segunda-feira, 11 de maio de 2015

HILDEBERTO



PREZADO HILDEBERTO,
Depois de ler a sua poesia, as análises de sua critica literária, e de percorrer as veredas de suas crônicas na midia eletrônica, favorece-me o marxismo, fundamentando no método do materialismo histórico, inapelavelmente, a explicação do comportamento, diria da vida do homem na sociedade. Estranho? Não me parece.
Gosto de sua literatura: poesia, crítica, prosa em geral. Do melhor nível no país, no meu modesto julgamento. Na mundividência, talvez, está a nossa possível discordância. Mas detalhes somente, que as invalidam, talvez, reciprocamente.
Gosto da sua geo-literatura, inegavelmente fruto da sua vinda ao mundo, num lugar montanhoso de plantas e de rochas graníticas de abstrusas formas, acontecidas nos momentos precisos que se formam as substâncias orgânicas e minerais, e da superestrutura jurídica e ideológica da sociedade organizada como conhecemos, onde você viveu. Tal não acontece com todos, assumindo o fato, entretanto, no seu caso, os fetiches da mitologia cósmica, laboratorial, o contraponto de suas letras.  
Você não é um poeta somente, por lidar com as palavras, como asseverou alhures. O é pela emoção, quando a revela. Escritor, arma-se com a inteligência cultivada, para a guerra da vida, com o artefato e o artifício da linguagem para enfrentar a morte, não para viver a vida que pouco importa, a morte não.
No prejuízo e no lucro, estão os arquétipos da vida em geral, desde as regras sintáticas da linguagem às questões biogenéticas dos seres vivos, a cristalografia mineral. Uma dura contabilidade, a con-tragosto. É a minha ciência da vida e do ser. Mas estas noções bastam para alegrar-me com os sucessos de uns, lamentar os equívocos de outros. Inclusive os meus.
Assevero sem medo de errar, que a minha visão da vida e do mundo  recolhi-a na observação, na aferição de status, dada a minha vivência social, permitindo-me a leitura e o entendimento do estro de Augusto dos Anjos. Nada de esoterismo, de gnose. Mas das atividades tendentes a criar as condições indispensáveis à existência organizada da matéria e da sociedade, e, particularmente, na atividade concreta da produção e da prática humana.
A realização acadêmica de ajuizamentos, não escapa à regra do “Senhor Mercado” que tudo transforma em objeto de comercialização: o Prêmio, o Emprego, a Titularidade.”
            Escrevi para Evandro da Nóbrega:
“Augusto do Pau d’Arco, não era de tergiversação, porque o seu raciocínio alcançava a essência das coisas, moldadas em palavras de-finitivamente, no seu audacíssimo pensamento. E transformava-o em algo profundo, grandioso na explicação dos fatos e fenômenos que constituem a existência, o cosmo:  
Eu, filho do carbono e do amoníaco...”
Não precisava dizer mais. Neste verso descobrimos a matriz cósmica da sua mundividência. Ele não criou modelos nem caminhos. Retratar a vida na plenitude lírica da emoção, de sentimentos entre-vistos na realidade físico-química, explicitados na concreção da lin-guagem científica e filosoficamente mostrada em versos, foi o que ele fez. Algo intuitivamente empolgante e filosófico como os poemas de João Cabral de Melo Neto, duros e fortes tal pancadas de marreta partindo um lajeiro, produzindo paralelepípedos, relatando o trabalho, a fuga do migrante sertanejo sem terra, sem emprego na sua jornada como as águas para o mar, e finalmente o encontro com o hidrópico vivente do manguezal.
 Na minha limitação intelectual, confesso, e concluo que o fracasso final de modelos e sistemas políticos construídos, culminando entre nós, deve-se a atropelada confusão na leitura pelos acadêmicos petistas da sociologia ambulatorial-trabalhista de Josué de Castro, para explicarem textos afins, para criação acadêmica de sovietes, meros factoides, encarregados de emitirem conceitos e normas disciplinado-ras de todas as atividades artísticas. Uma paisagem humana vista e antevista.
O domínio da cena pela “esperteza” capitalista, na conceituação e qualificação de temas e modos de realização literária, dá lugar ao surgimento de uma profusão de teses, incompatíveis na minha con-cepção, para explicação do fenômeno artístico. Impenitente como personagens do meu romance “A Invasão das Cobras”, advertidos por você, sigo em frente com o meu entendimento, sem desdouro a ninguém.
Com a admiração de sempre.

domingo, 10 de maio de 2015

Poeta João Bernardo



JOÃO BERNARDO DE ALBUQUERQUE E O BRILHO DAS LETRAS PARAIBANAS
Morou em Sousa e agitou o ambiente social, como o fez em todos lugares por onde passou e viveu, o bacharel e poeta João Bernardo de Albuquerque, um nosso conterrâneo das barreiras do Rio do Peixe, nascido ali na cidade irmã São João, nomeada depois Antenor Navarro, voltando atualmente ao topônimo do passado, da sua cristã origem: São João do Rio do Peixe.
Em Sousa ele se fez importante, necessário, requisitado, em ações no tocante a elevação do nível social e de funcionamento de instituições civis e públicas que compõem o cerne da sociedade. Jurista de formação na Faculdade de Direito do Recife, famosa nacionalmente, marcou época – como o fizeram Castro Alves e outros notáveis numes das letras brasileiras, impondo regras de comportamento seguidas pela juventude boêmia e culta que frequentou aquela renomada escola do direito, alegrou e destacou a vida cultural da metrópole pernambucana.
João dava destaque às festas locais com a sua presença. Não ficava no “sereno”. Até tiros trocou com outro advogado numa rua central da cidade. E construiu a mais bela, moderna e funcional casa da cidade, ofuscando o bangalô do rico Ulisses Barros e os sobrados senhoriais de Emidio Sarmento e de Otacilio Sá.
João era um homem de estatura alta, de ideias altissonantes, casado com uma mulher também alta, que se mostrava sempre ao seu lado e eram avistados de longe, mais ainda pela elegância do traje, o perfume francês que rescendia por onde passavam. Valia a crônica da sua vida, o ímpeto de suas atitutes.
Uma parentela de sua esposa, pessoas destacadas, veio morar em Sousa, construíram casas também em estilo moderno, fizeram nascer uma rua cha-mada nobremente Rua das Princesas, escondendo o despeito local. Estabeleceram-se com lojas comerciais no ramo de tecidos e sapatarias, muito frequentadas. Nas tardes sertanejas as mulheres sentavam em rodas nas cal-çadas, deslocavam-se em troca de visitas de uma para outra residência, eram espionadas, invejadas.
Esses recém-chegados eram cearenses do Iguatu, e permitiram, sertã-nejos como nós, franco congraçamento entre a população dos dois burgos, a elite propriamente. As orquestras de baile se visitavam em festividades concorridas, muitas famílias uniram-se pelo casamento e os seus descen-dentes andam pela ruas, moram nas fazendas. Deu até preso no Golpe de 64, João Amílcar, estimado por todos, casado no povo de Napoleão do Forno Velho.
Mudando-se o jurista e poeta para morar na capital, pelo exercício do cargo público, foi vendido o palacete – luxuosa mansão , ao benemérito sousense João Virgínio de Sousa, o conhecido João Cazé, estimado fazendeiro de família numerosa, sendo com o seu falecimento, demolido em razão do inventário  e pela valorização do terreno dada a sua extensão e valorização.
Deixo que falem sobre João Bernardo o poeta, o homem de gênio , intelectuais de renome nacional, e indico as fontes facilmente acessíveis nas páginas da nossa saudosa revista “Letras do Sertão”, disponíveis no meu site Prosa Caótica na internet, no CCBN e com alguns amigos a quem doei, gravados em DVD a coleção completa dos exemplares. Disponho de outros, que posso pre-sentear aos que me solicitarem.
Começo com a transcrição de texto de Mauro Mota, mestre do jornalismo, da Academia Pernambucana de Letras, que vale pela verdade testemunhal da convivência. (contnua)



sexta-feira, 8 de maio de 2015

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Piancó



PIANCÓ OSTENTA O LÁBARO DOS INIMIGOS DA DEMOCRACIA E DA LIBERDADE.
SHAKESPEARE E KUROSAWA     A VISÃO OCIDENTAL E ORIENTAL DA LUTA PELO PODER

Um trono e muitos pretendentes. Como ilustração, encerrando querelas de uma vez por todas, recorro a Shakespeare e Kurosawa geniais retratistas de tipos, situações e sentimentos humanos, relocando-os  à minha paisagem sertaneja, paraibana. Macbeth e o Samurai descritos pelos mestres da narração e interpretação de costumes e tradições, na disputa pelo poder, submetidos aos azares da sorte estão no seu teatro e no seu cinema e em Piancó.
Não coloquei asas de anjos nos Leite Ferreira, cidadãos comuns, afetados, embora tenha admitido a conduta do Padre Aristides como tocada pelo demônio Sa-tanás. E dá para acreditar na realidade de tal comportamento dos dois lados o que recolhi em documentos e depoimentos de contemporâneos, que consultei e guardei.
A disputa entre partidos políticos paraibanos naquele tempo, envolvera na-turalmente a cidade de Piancó. Assim reconhece Celso Mariz. De um lado potentados rurais instituindo hábitos de suserania, que chegaram com a colonização, mandados pela Casa da Torre titular do morgado que dominava vales e sertões paraibanos. Do outro, os que se sentiam excluídos do processo de definição social da coletividade.
Acredito que deixei claro firmado em depoimentos e documentos, que Piancó paga muito caro, com imenso prejuízo moral para o seu povo e sua história, sustentar (até quando?) a estupidez, a burrice de fazer do Padre Aristides o seu herói. Um engano fruto da  obnubilação,  que prejudicou o direito de opinar, de julgar. Coisa de dinheiro.
Não culpo somente o empresário Teotonio Neto, que todos sabem pagava casa, comida, hotel em Piancó e na capital, alfaiate, roupa lavada, recrutando com objetivo político eleitoral, guarda avançada para o seu batalhão de falsários da história, da verdade, para derrotar os Leite Ferreira.
A roupa de diagonal branco engomada estralava no vai e vem de ruas, mesas de pife e de bar, clubes e festas usadas por quem não podia pagá-las. Mas funcionava como um distintivo, uma marca, um ferro: “Aquele é de Teotonio.” Muitos figuraram na sua folha de pagamento. Se prestaram alguns Leite Ferreira, inscritos como os deserdados nos livros de fiado das bodegas. Sem grandes realizações, finou o império de Teotônio, com prejuízo para alguns clientes. E foi dado curso à lenda da criação de um falso mártir para garantir a sobrevivência de outros, sempre contra os Leite Ferreira, cuja tradição familiar francamente decadente ainda os mantinha no poder.
Mas deixa prá lá. O Senado anulou a ata da sessão que declarou vaga a presi-dência da república, cassou o mandato do presidente João Goulart, empossou como substituto um fantoche. Foi ressalvada a moral pátria pelo Congresso Nacional. Agora, repito, já que as chuvas voltaram, os tempos são outros, cabe à Câmara Municipal de Piancó e aos cidadãos, apagar da sua história o vergonhoso lábaro de feroz inimigo das liberdades democráticas, da modernização dos costumes políticos.
Foi a mancha mais feia conquistada na infame e sangrenta emboscada que o Padre Aristides perpetrou contra as forças militares de jovens oficiais, em marcha patriótica através do país, que defendiam teses do voto secreto, do ensino primário obrigatório, de direitos sociais, trabalhistas. Não acredito que os piancoenses contestem estes princípios formadores da cidadania, da democracia. Pois este é o seu retrato, enquanto veneradores do tipo desajustado socialmente, o Padre Aristides como mártir e herói. Ele militou na política local por mero acidente: a derrota em 1915 do candidato a governador da facção dos Leite Ferreira.
Mártir de quê? Herói como? Com a malandragem sertaneja dos negociantes de feira, esperteza de João Grilo, o padre galgou posições, amealhou fortuna. A prática do assédio sexual às paroquianas, a constituição de família numerosa, a conduta desabrida, valeu à sua “suspensão de ordens”, decretada pela Arquidiocese da Paraíba, proibindo-o de celebrar missa, casamento, batismo, usar vestes talares.
Na tragédia, no drama, na comédia transcorre a vida e se desenvolvem legendas na sociedade dos homens. Infelizmente prosperou em Piancó a da inveja doentia, da traição dolorosa e cruel, da falsificação da verdade, da história. Esta a sorte, o destino de Piancó que adota o codinome de Guerreiro. Não dá mais. Não cola mais. Uma pena. Também, com tal herói retratando os manes de sua história é impossível.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Piancó - Padre Aristides



PADRE ARISTIDES  - Piancó e a Coluna
Quando a Coluna Djalma Dutra/Siqueira Campos/Miguel Costa (depois chamada Coluna Prestes) realizava sua marcha histórica através do país, não era seu propósito o combate armado, mas a divulgação de ideias sociais renovadoras na política nacional. Partidariamente os coronéis sertanejos e suas oligarquias, que se alinhavam quer na situação quer na oposição, e desfrutavam as benesses do Estado estavam de um lado; e do outro os reclamos do povo contra o atraso econômico e social que tal procedimento acarretava ao país, e era escutado pelos militares.
No município de Piancó, que se destacava na Paraíba pela pujança e tradição de suas lideranças, duas forças se enfrentavam naquela ocasião: o Padre Aristides e seus seguidores, que representavam o Estado governado pelo presidente João Suassuna, e como se dizia então “estava de cima”, e a família Leite Ferreira com os seus correligionários que “estavam de baixo”, pois apoiaram a candidatura do Monsenhor Walfredo, derrotado pelo nascente clã dos Pessoas e seu grupo nas eleições de 1915. Mas os Leite resisitiam com o seu deputado federal dr. Felizardo Leite Ferreira, e o de-putado estadual Ademar Leite Ferreira.
Os Leites e o Padre Aristides representavam a ação política retró-grada no início do Século XX. Novas forças políticas nacionais se organizavam, lideradas pela oficialidade superior das Forças Armadas, cognominada “Os Tenentes”, nascida com os “18 do Forte de Copa-cabana”, que defendiam a modernização dos costumes políticos do país. A defesa do voto secreto, do ensino primário obrigatório, da industrialização, dos direitos trabalhistas e outras propostas éticas e democráticas no campo do desenvolvimento econômico e social eram a sua bandeira de luta.
Como se vê, Os Leites e o Padre Aristides representavam o atraso político e social dominante, e a marcha militar chamada Coluna Djalma Dutra/Siqueira Campos/Miguel Costa, generais, a modernidade. Luiz Car-los Prestes incorporado à coluna militar era capitão, e defendia as mesmas idéias sociais. O governo federal exigia dos governadores (presidentes) dos Estados, fosse dado combate à coluna que contestava a sua posição, oferecendo-lhes os benefícios de seus programas administrativos. Por sua vez, os presidentes dos Estados, na Paraíba João Suassuna, cobravam dos seus correligionários nos municípios, apoio para bem se situar perante o poder federal. Ao padre Aristides cabia, como correligionário do governo estadual, decidir sobre que devia ou não devia fazer. Nada envolve a família Leite Ferreira no episódio sangrento.
Ainda há tempo para reabilitar a honra e bravura dos filhos de Piancó, manchadas por indivíduos, que falseiam a história dos fatos re-ferentes à passagem da Coluna na cidade. Prestes naquele tempo era um competente capitão, não comandava, e naqueles dias não se falava ainda em comunismo.
Só depois, muito tempo depois de dissolvida a Marcha, exilado, Prestes fez leituras de caráter político na linha marxista. O governo brasileiro e a igreja católica representando na política internacional o lado capitalista, decidiram combater Luiz Carlos Prestes que se tornara líder nacional da linha socialista. A Igreja que se opunha à facção socialista, a que se integrara Prestes, passou a usar o episódio de Piancó como traço característico de uma política contrária à religião. E diziam que Prestes era assassino de padres e de criancinhas, inimigo da família, etc.
A família Leite Ferreira, ao tomar conhecimento da passagem da Coluna na região, procurou recolher-se às suas propriedades rurais como o fez, porque Piancó não estava em questão. Se estivesse, os Leite Ferreira se fariam presentes. O governo é que combatia a Coluna em todo território nacional, e o padre que obedecia ao governo agiu como agiu.
Homenagens, verdadeiramente, devemos e eu as presto, aos heróis daquele trágico dia, os bravos cidadãos, alguns anônimos, sacrificados pela leviandade traiçoeira do Padre Aristides. Lutaram como heróis, enganados, convencidos que defendiam a honra da cidade e do Estado, quando, na verdade defendiam simplesmente o prestígio do Padre Aristides como chefe político, para auferir as vantagens e gozar o prestígio oferecido pelo governador, em prejuízo da moralidade e dos bons costumes, todos sabem.
Transcrevo abaixo trechos de carta que enviei ao inteligente advo-gado Yurick Lacerda acerca destes fatos. Leiam.
“Como sempre, nos seus textos e neste ‘Seu Pedoca: Um Sopro de Vida e Beleza’, você empreende uma viagem através da história do velho Piancó. Dados relevantes e fuxicos, verdades, calúnias e leviandades transitam na via memorialística do seu trabalho. Aprecio a sua vocação para as letras ligadas à crônica e fofocas do Piancó Guerreiro e destacado pelos seus feitos, entre outros burgos paraibanos. Mas lhe faço neste caso, os reparos necessários.
 Pena que você não tenha lido “Os Mártires de Piancó”, do Padre Manoel Otaviano, que traça cuidadosa biografia do Padre Aristides e narra com detalhes traços de sua vida e a sua passagem como vigário e líder político na cidade de Piancó.  Ali está a verdade dos fatos, e a condenação da calúnia e do desvirtuamento da história por alguns. Em texto intro-dutório o escritor Celso Mariz registra que “A Coluna Prestes manterá na história do país uma tradição inapagável de idealismo cívico e a medida de uma das mais belas marchas militares do mundo”. E que  “... o padre Manoel Otaviano, por muitos motivos e qualidades, era o mais indicado para traçar o perfil em alvo e o acontecimento cruel. Foi discípulo, colega, amigo e depois adversário do perfilado... Era vigário em Piancó quando o padre Aristides já se achava em franca atividade partidária, quando foi suspenso de ordens, quando se deu a hecatombe do seu martírio”. Prefaciando a obra escreveu o próprio Manoel Otaviano: “O que vai exarado, neste livro, sobre a vida e morte do padre Aristides Ferreira da Cruz, trucidado no dia 9 de fevereiro de 1926, ao lado de fiéis companheiros do mesmo infortúnio, não sofre contestação. Conheço, de perto, todas as retas e curvas do seu caminho, desde os bancos escolares até o seu desditoso fim.
Expressão maior da intelectualidade do Vale do Piancó, assim ele comenta na sua tese: “a politiquice de fancaria, baixou as vistas e, sem-vergonhamente silenciou... Também não se compreende, em face dos mais comezinhos princípios de lógica, a berrante propalação, de que dentro da coluna rebelde, havia inimigos do  padre Aristides... Como se vê, pelo exposto, a calúnia não ficou de pé, ante a análise criteriosa dos fatos” (Os Mártires de Piancó – Editora Teone, João Pessoa 1954)
À alegação no seu escrito, portanto, de infiltração na tocaia pre-parada pelo Padre Aristides, de elemento ligado aos Leite Ferreira para atacar os patriotas da Marcha Miguel Costa/Siqueira campos, que depois da troca de mensagens chegavam à cidade de armas baixas (não em posição de combate e ataque), é chocante, demais estúpida e degradante dos princípios moorais, não se sustenta em documentos, nem depoimentos confiáveis. O historiador Manoel Otaviano destroçou-a. E o Coronel PM Arruda igualmente. A verdade é que o Padre Aristides decidiu, ele próprio, praticar o ato traiçoeiro, mas sofreu duro contragolpe, e lutou desesperadamente, para salvar a própria vida, não a honra de Piancó, o que não conseguiu. Um episódio que mancha a história da política nacional. Traiçoeiramente o padre fuzilou os primeiros militares da Coluna que confiantemente entravam na cidade. Aconteceu naturalmente o revide.
Desejo ressaltar  − e você sabe que é verdade −, que os Leite Ferreira não pedem licença a ninguém para estarem presentes na história verdadeira e oficial de Piancó: eles são a expressão dessa história. Você e Clodoaldo Brasilino, Chico Job, historiadores locais, e Celso Mariz, Cônego Florentino Barbosa, Cônego Manoel Otaviano, José Octávio de Arruda Melo, Humberto Cavalcanti, todos da APL e do IHGP, e outros intelectuais, já os citaram como personagens principais da vida local, com expressão estadual e nacional; desde a sua chegada à região no tempo do Brasil Colônia, mandados pela Casa da Torre, o que foi patenteado em conferências, livros, jornais e revistas. Para tirar dúvidas, relaciono bibliografia sobre Piancó e a Coluna, fundados em documentos existentes em arquivos públicos,
          Acontece que os opositores dos Leite Ferreira, até os anos 80 do século passado, poucos nomes ofereceram como ocupantes de cargos eletivos ou administrativos que ilustrassem a galeria dos notáveis na his-tória local. Somente o Padre Aristides Ferreira da Cruz, filho de outra cidade, intentou sustentar a oposição, acolitado graciosamente por opor-tunistas, em virtude do candidato a governador apoiado pelos Leite Fer-reira, o Monsenhor Walfredo, ter perdido a eleição em 1915. O padre Aristides foi um acidente de mau augúrio na história de Piancó. Mas a situação local revelava-se sempre solidária com os Leite Ferreira elegendo os seus candidatos.
Na Assembléia Legislativa, desde a legislatura 1840/41 até 1991, sempre teve assento um Leite Ferreira. Às vezes mais de um. No tempo em que exercia o mandato de deputado estadual éramos quatro Leite Ferreira no Plenário: eu, Ademar Leite Teotonio, Antonio Leite Montenegro e José Gayoso sucedendo o cunhado Djalma Leite Ferreira. Também na magistratura Felizardo Leite Ferreira Neto e outros, na Câmara Federal dr. Felizardo e dr João Leite Ferreira, no Senado dr. Salviano Leite, no Governo do Estado e em cargos importantes na burocracia estadual e federal estão os seus nomes. A escolha do Desembargador José Peregrino como candidato a governador, contou com o decisivo apoio dos Leite Ferreira de Piancó. Sem eles teria fracassado. Casado com uma sobrinha do Dr. João Leite Ferreira, inconteste chefe de ampla região sertaneja en-volvendo os municípios, de Piancó, Pombal e Patos, contando ainda com a solidariedade dos Gomes de Sá, de Sousa, foi vitorioso no pleito com o apoio da valorosa família Leite Ferreira. Mesmo em franca decadência, atualmente, três Leite Ferreira são vereadores em Piancó.  
Parabéns Yurick, pelas sentimentais revelações sobre o seu avô, um dos ilusres filhos de Piancó, com quem pouco convivi, mas muito admirei como artista. Quanto ao endeusamento e glorificação do Padre Aristides que você e alguns pretendem, digo sem medo de errar: Piancó não merece tal rebaixamento, tal despropósito, que constitui uma traição à tradição deste povo bravo, que tem entre os de ontem e os de hoje, legítimos e mais altruístas personagens e heróis. O padre Aristides nem sequer era filho de Piancó. Era de outro lugar, um desajustado e estranho no meio.
          O problema é que os Leite Ferreira mostravam-se imbatíveis, e para enfrentá-los os adversários muitas vezes derrotados, tiveram de inventar, criar um mártir na controvertida figura do Padre Aristides Ferreira da Cruz. Os inimigos gratuitos queriam fazer do padre um herói, mesmo na base da mentira; usá-lo como instrumento de uma luta inglória contra os Leite Ferreira – falseando a verdade e a história, como de fato tentaram, e con-testo publicamente. Movia o padre Aristides intenções sinistras, o despeito, interesses eleitoreiros; os Leite Ferreira, pelo contrário, sustentavam a sua presença na vida local na condição de primeiros colonizadores, do pres-tígio do trabalho nas fazendas de criação de gado e produção agrícola, no encaminhamento da família para a educação de nível superior, com mé-dicos e advogados, dentistas, engenheiros, destacando-se politicamente e empresarialmente, residentes alguns no município.
Em discurso no Senado (Ata da 181ª. Sessão, da 3ª. Sessão Le-gislativa da 4ª. Legislatura em 11 de outubro de 1961) o senador Salviano Leite tratou deste assunto, aparteado por outros senadores que ofereceram, por conhecimento próprio, irrespondíveis informações sobre o caráter agressivo e irascível do Padre Aristides. E também depoimentos de mili-tares figurantes do lamentável combate, relatam o acontecido que custou vidas preciosas, e restabelecem a verdade dos fatos; das bandeiras brancas, da troca de mensagens, da fuzilaria traiçoeira.
O que resta comprovado extreme de dúvidas, é que o padre Aristides provocou levianamente o confronto. Quanto ao seu heroísmo, tal não me impressiona, porque não existiu. Ele era um desajustado, em conflito com Igreja Católica, réu condenado pela legislação canônica, feroz defensor de privilégios. É verdadeiramente uma figura de nenhuma importância do ponto de vista da ética social, política e religiosa. Pelo contrário. Somente um pretenso coronel protetor de cangaceiros como tantos, no estilo da época. Não passava disto. E o que é pior, envolvido em negócios com personagens escusos que proliferavam nas feiras, no comercio de gado, de animais. Todos conhecem e alguns remendaram a “história do boi lavrado”.
Desculpe-me as alegações que faço como um dever em prol da verdade, que tem sido falseada ao longo dos anos. Os que ficam do outro lado não defendem a honra, a história de Piancó. São simples e despeitados inimigos gratuitos da família Leite Ferreira. Inimigos da verdade.
  Eilzo Matos – 12/6/2010
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Numerosos são os títulos que formam a bibliografia sobre a Coluna  Miguel Costa / Prestes / Djalma Dutra / Siqueira Campos / Cordeiro de Farias /  Juarez Távora, congregando militares do exército brasileiro, como fato político e marcha militar, inspirada na chamada “rebeldia dos tenentes” contra ato de punição imposta pelo presidente Epitácio Pessoa ao Marechal Hermes da Fonseca, responsabilizado por intervenção política  indevida junto a comandos militares. Sobre a resistência oferecida à passagem da Coluna na cidade de Piancó, na Paraíba, apenas três obras acabadas a descrevem, revelando no depoimento dos que viveram e depuseram sobre o fato, a verdade inteira.
a)    Os Mártires de Piancó, 1ª. Edição, Padre Manoel Otaviano – Editora Teone, 1954,João Pessoa PB
b)    A Coluna Prestes na Paraíba, 2ª. Edição Padre Manoel Otaviano – João Pessoa PB
c)    A Coluna Prestes e a Paraíba – Lucia de Fátima Guerra Ferreira – UFPB
d)    Lutas e Resistências, pág. 157, A Coluna Prestes na Paraíba –José Octávio de Arruda Melo
e)    Meio Século de Combate – Cordeiro de Farias, Editora Nova Fronteira, 1981
f)     A Coluna Prestes – Nelson Werneck Sodré, Ed Civilização Brasileira
g)    A Coluna Prestes – Neill MacCaulay – Difel Editora
h)    História do Brasil – Tenentismo, Helio Silva
i)      A Coluna Prestes, Marchas e Combates -  Lourenço Moreira Lima – Autor Nacional, Cultura Brasileira – Anais do Senado e da Câmara dos Deputados
j)      A Coluna Prestes, 2ª. Edição, Anita Leocádia Prestes, Editora Brasiliense.
k)    A Vida do Coronel Arruda – Cangaceirismo e Coluna Prestes – Ed. Riográfic, João Pessoa 1989