou aquela renomada escola do direito, alegrou e destacou a vida cultural da metrópole pernambucana.
João dava destaque às festas locais com a sua presença. Não ficava no “sereno”. Até tiros trocou com outro advogado numa rua central da cidade. E construiu a mais bela, moderna e funcional casa da cidade, ofuscando o bangalô do rico Ulisses Barros e os sobrados senhoriais de Emidio Sarmento e de Otacilio Sá.
João era um homem de estatura alta, de ideias altissonantes, casado com uma mulher também alta, que se mostrava sempre ao seu lado e eram avistados de longe, mais ainda pela elegância do traje, o perfume francês que rescendia por onde passavam. Valia a crônica da sua vida, o ímpeto de suas atitutes.
Uma parentela de sua esposa, pessoas destacadas, veio morar em Sousa, construíram casas também em estilo moderno, fizeram nascer uma rua cha-mada nobremente Rua das Princesas, escondendo o despeito local. Estabeleceram-se com lojas comerciais no ramo de tecidos e sapatarias, muito frequentadas. Nas tardes sertanejas as mulheres sentavam em rodas nas cal-çadas, deslocavam-se em troca de visitas de uma para outra residência, eram espionadas, invejadas.
Esses recém-chegados eram cearenses do Iguatu, e permitiram, sertã-nejos como nós, franco congraçamento entre a população dos dois burgos, a elite propriamente. As orquestras de baile se visitavam em festividades concorridas, muitas famílias uniram-se pelo casamento e os seus descen-dentes andam pela ruas, moram nas fazendas. Deu até preso no Golpe de 64, João Amílcar, estimado por todos, casado no povo de Napoleão do Forno Velho.
Mudando-se o jurista e poeta para morar na capital, pelo exercício do cargo público, foi vendido o palacete – luxuosa mansão , ao benemérito sousense João Virgínio de Sousa, o conhecido João Cazé, estimado fazendeiro de família numerosa, sendo com o seu falecimento, demolido em razão do inventário  e pela valorização do terreno dada a sua extensão e valorização.
Deixo que falem sobre João Bernardo o poeta, o homem de gênio , intelectuais de renome nacional, e indico as fontes facilmente acessíveis nas páginas da nossa saudosa revista “Letras do Sertão”, disponíveis no meu site Prosa Caótica na internet, no CCBN e com alguns amigos a quem doei, gravados em DVD a coleção completa dos exemplares. Disponho de outros, que posso pre-sentear aos que me solicitarem.
Começo com a transcrição de texto de Mauro Mota, mestre do jornalismo, da Academia Pernambucana de Letras, que vale pela verdade testemunhal da convivência. (contnua)



sexta-feira, 8 de maio de 2015

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Piancó



PIANCÓ OSTENTA O LÁBARO DOS INIMIGOS DA DEMOCRACIA E DA LIBERDADE.
SHAKESPEARE E KUROSAWA     A VISÃO OCIDENTAL E ORIENTAL DA LUTA PELO PODER

Um trono e muitos pretendentes. Como ilustração, encerrando querelas de uma vez por todas, recorro a Shakespeare e Kurosawa geniais retratistas de tipos, situações e sentimentos humanos, relocando-os  à minha paisagem sertaneja, paraibana. Macbeth e o Samurai descritos pelos mestres da narração e interpretação de costumes e tradições, na disputa pelo poder, submetidos aos azares da sorte estão no seu teatro e no seu cinema e em Piancó.
Não coloquei asas de anjos nos Leite Ferreira, cidadãos comuns, afetados, embora tenha admitido a conduta do Padre Aristides como tocada pelo demônio Sa-tanás. E dá para acreditar na realidade de tal comportamento dos dois lados o que recolhi em documentos e depoimentos de contemporâneos, que consultei e guardei.
A disputa entre partidos políticos paraibanos naquele tempo, envolvera na-turalmente a cidade de Piancó. Assim reconhece Celso Mariz. De um lado potentados rurais instituindo hábitos de suserania, que chegaram com a colonização, mandados pela Casa da Torre titular do morgado que dominava vales e sertões paraibanos. Do outro, os que se sentiam excluídos do processo de definição social da coletividade.
Acredito que deixei claro firmado em depoimentos e documentos, que Piancó paga muito caro, com imenso prejuízo moral para o seu povo e sua história, sustentar (até quando?) a estupidez, a burrice de fazer do Padre Aristides o seu herói. Um engano fruto da  obnubilação,  que prejudicou o direito de opinar, de julgar. Coisa de dinheiro.
Não culpo somente o empresário Teotonio Neto, que todos sabem pagava casa, comida, hotel em Piancó e na capital, alfaiate, roupa lavada, recrutando com objetivo político eleitoral, guarda avançada para o seu batalhão de falsários da história, da verdade, para derrotar os Leite Ferreira.
A roupa de diagonal branco engomada estralava no vai e vem de ruas, mesas de pife e de bar, clubes e festas usadas por quem não podia pagá-las. Mas funcionava como um distintivo, uma marca, um ferro: “Aquele é de Teotonio.” Muitos figuraram na sua folha de pagamento. Se prestaram alguns Leite Ferreira, inscritos como os deserdados nos livros de fiado das bodegas. Sem grandes realizações, finou o império de Teotônio, com prejuízo para alguns clientes. E foi dado curso à lenda da criação de um falso mártir para garantir a sobrevivência de outros, sempre contra os Leite Ferreira, cuja tradição familiar francamente decadente ainda os mantinha no poder.
Mas deixa prá lá. O Senado anulou a ata da sessão que declarou vaga a presi-dência da república, cassou o mandato do presidente João Goulart, empossou como substituto um fantoche. Foi ressalvada a moral pátria pelo Congresso Nacional. Agora, repito, já que as chuvas voltaram, os tempos são outros, cabe à Câmara Municipal de Piancó e aos cidadãos, apagar da sua história o vergonhoso lábaro de feroz inimigo das liberdades democráticas, da modernização dos costumes políticos.
Foi a mancha mais feia conquistada na infame e sangrenta emboscada que o Padre Aristides perpetrou contra as forças militares de jovens oficiais, em marcha patriótica através do país, que defendiam teses do voto secreto, do ensino primário obrigatório, de direitos sociais, trabalhistas. Não acredito que os piancoenses contestem estes princípios formadores da cidadania, da democracia. Pois este é o seu retrato, enquanto veneradores do tipo desajustado socialmente, o Padre Aristides como mártir e herói. Ele militou na política local por mero acidente: a derrota em 1915 do candidato a governador da facção dos Leite Ferreira.
Mártir de quê? Herói como? Com a malandragem sertaneja dos negociantes de feira, esperteza de João Grilo, o padre galgou posições, amealhou fortuna. A prática do assédio sexual às paroquianas, a constituição de família numerosa, a conduta desabrida, valeu à sua “suspensão de ordens”, decretada pela Arquidiocese da Paraíba, proibindo-o de celebrar missa, casamento, batismo, usar vestes talares.
Na tragédia, no drama, na comédia transcorre a vida e se desenvolvem legendas na sociedade dos homens. Infelizmente prosperou em Piancó a da inveja doentia, da traição dolorosa e cruel, da falsificação da verdade, da história. Esta a sorte, o destino de Piancó que adota o codinome de Guerreiro. Não dá mais. Não cola mais. Uma pena. Também, com tal herói retratando os manes de sua história é impossível.