quinta-feira, 26 de setembro de 2013



EZRA POUND,  HILDEBERTO  BARBOSA  E A  MATRIZ  DAS  LETRAS
            Sessenta e oito anos de empenho foi quanto levou a composição do “CANTOS” de Ezra Pound (Nova Froneira 2012), ele o afirma, e também contam os biógrafos e estudiosos de sua extensíssima obra literária. Não me proponho tiradas de sua vida de polígrafo, somente algumas breves referências, e registros dos historiadores e críticos da literatura. E colocá-lo ao lado do poeta paraibano Hildeberto Barbosa Filho. Avulta neste mister, atenção às anotações de fatos sucessivos e curiosos da controvertida personalidade intelectual do primeiro, que dominou a poética do século XX, traçan-    do novos rumos e construindo, na expressão de Hugh Kenner  “uma épica sem enredo”. As considerações alinhadas, propõem-se chamar também a atenção, igualmente, para a construção da obra poética do paraibano, com o lançamento do seu “NEM MORRER É REMÉDIO, Poesia Reunida” (Ideia, Pb 2012), um misto de lirismo e épica apo-tegmáticas. Poeta completo, cuja poesia quer ser apenas poesia, sem significado encoberto em títulos e representações. Tão jovem ainda e já tem lar, conta no banco, biblioteca, paisagens, lembranças, amores, passado, tradição.  
            Os comentários aqui reunidos, simplesmente são visões breves, sem erudição e desenvolvimento necessários, para tese tão abrangente e ao mesmo tempo indutora no campo da crítica e teoria da literatura.  Hildeberto, entretanto, isso quero dizer: não  é  nem será um anônimo intelectual, um suicida das letras.  Pelo con-trário, prende-se ao propósito de perpetuador da vida, porque, afinal, a manifestação maior de sua consciência é a antenada e inextinguível expressão do texto literário, que se propõe via e leito da crônica humana, como um ato da criação que se prende na eternidade.  
TS Eliot explicou-se: “com tais fragmentos foi que escorei as minhas ruínas, pois então vos conforto”. Mas Hildeberto  não falaria em ruínas, certamente o faria sobre arquétipos monumentais, da natureza humana em versos prosaicos ou, marcos para duração que se perderia no tempo, indestrutíveis, inapagáveis. A poesia tem essa força de criadora de mitos, de inspiradora de modos e modelos grandiosos.
 Acho interessante e curioso o sentimento pedagógico que está pre-sente na poética de Pound, na absorção e composição de palavras e textos em línguas estrangeiras, nos ideogramas chineses, no cavalheirismo e na ética provençal. Um cuidadoso mestre-escola, chega a parecer. São falas e comportamentos que ditam datas históricas. É um monumento literário descritivo de avaliações e julgamentos, como se fossem tirados da contabilidade de um banco, realidade tão recorrente na sua familiar crítica às construções financeiras, erguidas até ao relento e através de pilhagens sobre cadáveres insepultos pisoteados.
               Em poesia a forma é aglutinativa de sentimentos e palavras. Eis o que poderia ser considerado um axioma poundiano, envolvendo o ideograma e o metrômeno. Sempre ela a palavra, o Verbo, inscrito na voz dos poetas. Pound é mais narrativo, comparativo, exuberante: sabe do histórico e do eventual, do político, do brado e do silêncio;    Hildeberto,  registrando até minudências intemporais, a sua vida, que é a de todos, debruçado talvez  na  mesa de uma estalagem maldita, tocan-do a face nas tábuas úmidas e gordurentas, copia um atribulado personagem de Conrad. Romantismo? Não sei. Cientismo, pode ser, que se depreende da escolha  de um terceto do “Budismo Moderno” de Augusto dos Anjos, como epígrafe para o seu livro em questão. Nos dois o “espetáculo do amor em vastas e acesas clarabóias”.
              Inacreditável e legendário já se mostra, o fazer literário de Hilde-berto,  que descobre  o “orgasmo das pedras” lavadas pelas águas em turvas imagens, de assaz insondáveis grutas − os escaninhos da vida reprodutiva, orgânica e inor-gânica, por contato, metamorfose. As grandes questões, os movimentos e momentos ditos imperceptíveis, se interpenetram na sua poesia como termos de uma equação sem incógnitas, O fascinante momento da submissão de elementos quânticos ondulatórios, à irresistível doçura do lirismo feito em palavras. O desenrolar da vida marcando situações humanas, reduzindo-a aos ínvios circuitos do destino, à metá-fora do rio, que reproduz coisas assim, de primitivas e gigantescas abduções, consu-madas nas fraudes e nas seduções. Afinal disso vivemos e disso somente  tratamos.
 Não foi por acaso, que Monsieur Jourdain descobriu, que durante toda a sua vida, sem o saber, dialogava e argumentava em prosa. Os poetas, também sensíveis criaturas do povo, conhecem este procedimento. Pessoas com a mente em perpétuo movimento aglutinativo ditam conclusões, criam conceitos, propõem regras. Aludem a questões acima de vultos e personagens eruditos e prosaicos, clássicos e ordinários. A sede de álcool de Hildeberto, leva ao delírio – mera psicopatia – e equivale ao equívoco ético-político de Pound, aderindo ao fascismo, mero estado d´alma. Fogem do seu mister, não criam versos exemplares, que preparam  o cerimonial da própria morte, como acentuaria Rainer Maria Rilke. (continua)
               


  ASCENDINO LEITE – POESIA REUNIDA
(O VAQUEIRO “PRACIANTE”, SEM CAVALO, ESPORAS E GIBÃO)
       
              Ignoro se Ascendino Leite foi ou não aluno interno em seminário, em convento católico. Caso afirmativo, explicar-se-ia a sua condição de presa da libido, presente nos seus versos, numa forma de reação natural, talvez, ao isolamento forçado, à clausura.
Homem de letras, jornalista, Ascendino freqüentou os círculos da agitada  e esnobe vida social e política do país, os “circuitos” mais afamados da elite no Rio de Janeiro, então capital do país. E nesses ambientes alegres ou não, a palavra de ordem em qualquer tom era o prazer, o sexo, com e sem dissimulação. Esta a razão inspiradora dos seus versos, acredito, que levou o seu prefaciador Ivo Barroso a escrever: “Perpassa por todo o livro um erotismo sadio... de um ineditismo impossível depois do Kama Sutra.” Por seu turno  Hildeberto Barbosa vê a sua poesia  reunida  “...como um pequeno tratado dos sentidos, por onde trespassa o desejo como força regeneradora da vida.” Agrado. De minha parte, sem ofensa pessoal, mas com o respeito que lhe devo, como parente e escritor, nada melhor para fazer, nos anos finais de sua vida (depois dos oitenta), do que definir, ser este, o objeto e destino para sua poética. Um ato de coragem, ou dissimulação de amores impossíveis, negados. Nada mais lhe resta, ele sabe.
Entristeceu-me, é duro dizer, a leitura da “POESIA REUNIDA” do paraibano de Conceição de Piancó, a rigor, por lá não encontrá-los: ele, a cidade, a paisagem e as pessoas, como são. Falo em hábitos, costumes, relevo geográfico, coletividade, urbanização, genericamente, sobretudo da consciência, dos ali nascidos e que se fizeram naturalmente: as plantas, os bichos, as pedras, a água, o sol, a lua, as estrelas e o vento. Sabia-o telúrico, cangaceiral, encontrei-o, entretanto, reservado, polido, exercendo funções relevantes, administrativas, cartoriais, como outros  conterrâneos, dignos, de tempo mais recuado, e destaco Nicolau Rodrigues de França Leite e José Siqueira, regendo cátedras e filarmônicas, admirados e aplaudidos nas Américas, inclusive na Europa.
Essa questão de cultura e erudição, do clássico e do popular, pesa forte na consciência dos letrados, que, como tal, revelam-se entes sociais cuja formação os tipifica no proceder, na integração psico-material que os reúne em coletivida-    des como as bactérias e como as pessoas. Criam escolas, estilos na divulgação dos escritos, no seu comportamento, como as abelhas, as aranhas, enfim. Sempre um estilo. Literatura não é régua e compasso, mas espaço e signos ideográficos, lingüísticos, palavras e fidelidade e sentimento.  
 Ascendino, leitor compulsivo de autores nacionais e estrangeiros, tra-dutor, brilhando nas letras brasileiras, como outros, deixou-se vencer pelo “classicismo” letrado. Os temas, o sentimento nos seus escritos, podem estar
 voltados para o Vale, como denominamos a região tributária no rio que dá nome  à terra. Algo, todavia, atropela o seu estilo, logo ele, reconhecido entre os mais inspirados e conscientes escritores do país. Foge para outras paragens. Nos romances publicados e no seu jornal literário, é um mestre no nível de Osman Lins, Ivan Bichara, Ernani Sátiro, de Pedro Nava, de Álvaro Lins e outros notáveis do memorialismo literário nas Américas, na Europa. Não exijo na sua prosa de ficção, no seu memorialismo, estereótipos sociais, recolhimento e organização museológica de espécies biológicas, minerais, mas o que nasce de sua interação. Da paixão e do amor libidinoso ele fala. E da corte, dos salões, da amizade, da admiração afetiva.  
Sei de gente, de pessoas ilustres como ele, também do lugar, tresmalhadas em territórios estranhos, infensas, entretanto, à pressão colonialista dos chefes da sociedade que as recebe, como os negros nas Amércas. Está aí Elba Ramalho, cantora, atriz, noiteira, devota de Nossa Senhora, filha de Conceição. Uma que outra fugida para o carnaval, para o samba, se permite, ela da linha melódica do baião, do forró nordestino que ocupa com força e reconhecimento o seu lugar de  destaque na música popular brasileira, encarnando a força do semiárido. Mas até pelo tom da voz todos a identificam: É do Vale do Piancó, gritam. Cada qual com o seu cada qual, como lá se fala. 
Deixemos Ascendino com sua morada na rua escolhida para abrigar a inspiração, praticar a sua prosa a sua poesia. Porque a moderna tecnologia que absorve a atenção geral, no fim torna-se indesejável, não lhe interessa, porque se recria ela própria, anuncia-se com mudanças inesperadas, instantâneas, sons e ruídos desconhecidos, confunde ao se mostrar auto-suficiente, vencendo o tempo: o ontem, o hoje, o amanhã, misteriosamente sabidos e descritos à saciedade. Incompatível com  a reflexão fundada em sensações, fatos, experiências.
Li com muito agrado páginas do seu “jornal” e nelas deliciei-me com a beleza sonora das frases, a conclusão filosófica dos raciocínios. Argumentações, um misto de desencanto e esperança. Não reduzi a somenos a sua poesia, nos comentários acima. Jamais o faria. Chama-me a atenção, não que ele necessite, porém ilustra o verso e o torna viajor, as dedicatórias a pessoas, notáveis e simples, sentimentos  nem sempre singelos  declamados aqui e ali. Certamente o ambiente de Herbert Sales, Tom Jobim, Waldemar Duarte, Rosilda Cartaxo, do mundo das artes, e de políticos e empresários, dos conclaves e balancetes, reconheço, permite-lhe o sucesso de mascate das letras porque atinge o leitor certo, conquista o leitor privilegiado porque homenageado.
Mas sobre a sua poesia reunida, com flash-backs e premonições, aduzirei autocrítica que deixei escrita no meu “PROSA CAÓTICA, II” (inédito): Não sei de obras novas criadas por autores velhos. Aos organismos vivos, nos limites da vida, a natureza nega até o poder da reprodução. A criação na velhice aparece como um filho da juventude, esquecido, talvez renegado ou escondido. Na velhice assumimos as coisas por adoção. É duro reconhecer.
Aqui a ocupação da mente. Nada de abstrações, exercícios literários:
“Despedi os últimos pensamentos e com eles as mulheres” – Eis que o Vale me enriquece de lembranças”.         -----------------------------



terça-feira, 30 de abril de 2013

Notas da Fazenda



SERTÃO, GUIMARÃES ROSA E ARIANO SUASSUNA
Estava no alpendre, o telefone chamou e atendi contrariado, porque me deleitava olhando para o nascente com o “céu carregado” de nuvens sombrosas, escutava o ronco do trovão trazendo a chuva, que já vinha perto. Como no mês de janeiro. Uma alegria, uma esperança. O ano passado, esclareço, foi seco, pouca chuva, quase nenhum relâmpago e trovão, e já neste fim de abril corrente, a situação é a mesma, o rebanho no cocho pelo segundo ano, sendo recomprado com o custo da ração. O aborrecimento, todavia, desapareceu: era o amigo Gonzaga Rodrigues. Informou sobre a solenidade regimental da Academia Paraibana de Letras, em memória do imortal sousense Paulo Gadelha, falecido há um mês. Fez consultas sobre Paulo e sua vida, para o discurso que fará na homenagem.  
Chegou enfim o temporal, confirmando “sinais” que eu entrevira durante o dia, e comentário que escutei depois, sobre a chuva da tarde. Pela manhã comparecera a uma cerimônia religiosa católica, para o sepul-tamento de duas idosas senhoras sertanejas, de famílias amigas, da minha vizinhança. “Dona Leó e dona Raimunda eram caridosas, e deram muita água aos que passavam com sede na sua porta. A chuva paga o mereci-mento de sua caridade”, alguém observou. Era a crença local na relação entre a chuva e os atos das pessoas.
Os costumes e hábitos, os adquirimos na infância, verdadeiros, ines-quecíveis, viram lembranças. Aqui, principalmente em relação ao inverno. Para qualquer palavra referente a negócios, nós sertanejos costumamos olhar para o céu, para o Nascente. Não faço charme, o sertão é o meu lugar. Nasci no sertão, me criei no sertão, pouco saí do sertão e moro no sertão. Aliás, a vida, o ambiente, em qualquer local, é entremeado de situações sertanejas, digo, que lembram o sertão, na fala, nos detalhes ambientais, decorativos. E nos encanta e alegra, porque o sertão está em todo lugar: esta afirmação tirei-a de leituras, de citações patrioteiras, legítimas de Gui-marães Rosa. Por sinal, tratando ainda de escritor famoso, escutei o sertanejo Ariano Suassuna, em recente palestra na cidade de Sousa, investir contra a entonação, a pronúncia das palavras, das frases com acento malandro de carioca, preciosismo de paulistas submetidos a múltiplas influências na construção de sua identidade, nascida da memória alheia, de imigrantes de Asia, Europa, África, Américas. Diferente de nós ibéricos-nordestinos, que primeiro descobrimos o Brasil, criamos uma língua brasi-leira. É a dita pelo poeta “flor do Lácio inculta e bela”.
Tal felonia acontece com muitos imigrantes nordestinos, numa rendição servil aos costumes dos que mandam na sua vida. Existe, pois, uma linguagem, um falar, próprios dos habitantes da nossa pátria nor-destina. O que vale para mim, portanto, é a memória, e a minha está na infância. E a minha infância é paraibana, sertaneja, do semi-árido. Sobre o modo de falar, conheço pessoas da catinga que, passando um mês no Sul voltam chiando nos “s”, cantando e escorregando feito passarinho; sei de gente nascida e criada aqui em Sousa, formada na capital, político de mandatos, que fala como os pernambucanos sem nunca ter morado lá: “impertxinentxi”, “osx doisx, tresx. Herança batava, dele? Poderia. Nossa, não. O meu vaqueiro Raimundo de Elias, anos atrás passou um mês em São Paulo, voltou de óculos escuros, com fitas de baiano no punho, trouxe relógio, gravador, uma raridade naquele tempo, chiava nos “s”, exclamava caramba! caralho! a qualquer pretexto. Com algum tempo retornou ao que era. De minha parte, posso dizer que morei doze anos no Recife, viajei pelo Sul e não aprendi a falar como os de lá: difícil para mim, enrola a língua, range os dentes.
Escritores e artistas nordestinos ditaram: a pátria é a infância. Luis Jardim, Santa Rosa, os que lembro. Teve um francês que escreveu: “La patrie c´est  l´enfance retrouvée”. Tal como os nossos. Todas as pessoas têm a sua pátria porque lá nasceram, viveram a infância e não a esquecem. Me envergonha o procedimento de conterrâneos que negam a origem, co-mo argumentei no parágrafo anterior. Li um texto esclarecedor do poeta e polemista Bruno Tolentino, acentuando que as mudanças no tempo e na vida não apagam as lembranças dos fatos, para ele, testemunhas da ci-vilização. Para nós dos tropeiros e boiadeiros. Identificamos o autor de “Verdes mares bravios de minha terra natal”, “Deus ó Deus onde estás que não respondes?” José Alencar e Castro Alves, o que soubemos na escola, nas conversas, nas referências de conspícuos improvisadores, cantadores de viola. Escreviam, falavam,  descreviam o seu lugar.
Importante a leitura do texto a seguir: “Elevar um discurso para fora do alcance do poder letal do tempo significa, justamente, temporalizar ao mais alto grau as coisas e as linguagens da mente... Estou dizendo que o poeta máximo é aquele cujo dizer, fundado nas coisas deste mundo, num presente vivido, tende de modo natural àquelas alturas do pensamento a que convergem o universal, os mistérios da sensibilidade de um poeta e as sutilezas de seu idioma. A partir de então este pode “mudar” o quanto seja – e nosso léxico preferencial e até nossa sintaxe mudaram muito desde a composição de “Vozes d’África” (e acrescento “Iracema”) – mas não lhe será mais possível furtar nada ao impacto emotivo-verbal que a um dado ponto na história nele encarnou-se perfeitamente”.
Em nós, a prosódia, os hábitos e os costumes. 
..............   Fazenda Lagoa de Baixo, abril 2013.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Notas da Fazenda



RASTRO DE ANDARILHO
EILZO  MATOS
“Jardim Miramar, Maio 1966”, esta inscrição está no final do livro que tenho em mãos. É a data do término da composição da novela-romance “Rastros de Andarilho”, de José Urquiza, como o “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, tratando dos dramas e da vida de bichos e pessoas, envolvidas numa existência no mesmo espaço e cenário, comuns à convivência de todos. Os acontecimentos, as tragédias são iguais. Ideólogos e comentaristas atribuem-lhe um qualificativo. Nada mais. A literatura, entretanto, revigora-se dialeticamente, como expressão e fenômeno exclusi-vamente humano, na teoria do conhecimento, tratando do costume, da vida em sociedade. Também é o retrato social e político de uma época.
Vivi aquela data noutro “sitio”, como falam os portugueses. Mas, como acentuou Guimarães Rosa, seria o mesmo lugar, porque o sertão está em todo lugar, por mais afastados que sejam um do outro, em toda parte, e falando-se de Patos de Espinharas e Sousa do Rio do Peixe, a distância quase não conta, porque se troveja e relampeia numa cidade se escuta e vê na outra. Esta é a estreiteza da vida, perceptível, impositiva, coercitiva. A abrangência no seu fazer, tornando a totalidade em semelhança e homogeneidade, submetida inelutavelmente à práxis do ser.
Batedor de tijolo, prostitutas e meganhas desfilando em passadas, no modo do trabalho de cada um, também a sofrida cachorra, amojada, abandonada, requestada, enfrentando um destino de fracassos e sucessos como as mulheres, as pessoas enfim. As famílias sem documentos, os comerciantes sem lastro, as paixões, duradouras ou não, se exibindo na cadeira de balanço de noitinha na calçada. O trono do cabeça-de-casal.  Este um universo inegavelmente humano, trágico e feliz como acontece nas comunidades organizadas, a espada pendendo na cabeça de cada um.
A narrativa de Urquiza é expressivamente literária, para mim mais ao gosto do jornalismo-reportagem. Ignoro se na sua vida ele militou na redação de jornais, como repórter ou assinante de colunas, editoriais, sueltos, reportagens. Encontraria aí a provável influência no estilo de escrever, de redigir. Na sua novela, o relato, os figurantes, os fatos, tudo está efetivamente na linha do realismo  reprodução instantânea do momento, como na fotografia profissional. Esta a impressão que o livro me causou. Mas, o romance está preso também à sociedade dos homens, nos seus percalços. Em nada ligado ao simbolismo recorrente do terror e da tragédia dos romancistas ocidentais do século XIX, tampouco à incompreensível explosão de fatos supostamente produzidos pelo desenvolvimento de processos tecnológicos, à moderna ficção científica, na mitologia das transmutações, dos avatares, incompreensíveis e inaceitáveis para alguns. E o curioso encadeamento de fatos e destinos envolvendo pessoas e bichos, despertaram-me emoção e simpatia. Ah! Como a literatura encerra a minha vida nos seus recursos imaginários jamais permitidos na vida! E estimei a novela do amigo desaparecido.
Não gosto de livros volumosos como tratados de ciência, de romances cíclicos que atravessam épocas, mas da vida sendo vivida em palavras e ações, nada de usufruto, fruição de heranças personalistas. Grande é a vida de cada um, e viver é lutar, mesmo sem arroubos shakespeareanos. Muito tenho a meditar e tentar comentar sobre o livro do contraparente e amigo José Urquiza, em nome da nossa amizade, pelo texto e sentido de sua criação artística.
Fica pra depois.               

domingo, 14 de abril de 2013

Notas da Fazenda

RICARDO, O CAMELÔ NAZISTA CUSTEADO COM MUITO DINHEIRO PÚBLICO

O chamado “Orçamento Democrático” tão badalado na imprensa como uma das grandes realizações do governo estadual, não passa de um capricho irresponsável do governador Ricardo Coutinho, da manifestação irreprimível do seu comportamento ditatorial e antidemocrático. É sua intenção, tornar público e dispensável, o papel fundamental do Poder Legislativo de analisar e votar o orçamento. Visa pressionar e manietar o Parlamento com ações criminosas por ele coordenadas. Mas é preciso reconhecer, e ele jurou respeitar, a legalidade do Poder, porque se trata de um órgão constitucional, como o Judiciário e o Executivo. Não o é, entretanto, o tal “orçamento democrático”. Este é apenas uma gangorra, um disfarce: não trata da administração, mas da reeleição de Ricardo. Sei que os pseudo-cientistas do Direito, que auferem vantagens nos governos antide-mocráticos, partirão em sua defesa. Mais um logro conhecido.

O “Orçamento Democrático”, ao analisarmos a sua estrutura e forma de funcionamento, constatamos que se trata de uma organização espúria, facinorosa, doutrinariamente construída e financeiramente mantida criminosamente com verbas públicas, pelos inimigos da democracia, os aproveitadores, os xeretas. Impossível esconder, negar os fins inconfessáveis.

Peço permissão ao jornalista Rubens Nóbrega, para utilizar os termos do seu recente REPTO dirigido ao Governador: “NÃO, NÃO TEM MORAL!” (Jornal da Paraíba 12/04/2013) Quando entre outros fatos argumenta: “O Passe Livre criado pela Prefeitura da Capital deve beneficiar muito mais alunos do que apenas os 40 admitidos pelo governador Ricardo Coutinho em virulenta, destemperada epropositada desqualificação do programa lançado pelo prefeito Luciano Cartaxo”. Por esta razão chamo a atenção, para esta manifestação trágica, antidemocrática e caricatural do chamado Ricardo Boca Torta. É a inveja e o despeito pingando no seu suor mefítico. E sabemos com que fim.

Acho que vale a pena fazer um levantamento das despesas com a mídia, documentos, transporte, alimentação, hospedagem, material de expediente, diárias, etc, e, principalmente a soma em dinheiro, gasto em gratificações aos articuladores e participantes das “reuniões” de qualquer tipo, como “preparatórias”, “assembléias” etc, que se multiplica em todos os recantos do Estado, com a finalidade de montar a arapuca nazista – o orçamento democrático. Ali ninguém está de graça.

Duvido que pessoas deixem as suas casas, outras ocupações sem a contrapartida da boa alimentação, do transporte confortável, da hospedagem, do pagamento da farra animada por bandas, e da carimbada simpatia do governador. Deve a despesa chegar, como se diz popularmente, a uma grande soma, a uma “fábula”. Porque esse pessoal, ganha e recebe todos os dias, durante o ano inteiro dinheiro e vantagens. E como são muitas! Ali ninguem está de graça, repito.

Aliás, acho mesmo que essa bagunça administrativa, presta-se bem para preparar criminosamente a campanha eleitoral para a reeleição do atual governador. É isso o que ele quer. É mestre na dissimulação, na enrolada. Costuma alimentar-se eleitoralmente dos detritos morais da política estadual. É o típico camelô de luxo, aquele custeado pela administração pública que paga a ostentação de sua magnificência. O sofrido propagandista de produtos do comércio modesto, no meio da rua, é outra pessoa na dignidade do seu trabalho, muitas vezes enxotado, espancado como Ricardo o fez na nossa capital. É, entretanto, o protagonista da exteriorização das perebas, das doenças políticas e sociais deste governo, que não consegue esconder.

Notas da Fazenda

DORGIVAL TERCEIRO NETO
A minha lembrança de Dorgival Terceiro Neto sustenta-se na sua crônica de estudante no colégio de Patos, depois hóspede da Casa do Estudante em João Pessoa - quando a Paraíba começou a conhecer e admirar a fortaleza do seu caráter incorruptível. Daí pra frente a índole, o temperamento definiram o cidadão que permaneceu impoluto como convém a todos, ao homem público principalmente. Não privei de sua convivência no período de sua vida estudantil. De uma geração, um pouqinho mais nova, e estudando no Recife, pessoalmente não o via, mas a sua legenda chegava aos meus ouvidos nas terras pernambucanas. Era o sertanejo que não traía a fala e os hábitos. Autêntico. Conheço gente de Sousa que fala "axs coisaxs".Tipos também chiam aqui de João Pessoa. Dá pena. Conheci Abelardo Jurema, o velho, que morou a vida toda no Rio de Janeiro e não tinha esses tiques na pronúncia. O Abelardinho pode chiar porque nasceu e criou-se no Rio. Dorgival não chiava. Mas o meu conterrâneo João Estrela falar "axs exscolaxs" faz pensar que a sua popularidade política tem aí suas raizes, porque desconheço outro mérito intelectual ou profissional que o destaque. E como administrador público nem se fala. Antonio Mariz achava que a risada de Zé Dantas acabara a liderança de Jacob Frantz em São João do Rio do Peixe. Não encontrava outra explicação. Isso me disse muitas vezes, matutando métodos para as nossas campanhas eleitorais. Mas voltando ao caro Dorgival, assinalo a sorte, o destino que o fez vizinho de moradia, nas proximidades do Clube Cabo Branco, do matuto-político-escritor Zé Cavalcanti. Acocorados os dois na calçada eles conversavam como bons sertanejos. E os moradores do bairro passavam e os cumprimentavam, e não viam nada demais. Como governador Dorgival era o mesmo homem: reto, digno, beradeiro. Sousa e a família Mariz lhe devem a pesquisa que descobriu no João Belchior Marques Goulart um "Marques" de Sousa, que mandou para os pampas bachareis ilustres que lá se fixaram como Benedito Marques da Silva Acauã, parente também do nosso jurista Antonio Elias de Queiroga. A cidade de Sousa alardeou por muito tempo a sua performance política na Camara, no Senado, no Governo do Estado. Faltava a Presidência da República. Pois Dorgival ilustrou a nossa tradição com a sua pesquisa, que lhe conferiu o exercício do mais alto cargo da Nação. Os marizistas comemoraram. Muito mais tenho para dizer, mas o farei noutra oportunidade. Finalizo chamando a atençaõ para os vultos ilustres que Taperoá tem dado à Paraíba: cito Ariano Suassuna, Dorgival Terceiro Neto, Manelito Vilar e Balduino Lelis. Por enquanto.