quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

PROSA CAÓTICA II, CADERNO 1, 1985/2000

PROSA CAÓTICA II, Caderno 1, 1985/2000
6
Apesar do administrador, faz-se necessária a minha palavra final nos negócios da fazenda. Trabalhadores e vizinhos procuram tirar vantagens de minha pouca experiência, e, em comentários maldosos, minar a autoridade do administrador, ou encarregado. Dá para perceber.
Na estante os livros oferecendo-se. Indefinição de objetivos imediatos. A fazenda não é para mim, fator único de alienação. A literatura, igualmente, não é ocupação insubstituível no mundo dos meus compromissos. Letras e números. Entre os valores humanos, inútil aferir-lhes a preeminência. Como na questão das letras e das armas, mutatis mutandis, no Quixote. Uma questão de escolha.
7
Encontrei no meio de papéis guardados há muito tempo, alguns contos e o esboço de um romance. Antigos projetos que abandonei ao longo de mais de vinte anos. A atividade política tomava o meu tempo, transformava-se num projeto de vida. Até a advocacia abandonei. Foi um período de leitura de jornais, infindáveis reuniões, presença anunciada em todos os lugares.
Afastado da militância partidária, diminuídos os seus compromissos, pretendo retomar aqueles projetos literários. Tenho dúvidas se escreverei o romance desejado, pois não consigo movimentar os personagens, elaborar a trama com eficiência. Poemas de circunstâncias, curtos e líricos, contos breves, relatos de pequenos dramas, daí não passará a minha literatura, desconfio. E estas anotações, que tomam no momento, grande parte do meu tempo.
8
 “Podemos dizer – escreveu Álvaro Lins – que todos os gêneros de poesia se encontram na Bíblia, o que talvez não impressione muito por se tratar de um livro essencialmente poético. Impressiona muito mais a comprovação de que também contém todas as formas de romance. Nas suas páginas e nos seus episódios serão encontrados o romance regionalista, o naturalista, o psicológico, o introspectivo, o ideológico. A Bíblia não é só um grande poema, mas um conjunto de grandes romances.”
Algumas pessoas de destorcida formação religiosa, acreditam que a Bíblia é um livro dirigido para a morte, quando, na verdade o é para a vida também. A existência de povos e de raças, de famílias e de pessoas nos seus dramas coletivos e pessoais, nos seus problemas mais genéricos ou íntimos, demonstra e difunde. Uma lição de vida, portanto. Explica o homem e a sua praxis.
9
Releitura de O EU PROFUNDO E OUTROS EUS, de Fernando Pessoa, e de POESIA, de T. S. Eliot, em tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira.
Estes poetas não morrerão. Poderão desaparecer por certo tempo, mas, serão redescobertos, reestudados sempre. Aliaram á coincidentes concepções poéticas, uma preocupação com a momentânea realidade, o homem, transitoriamente histórico.
A reescritura de textos que realiza Eliot e a multiplicação de planos e visões estéticas de Pessoa e seus heterônimos, constituem um trabalho de “arqueólogo do espírito” do homem, descobrindo o passado, perlustrando o futuro.
A poesia como ciência da alma.
A emoção. Dorme no cérebro, no fundo da consciência esse poderoso sentimento, até que despertado, caracteriza o fazer humano. A arte é profundamente emocional. A leitura dos versos destes dois poetas transmite-nos esta certeza. Mas, igualmente racional e intencional, se atentarmos para o “vanguardismo” técnico presente nas suas obras.
A arte poética não se esgota na renovação formal.
Fernando Pessoa escreveu: “Um poema é a projeção de uma idéia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão somente o meio de que a idéia se serve para se reduzir á palavras.”
Escritura de Eliot: “The only way of expressing emotion in the form of art is by finding an objective correlative; in other words, a set of projects, a situation, a chain of events which shall be the formula of particular emotion.”
Pessoa fala em “emocionalizar o pensamento”, e Eliot assinala “the intensity of the artistic process.”
O tema oferece-se, para uma análise de aproximação da técnica de construção poética entre esses autores.
10
Fui procurado por um morador da fazenda que me pediu trabalho. Eles já não dispõem para comer, de um grão sequer da última colheita. São forçados a comprar caro, nas bodegas, a miserável feira da semana.
– Vou pensar em alguma coisa – disse para confortá-lo, como se a fome pudesse esperar.
Ele baixou a cabeça, aparentemente conformado.
A seca prolongou-se além do previsto. O fornecimento de dinheiro sob forma de adiantamento, no nosso regime de parceria agrícola, depende de invernos regulares, da implantação de roçados para garantia do pagamento.
Criei tarefas eventuais, entre outras, reparo no teto da casa onde moro, para oferecer-lhes oportunidade de ganho, abaixo, contudo, do mínimo legal. É o regime vigente no meio. Apesar de indefensável a minha posição, pago melhor que os demais proprietários vizinhos. Eles já me olham ressentidos e acusam-me de dificultar-lhes o relacionamento com seus trabalhadores. “Ganha fácil do governo. Devia pagar melhor. Nós não temos essa condição.”  Falam ressentidos a meu respeito.

11
Os trabalhos na casa começaram pela ala sul por ser mais conveniente pra mim, e mudei-me para o lado norte. Vozes estranhas mudando os meus hábitos. Desconforto. Presenças incômodas.

12
O desenvolvimento das ciências e as modernas técnicas estão criando uma nova sociedade. Vivemos um momento de “fratura da história.” A “cartilha” de Stálin, nada tem com a repressão que ele instalou na URSS. Facilita a assimilação de textos de Marx e Engels, capacitando o ativista para o descobrimento das contradições específicas do seu povo e do seu tempo.
Marxista fanático desde a juventude  – acentuam seus biógrafos –, afeito à discussão e à ação política ao lado de Lênin, é também um dos responsáveis pela criação da ética bolchevique, um comportamento que sustentava a imagem do homem e dos costumes dos proletários fundadores do estado soviético.
Melodramático, enérgico e orgulhoso como o retrataram, liderava o partido, chefiava o governo, gostava da companhia de intelectuais e se considerava um deles. Lia e comentava a história, discutia o teatro e o cinema, aprovava a estética do realismo socialista que definia e conceituava: “O artista deve mostrar a vida com veracidade. E se ele mostra nossa vida verdadeira, não pode deixar de mostrá-la avançando para o socialismo. Isso é e será realismo socialista”. Khruchiov o batizou de “o homem de sete faces.” O resultado político, para ele estava em primeiro lugar, como se evidencìou no período ditadura com os processos, as execuções e o terror, censurando e distribuindo edições falsas de jornais.
Parece que os comunistas brasileiros deixaram de lado a leitura dos clássicos, e divulgam novidades européias e norte-americanas de conteúdo revisionista, estimulados por interpretações artificiosas de filósofos de segunda mão.

13
Edmund Wilson no seu RUMO À ESTAÇÃO FINLÂNDIA: “Há vários motivos que explicam o reconhecimento insuficiente dado a Marx e Engels como escritores. Sem dúvida, um deles é o fato de que as conclusões a que eles chegaram eram contrárias aos interesses das classes que mais lêem e que fazem as reputações dos escritores. A tendência a boicotar Marx e Engels, que se verifica tanto entre os historiadores literários quanto entre os economistas, constitui uma notável corroboração da teoria marxista da influência da classe sobre a cultura. Porém há outro motivo também. Marx e Engels não acreditavam mais em almejar a glória filosófica ou literária. Acreditavam ter descoberto as alavancas que regulam os processos da sociedade humana, que liberam e canalizam suas forças; e, embora nem Marx nem Engels tivessem talento de orador ou de político, eles tentavam fazer com que suas capacidades intelectuais atuassem o mais diretamente possível na realização de objetivos revolucionários. Estavam tentando fazer que sua prosa se tornasse “funcional”, no sentido em que o termo é empregado em arquitetura, coisa que não ocorrera nem com o jornalismo de Marat nem com a oratória de Danton. Como seus objetivos eram de âmbito internacional, não estavam nem mesmo preocupados com seu lugar na história do pensamento alemão. Assim, Marx escreveu sua resposta a Proudhon em francês; e os escritos de Marx e Engels desse período misturam francês, alemão e inglês, entre artigos de jornal, polêmicas e ma-nifestos que só recentemente foram reunidos pelos russos e publicados na íntegra.”(p. 158)

sábado, 1 de janeiro de 2011

PROSA CAÓTICA II
(TEXTOS POLÍTICOS E LITERÁRIOS)
O DURO RECOMEÇO
1985/ 2007
(jornal)
Prefácio
CADERNO I

(1985/2000)


1

Trinta e um de dezembro de 1985. Não escolhi a data. O último dia do ano nada tem de marcante na decisão, a não ser a determinação inesperada de colocar o papel na máquina de escrever, e começar. A idéia de um balanço de atividades ocorre de imediato, tão acostumados estamos a esse tipo de comportamento, estimulados pela necessidade de ordenamento de nossas vidas. Talvez uma idéia, um projeto antigo.
Aos cinqüenta e três anos sobrou-me tempo, em parte aproveitado, para saber posicionar-me em face da sociedade, das suas instituições, dos seus preconceitos. Afastei-me da família. Um acontecimento difícil de entender para os amigos.
Homem da cidade passei a viver numa fazenda antiga, situada numa região pobre, de clima instável, castigada ciclicamente pelas secas. Sem a comodidade de que dispunha na capital, moro numa casa de reboco grosseiro e telha-vã, piso áspero de cimento e fogão a lenha que enegrece as paredes e o teto da cozinha. Sem energia elétrica, uma geladeira e lampiões a gás, atendem-me nas horas quentes e para as leituras noturnas.
Não sou exigente quanto à comida, e a empregada, de origem rural, mas criada em casa abastada da cidade, sabe usar a geladeira, mantém limpo o banheiro, assegura água filtrada para bebermos. Conhece o uso adequado de pratos e talheres, a distinção no preparo dos alimentos para as três refeições do dia, enfrenta sem dificuldade a distância dos centros de abastecimento.
Do ponto de vista da minha comodidade material, em face da minha decisão, vivo bem, cuidado respeitosamente por ela, como dona da casa, o que a satisfaz e envaidece. Uma pobre vida, passiva e devotada, como das personagens de Gertrude Stein.
A minha presença e os meus hábitos, em tudo uma novidade por aqui, que todos observam, e intuem explicações nada exemplares.
2
Os rumos de minha vida e a minha determinaçã diferem, em nada imitam à do Jacinto, de Eça, mas, um pouco se assemelham, nas suas constatações, justitificativas e resultado. Do Príncipe da Grã Ventura personagem de A Cidade e as Serras, herdeiro da quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, de um apartamento no 202 dos Campos Elísios, cultivei, em princípio, a sua equação metafísica “suma ciência x suma potência = suma felicidade”. A melancolia, e algumas vezes o imprevisto, o tédio citadino me levaram a tais conclusões, permitiram o desenlace.
Vale a pena resumir acontecimentos, reflexões e dores que assaltaram o jovem e delicioso personagem que fugiu para Paris: “que criação augusta a da cidade... só o fonógrafo me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante que me separa do bicho... agora era por intervenção de uma máquina que abotoava as ceroulas”.  Tempos depois, circunstâncias o levaram a novos raciocínios. [...] A mesmice  – eis o horror das cidades!.. na natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido... é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento.”  E insiste impetuoso. [...] O seu retorno à vida consciente, entre os vivos, nesta “reconciliação com a natureza. [...] o renunciamento às mentiras da civilização é uma linda história...”
 A imperiosa realidade do instinto, todavia, é que ditara as necessidades. Colheu o herói:
“Mas, caramba, faltam mulheres! [...]  Com efeito era grande e forte a Joaninha...”  e sumamente indicativos, transcreve  “dois versos de uma balada cavalheiresca:
Manda-lhe um servo querido,
Bem hajas dona formosa!
E que lhe entregue um anel
E com um anel uma rosa...
O meu Príncipe já não é o último Jacinto, porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Terezinha... e um Jacintinho.” Pois, tal, aconteceu comigo.
                                                                                            *
A visita semanal da minha segunda e atual família, que passara a morar na cidade, alegrava o meu espírito possuído de envolvente expectativa quanto ao nosso futuro.  Uma tragédia corriqueira quanto ao fato em si.
Em tudo aqui sou diferente dos demais: tenho livros e os leio. Os mais velhos, os proprietários - recorrem ao antigo respeito aos letrados -, insinuam o meu comportamento como uma imitação, que somente o adotavam os tonsurados. Em tempo passado, famílias mantinham em casa professores para os filhos, até padres que cuidavam também da educação religiosa dos agregados.
3
Na estante, entre outros livros trazidos da minha biblioteca na cidade, TEORIA DA LITERATURA, de Wellek e Warren, que ainda não li. Andei folheando o volume, depois de tantos anos de sua publicação, numa quase “leitura dinâmica”, de que se falou muito no passado e na qual não acredito como coisa séria. Mas li trechos, e entendo que necessito de algumas releituras e meditações para conhecer as idéias desses teóricos modernos.
O livro pareceu-me, pela bibliografia que completa o volume, uma espécie de marketing literário, para usar conceito mercantil, no lançamento de produtos no comércio. Reuniram-se os autores numa sociedade de idéias e estudaram os gostos que perduram, tendências novas e variações, dentro destes gostos, excluídos os contrários à manutenção do “mercado consumidor”.
Uma novidade, fruto de muito trabalho, baseado numa vasta cultura, numa exposição ordenada e acadêmica.
Afrânio Coutinho oferece, também, uma extensa bibliografia para o estudo da literatura, útil para uma visão crítica do fenômeno estético-literário. Como em Wellek e Warren, um catálogo, uma lista de convidados.
Torno claro, numa tomada de posição, que entendo “a formação e o desenvolvimento da literatura como parte do processo histórico total da sociedade. A essência e o valor estético das obras literárias, e também sua ação, é parte daquele processo geral e unitário pelo qual o homem se apropria do mundo mediante sua consciência.” (Lukács. Critica).
Alguns intelectuais paraibanos que bebem a ideologia da classe dominante, e curtem os seus porres estruturalistas, numa imprensa subsidiada, numa universidade alienada de bolsistas, mestres e peagadês em regime de confinamento pedagógico e de idéias, torcem o nariz, desdenhosos, quando ouvem falar de Marx, Engels, Nelson Werneck Sodré, Garaudy, Carpeaux e tantos outros estudiosos da literatura, dos fenômenos sociais.
Queiram eles ou não, a literatura, assim como a arte, é um fato, um produto social. A obra literária iguala-se a uma greve de portuários, a uma desordem e quebra-quebra de desempregados, a um mural de Picasso, de Portinari, às gravuras rupestres de Pedra Lavrada e da Pedra do Ingá, na Paraíba e também das cavernas de Altamira, na Espanha, das grutas de Lascaux na comunidade de Montignac na França, entre mais localidades em todos os continentes.
Não foi sem razão, que o autor da monumental HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL, parafraseando Lênin afirmou que “o estruturalismo é o ópio dos intelectuais”.
Que importância poderá alguém, em sã consciência, atribuir aos milhares de palavras gastos pelo professor Roman Jakobson no seu estudo sobre Les Chats, de Charles Beaudelaire, do ponto de vista da literatura?
O mestre de Praga, egresso de Moscou, hoje pontifica em manobras científico-diversionistas nas universidades norte-americanas.
Esse é o objetivo da especialização mesquinha, menor, rica em terminologia, mas determinada por posições sociais retrógradas.
4
Natal e Ano Novo longe da família. Ocorrem-me lembranças que sufoquei no fundo da memória. Prefiro esquecê-las, ou silenciar.
Num tempo mais recuado, do Natal guardo recordações precisas, uma mistura de comemorações burguesas no seio da família, e o perambular triste e solitário em ruas apinhadas de gente. Tempo da infância na casa dos meus pais, e nas ruas do Recife, na juventude, estudante de parcos recursos financeiros,  morando em quarto de pensão.
O nascimento do Salvador, a significação de Sua vinda ao mundo não me despertaram jamais reflexões profundas. Muito cedo me inculcaram a existência de um Papai Noel, a quem eu deveria prestar contas do meu comportamento de menino e a quem me dirigir para receber recompensas. O mais era traduzido em farta comida, pratos raros, canções estrangeiras, frenesi comercial e anedotas. Assim o Ano Novo, sem nada que me induzisse a um inventário de ações.
Sozinho, a cidade distante, recorro à leitura para encher o tempo.
5
Na véspera de Ano Novo tive companhia para o jantar. A empregada estava com a fisionomia carregada. Ela é uma velha amiga da minha família, e lamenta sempre que pode o meu isolamento, o afastamento do lar. Conheceu-nos em dias de grande prestígio social, estimados e festejados. Escolhendo as palavras, temerosa de minha reação, exprobra-me comovidamente a decisão que me jogou nestes ermos.
Moradores da fazenda saborearam comigo a suculenta sopa. Alegres com a carne farta que não consta de suas refeições, criavam ditos. Como são estreitos os horizontes dessas pobres criaturas! Sem dinheiro no bolso, não puderam comparecer à festa anual na cidade.
Descobri que em dias e ocasiões especiais, eles chegam para colher sentenças, informações, que ouvem curiosos. Têm-me na conta de pessoa de grande conhecimento dos fatos do mundo, que troco em miúdos para eles. É de minha experiência fora do mundo onde moram, que esperam explicações para as suas dúvidas.
No alpendre, deitado na minha rede ampla e macia, ora cochilava ora escutava o que diziam. Somente a narrativa de tragédias animava as suas conversas. Acidentes, assassinatos, doenças graves em pessoas conhecidas, davam um colorido especial às frases, às exclamações de espanto.
O rádio anunciava animados réveillons. Indiferentes, eles viviam em outro mundo. Com a execução do Hino Nacional, avisei-lhes que entra-vamos no novo ano, e perguntei-lhes se conheciam a música que o rádio tocava.
Eram três homens de mais vinte e cinco anos, casados, anal-fabetos. Olharam-se com curiosidade e um deles disse que conhecia alguns trechos.
– É aquela que fala na “patamar”– quis explicar.
– Acertou! – exclamei num elogio, e completei. – É o hino nacional do Brasil.
Não adiantava perder tempo em explicações. Eles jamais entenderiam, pois não tinham noção de pátria, nação, estado. Nunca frequentaram escola.
– O índio... prá falar a verdade não conheço – disse outro, com franqueza.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Como anunciei, inicio hoje a publicação neste blog http://eilzopb.blogspot.com, do meu Jornal: “PROSA CAÓTICA II – O Duro Recomeço 1985/2000”, inédito. Entendi assim proceder dada a dificuldade para editoração e publicação impressa de obra puramente literária, memorialística, sem maior destaque ou impor-tância do tema e do autor. Neste espaço acrescentarei notícias e reflexões que achar por bem divulgar, assumindo por isso mesmo, a responsabilidade sobre a crítica favorável ou desfavorável em relação às mesmas. Eventualmente, referências utilizadas em outros textos que constam na seção "comentários do Dia" publicados em eilzomatos.zip.net, poderão ser inseridas, sem configurar repetição nem plágio, dada a correlação da matéria utilizada, também de minha autoria. 
PROSA CAÓTICA II – O Duro Recomeço
Jornal
Prefácio
                  Os textos a seguir organizei-os num mesmo volume, dada a identidade estilístico-temática que os reúne – memória, biografias –, e a unidade ideológica que os integra. Em primeiro lugar combino memórias e reflexões que denomino literariamente “jornal”, o que se torna óbvio pela sua leitura. Colijo artigos e o que chamo de pequenos ensaios, sobre temas para mim relevantes. Alguns foram publicados em jornais ou revistas, outros divulgados em sites na internet.
          Como afirmei em outras oportunidades ao longo de minha vida, amadureci idéias, conceitos, convicções. Muito jovem, ainda, aí pelos dez anos de idade, a candidatura de um parente (Manoel Mariz de Oliveira, tio-afim) a deputado estadual pelo Partido Comunista, chamou a minha atenção para os valores sociais, em razão das discussões sobre o assunto no seio da família.
          A nossa cidade, na época, estava submetida às exigências e ao domínio tutelares da Igreja Católica Apostólica Romana que “amparava as oligarquias mediante o controle do movimento sindical e popular, deles expurgando qualquer traço esquerdizante, fosse radical, socialista, comunista ou mesmo liberal maçônico.”[1]
        Em breve notícia autobiográfica, alinhei referências sobre a minha participação na política partidária da minha cidade, que teve início na Década Sessenta, ao lado de Clarence Pires, Antonio Mariz, Romeu Gonçalves e outros com-terrâneos e amigos. Em eleições seguidas mar-chamos numa frente de atuação comum, tendendo às posições ditas de esquerda no cenário político nacional. A história local confirma os lances dessa militância político-partidária.
                   Considero um dever frisar que, para a avaliação de minha efetiva participação na luta política que dominava o país, a militância levou-me – estudante ainda da Faculdade de Direito do Recife –, na aliança operário-estudantil, em algumas oportunidades, a entrincheirar-me nos piquetes de violentos protestos do proletariado pernambucano, nas greves da “Tecelagem de Macaxeira”, do Sindicato dos Comerciários, na Rua da Imperatriz. Os ideais reconhe-cidamente “apaixonantes e otimistas do marxismo-leninismo e os triunfos imperiais dos exércitos do generalíssimo” (Stálin) na Segunda Guerra Mundial, infundiam persuasão e esperanças na ju-ventude que comentava e estudava a história nas universidades, através de leituras, na imprensa, de debates nos encontros político-culturais.
           Passei, por fim, como cidadão e profissio-nal, a vivenciar os problemas do povo e do país, na urgência do momento, do agora. Buscava um modelo na história brasileira e encontrei-o no reformismo constitucional, dúbio é verdade, que nos legou a chamada Revolução de Trinta. Lutava como ainda hoje o faço, por um governo nacionalista no âmbito da cultura e da economia. Mas, igualmente fraterno, como anunciava o internacionalismo proletário pro-metido pelo socialismo de Estado em voga. E dele não me afastei.
Concluo estas considerações, que visam esclarecer a minha participação nos fatos da história política de Sousa e do país, ao raciocinar em termos atuais, com o sociólogo Emir Sader no seu “As Ruínas da Democracia” (Correio Brasiliense 24 de outubro de 1999), que: “Nós já tivemos mais clareza sobre o que é uma democracia. Hoje as coisas são menos claras.”
Era no tempo em que “a imprensa e os meios de comunicação representavam no contexto democrático, um recurso dos cidadãos contra os abusos dos poderes”. Foi essa peculiaridade corretiva, chamada de Quarto Poder, ao lado do Legis-lativo, Executivo e Judiciário, poderes “que podiam falhar, se equivocar, cometer erros”. (Ignácio Ramondet “Le Monde Diplomatique 2006).
   Por certo período, jornalistas destemidos pagaram caro pela defesa desta tese, foram vítimas de atentados, desaparecimento. Por último, com o advento da globalização liberal e o surgimento de um novo tipo de capitalismo, agora especulativo, eles perderam totalmente a importância e função de instrumentos do contra poder, no processo de comunicação de massa. A mídia teve de se organizar em gigantescas empresas, super poderosas, cuidando desde a produção ideológica de textos até a sua massiva distribuição, assumindo no confronto brutal entre o mercado e o Estado, a defesa do setor privado em oposição aos serviços públicos. Já não era mais “a voz dos sem voz.”
   Não foi possível fugir ao impasse. Era a globa-lização liberal que chegava feroz e implacável. Ficou claro que o novo modelo que assume o capital especulativo formando mega empresas, atuando em escala planetária, tornou o peso dos seus negócios mais importantes que as decisões de governo e de Estado. A mídia participou do processo, incorporando-se aos blocos. Em meu auxílio menciono o instigante e oportuno ensaio de Ignácio Ramonet,[2] lido na internet, que aprofunda a análise do tema.
                 A consciência política da realidade que nos é imposta, de modo cruel e impassível, motivou o protesto do patriota Oduvaldo Vianna Filho[3] que em 1974, antes de falecer denunciava e argumentava: “Reduzir uma sociedade de 100 milhões de pessoas a um mercado de 25 milhões, exige um processo cultural muito intenso e muito sofisticado. É preciso embrutecer esta sociedade com uma força que só se consegue com refinamento dos meios de publicidade, com um certo paisagismo urbano que disfarça a favela, que esconde as coisas.”
                 Tal realidade, produzida por descuidados ou cooptados intelecutais então atuantes no cenário cultural, arrancou, mutatis mutandis, o oportuno grito de protesto do filósofo Olavo de Carvalho: “foi preciso que este país decaísse muito para que se pudesse assistir a este triste espetáculo...” [4]
                 Aí se escondem a manipulação de idéias e de processos, que absorve acriticamente uma coletividade dominada pela incerteza, mas enfatuada, incapacitada intelectualmente para a reflexão e o julgamento. 
                 Nos primeiros anos do Século XXI, passadas apenas três décadas da afirmação de Vianninha, a problemática do Brasil não difere historicamente da do capitalismo internacional como modelo de Estado, alega o citado mestre uni-versitário. É apenas um sócio minoritário e dependente do sistema central, que desempenha um papel “hegemônico” no processo (Florestan Fernandes).
     Finalizando estas considerações acerca da imprensa, recorro ao irretocável argumento do jornalista Sérgio Halimi através do Financial Times  (http://resenha.com.br/esp2991208.htm):
    “Se o fim dos regimes policiais na Europa oriental e o desmoronamento dos dogmas referentes à natureza humana que lhes eram atribuídos nos ensinaram alguma coisa, não foi a necessidade de outro totalitarismo e outra tirania – a dos mercados financeiros. Foi o valor da dúvida e a necessidade urgente da dissidência.” E as suas reflexões que seguem, aplicadas ao jornalismo e à mídia esclarecem:
    “Se aceitarmos a legitimação adulatória de uma nova ditadura, a política não será mais do que o palco de um pseudo-debate entre partidos que exageram a dimensão de pequenas diferenças para melhor dissimular a enormidade das submissões e proibições que os unem... Neste mundo globalizado e totalitário, poderemos ainda, os jornalistas e intelectuais, ser o contrapoder, a voz dos sem-voz? Reconfortar os que vivem no conforto? Como fazer isso quando alguns de nós já pertencem à classe dominante?”
Esta a grande indagação. Quanto a especulações de natureza religiosa, direi como escreveu Herberto Sales: “Não tenho em mim encontrado forças para trocar por outra a minha religião”. E eu acrescento: católica, apóstólica, romana, embora sem presença nos atos cerimoniais e de orações. Não conheço outras, quando muito, raras seitas e perorações de evangélicos espertos, e blá-blá-blá teosófico de funda-mentalistas ou autistas desorientados.
Sousa, dezembro de 2010 
                                 EILZO MATOS



1 - MELLO, José Octávio de Arruda  -  “Sociedade, Cultura e Poder na Paraíba 1939/45” in    Revista da Academia Paraibana de Letras LIV, Jul /Dez, No. 19 , pág 99.
3 - Apud  MENEZES, Jaldes Reis de, “1930 E O BRASIL CONTEMPORÂNEO: REVOLUÇÃO PASSIVA, CAPI-TALISMO TARDIO E DESENVOLVIMENTO DEPENDENTE”  in “ 1930 A REVOLUÇÃO QUE MUDOU O BRASIL” EDUEP 2007.
4 - CARVALHO, Olavo de  “O Imbecil Coletivo” Faculdade da Cidade Editora, Rio  de Janeiro 1996

sábado, 25 de dezembro de 2010

MEMÓRIA VELHA DO NATAL, REFLEXÕES DO PRESENTE.

A minha primeira lembrança do Natal é bastante recuada e assaz im-precisa. Faltam-lhe detalhes. Nasci em família burguesa − naqueles idos dos anos Trinta do século passado −, que foi alcançada, como tantas, com o passar dos anos, pela indesejável decadência financeira e conseqüente diminuição do prestígio social. Pertencíamos, entretanto, a conhecidos clãs destacados na oligarquia política e de atividades comerciais de caráter oligopolista na região, com grande respeitabilidade e presença no dia a dia de cada lugar, o que nos assegurava e ainda nos permite assento entre os privilegiados. E como tal nos comportamos.
O entusiasmo e agitação verificados nas reuniões familiares, nas come-morações religiosas, cívicas marcavam a conduta da época. Vivíamos o período natalino. Pois bem. Entre os quatro ou cinco anos de idade, como de outras vezes, adormeci depois de uma noite de viva e alegre confraternização que reunira adultos e crianças na minha casa enfeitada de adereços, imagens e cenários trabalhados e oferecidos votivamente ao nascimento de Jesus, ex-postos para a admiração de todos. Relembro das empregadas, de minha mãe e algumas amigas, dias a fio, no afã de escolhas e de composições brilhantes, de arranjos coloridos. Depois, o momento da alegria e satisfação de todos com a farta comida e bebida, no estilo característico e próprio da data.  Meu pai com os seus amigos, sorridentes, chamavam-me para conversas que eu pouco entendia, me acariciavam.
Muitos eram os meninos: irmãos, parentes e amigos, que discutiam o que acontecera, o que acontecia e, aconteceria, naquela inabalável certeza de suas afirmações.  Estava em todas as dependências da casa a efígie do Papai Noel, que nos presentearia com objetos sonhados e valiosos para nós. Pre-tendia vê-lo, mas, pegou-me o sono e adormeci atento às promessas de presentes. Na manhã seguinte, acordado pela minha mãe, ela mostrou-me a embalagem colorida, com laço de fita debaixo da rede: o presente de Papai Noel. Desembrulhei-o, corri para a calçada em frente de casa e outras crianças da vizinhança brincavam, já exibiam os seus. Uma coisa triste, entretanto, apertou o meu coração infantil, tão cedo na minha existência: descobri que alguns não traziam o presente que eu pensava seria dado a todas as crianças. Arredios uns, contrafeitos outros disputavam o manuseio dos objetos preciosos.
[...] “Num tempo ainda presente na memória, do Natal guardo recor-dações precisas, uma mistura de comemorações burguesas no seio da família, e o perambular triste e solitário em ruas apinhadas de gente − tempo da infância na casa dos meus pais, e nas ruas do Recife, na juventude, estudante de parcos recursos financeiros, solitário morando em quarto de pensão”.
“O nascimento do Salvador, a significação de Sua vinda ao mundo não me despertaram jamais reflexões profundas. Muito cedo me inculcaram a crença na existência de um Papai Noel, a quem eu deveria prestar contas do meu comportamento de menino e a quem igualmente me dirigir para receber recompensas. Desapareceu com o passar dos anos. O mais era traduzido em farta comida, pratos raros, canções estrangeiras, frenesi comercial e anedotas. Assim também o Ano Novo, sem nada que me induzisse a um inventário de ações. Sozinho na fazenda, distante a cidade recorro à leituras para encher o tempo”. (PROSA  CAÓTICA II – O DURO RECOMEÇO 1985, inédito).
*
Frei Leonardo Boff disse que Papai Noel existe. O problema do Natal “é aprender a ver com os olhos do coração”, ele afirmou,  e divulgou uma carta-poema:
“Queridos irmãozinhos e irmãzinhas:
Se vocês olhando o presépio e me virem aí, sabendo pelo coração que sou o Deus-criança que não veio para julgar mas para estar, alegre, com todos vocês,
Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas, especialmente no mais pobrezinhos, a minha presença neles,
Se vocês conseguirem fazer renascer a criança escondida no seus pais e nos adultoss para que surja nelas o amor a ternura,
Se vocês ao olharem para o presépio perceberem que estou quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e desejarem que ela mude de fato,
Se vocês ao verem a vaca, o boi, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante pensarem que o universo inteiro recebe meu amor e minha luz e que todos, estrelas, pedras, árvores, animais e humanos formamos a grande Casa de Deus,
Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda e recordarem que sempre há uma estrela sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos,
Então saibam que eu estou chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia que só Deus sabe quando estaremos todos juntos na Casa de nosso Pai e de nossa Mãe de bondade para vivermos bem felizes para sempre.
Belém, 25 de dezembro do ano 1.” (Carta Maior, Dezembro 2010)
            Nesta ordem de pensamentos, em face da realidade política que nos é imposta, de modo cruel e impassível, chego à constatação que motivou o protesto do patriota Oduvaldo Vianna Filho[1] que em 1974, antes de falecer denunciava e argumentava: “Reduzir uma sociedade de 100 milhões (hoje 197 milhões) de pessoas a um mercado de 25 milhões, exige um processo cultural muito intenso e muito sofisticado. É preciso embrutecer esta so-ciedade com uma força que só se consegue com refinamento dos meios de publicidade, com um certo paisagismo urbano que disfarça a favela, que esconde as coisas.”
           Tal realidade, produzida por gestores descuidados e/ou cooptados intelecutais então atuantes no cenário cultural, arrancou, mutatis mutandis, o oportuno grito de protesto do filósofo Olavo de Carvalho: “foi preciso que este país decaísse muito para que se pudesse assistir a este triste espetáculo...” [2]
           Aí se esconde a manipulação de idéias e de processos, que envolve acriticamente uma coletividade dominada pela incerteza, mas enfatuada, incapacitada intelectualmente para a reflexão e o julgamento.
           Nos primeiros anos do Século XXI, passadas apenas três décadas da afirmação de Vianninha, a problemática do Brasil não difere historicamente da do capitalismo internacional como modelo de Estado, alega o citado mestre universitário. É apenas um sócio minoritário e dependente do sis-tema central, que desempenha um papel “hegemônico” no processo. (Florestan Fernandes).
     Finalizando estas considerações recorro ao irretocável argu-mento do jornalista Sérgio Halimi através do Financial Times acessível em (http://resenha.com.br/esp2991208.htm): “Se o fim dos regimes policiais na Europa oriental e o desmoronamento dos dogmas referentes à natureza humana que lhes eram atribuídos nos ensinaram alguma coisa, não foi a necessidade de outro totalitarismo e outra tirania – a dos mercados financeiros. Foi o valor da dúvida e a necessidade urgente da dissidência.”
 E as suas reflexões que seguem, aplicadas ao jornalismo e à mídia esclarecem: “Se aceitarmos a legitimação adulatória de uma nova ditadura, a política não será mais do que o palco de um pseudo-debate entre partidos que exageram a dimensão de pequenas diferenças para melhor dissimular a enormidade das submissões e proibições que os unem... Neste mundo globalizado e totalitário, poderemos ainda, os jornalistas e intelectuais, ser o contra-poder, a voz dos sem voz? Reconfortar os que vivem no conforto? Como fazer isso quando, alguns de nós, já pertencem à classe dominante?”
Esta a grande indagação, que podemos ou devemos fazer neste Natal.
.............................Sertão, Natal de 2010