segunda-feira, 11 de março de 2013



O SOUSENSE PAULO GADELHA - EXÉQUIAS
                                               A convivência aproximada, firmada numa amizade que perdurou até o presente, num relacionamento de con-terrâneos da mesma geração, registram  a minha presença e a de Paulo Gadelha na vida sousense: ainda crianças com pequena diferença de idade, correndo as mesmas praças e ruas, na adolencência frequentado festas e reuniões, adultos, mergu-lhados nas águas turbulentas e agitadas da política de nossa terra. E considero, sem falsa modéstia, que marcamos a nossa presença ética e realizadora de ações que dignificaram os mandatos parlamentares o exercício de secretarias de Estado, que nos couberam.
                            Muitas são as lembranças, agradáveis e honrosas para mim, os registros que nos ligaram vida pública. Eu, cedo me isolei extramuros, Paulo prosseguiu e destacou-se mais no exercício de cargos relevantes: foi diretor do Banco do Nor-deste, Desembargado Federal, escolhido para uma cadeira entre os imortais da Academia Paraibana de Letras. Teve o meu voto para a sua eleição.
                            Na Paraíba, no Brasil e em outros países, juntos participamos de conclaves, um deles na companhia do escla-recido deputado Manoel Alceu Gaudêncio, representando a Assembléia Legislativa, na discussão de teses que tratavam de questões referentes à cidadania, aos direitos humanos, ao progresso e ao desenvolvimento econômico e cultural. Mas o que marcava mesmo a sua presença entre nós, era a vocação intelectual, a sua assiduidade na imprensa escrita, o culto à ciência do Direito, ele um constitucionalista de renome.
Dele recebi o seu livro “A Rosa e a França”, com uma intimação, segundo suas próprias palavras de ofe-recimento, para apresentá-lo aos nossos conterrâneos, o que fiz na solenidade do seu lançamento no auditório da Fa-culdade de Direito de Sousa, de que transcrevo alguns parágrafos.
Desejo destacar em Paulo Gadelha o caráter do político competente, do intelectual “engajado” no melhor estilo francês. Essas qualidades, muitas vezes, passam despercebidas da maioria das pessoas. E em cidades como a nossa, a questão genealógica sobreleva sempre a ideológica. Mas está feito o regisgtro.
O advogado Paulo Gadelha pertence àquela ca-tegoria de bacharéis beletristas, que a Faculdade de Direito do Recife legou também aos paraibanos e espalhou na vida brasileira. Políticos, juristas, poetas, romancistas, historia-dores, críticos de artes, escritores enfim, que o espírito da velha escola, vivo, em todas as épocas, fez povoar nas páginas da história literária e das letras jurídicas do país. Os compromissos assumidos ao longo de sua vida, revelados nos textos do seu livro e na sua ação política, dão continuidade a  uma tradição pernambucana, desde 1817 e 1824: o incon-formismo em face do tratamento discriminatório dos governos da União para com o Nordeste, ainda hoje uma controvérsia crucial para a unidade da Nação.
Esta marca de patriotismo e bravura foi honrada na Paraíba em Brejo de Areia, no Areópago de Itambé, na Fazenda Acauã, em Sousa, com Félix Antônio e os padres Arruda Câmara, Francisco Antônio e José Antônio Correia de Sá, Narciso da Costa Gadelha, Patrício José de Almeida, Luiz José Benevides e outros heróis da nossa história.
Refém da tradição filosófico-sentimental dos fatos pernambucanos, Paulo ressurge no cenário público, desta vez no ambiente intelectual. Falo de um ambiente onde também vivi, de fontes onde também bebi os mesmos ensinamentos, preparando-me para a vida e as responsabilidades profissio-nais. De lá vieram figuras inconfundíveis como Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Epitácio Pessoa, Ernani Sátiro, João Agripino, Salviano Leite, Ivan Bichara, entre os paraibanos ilustres, egressos da vetusta Faculdade, oferecendo uma parcela significativa do ideário que moldou o perfil do estado, da sociedade brasileira, desde Abreu e Lima a Tobias Barreto, Clóvis Bevilácqua, Pinto Ferreira.
Em bancadas opostas, convivemos eu e Paulo Gadelha uma legislatura inteira na Assembléia Legislativa da Paraíba. Daí, poder oferecer um testemunho vivo e insuspeito sobre sua conduta de homem público. Na agitação da vida política, nos momentos difíceis que marcaram a pressão da sociedade civil sobre os governos militares, reclamando democracia, contestando o arbítrio, a sua ação parlamentar crescia na tribuna pela crítica dos fatos, na defesa do Estado de Direito. A social democracia, de que é moda falar-se hoje no Brasil, representava naqueles dias de repressão, uma idéia perigosa e contrária à concepção ditatorial dos governos de então, apoiados na famigerada Lei de Segurança Nacional.
Os Anais da Assembléia Legislativa guardam as corajosas intervenções do deputado Paulo Gadelha diante de um plenário perplexo. Assim, igualmente, a sua presença na imprensa, cujos trabalhos compõem o seu livro “A Rosa e a França”. Revelam o pensador que acredita na idéia do progresso humano, na capacidade de auto-aperfeiçoamento da humanidade. A filosofia, o direito, a economia, a literatura, as artes plásticas, são temas abordados com observações agudas e crítica percuciente, transformada em instrumentos de aná-lises dos fatos sociais. Uma consciência ligada ao racio-nalismo renascentista, ao Iluminismo. A forma breve e sucin-ta manifesta idéias arraigadas, fruto da especulação que alia a ação ao pensamento, como nos breves ensaios do longevo Bertrand Russel.
Sinto-me por esta razão, feliz e recompensado com esta amizade. Vejo que Paulo não renegou as suas idéias, pelo contrário, nelas ainda acreditava, divulgando-as em livro. A vida nos entregou aos nossos destinos pessoais. Distanciados pela ocupação que cada um abraçou, vivemos nossas preo-cupações, cumprimos nossas tarefas. Há quem diga, como o ensaísta norte-americano Francis Fukuyama, com quem não concordo, que chegamos ao fim da história, que a huma-nidade não se move mais no terreno da utopia, pulverizadas todas as ideologias. A falta de idéias, como acentua o ianque, atrai o homem para causas pequenas.
Meu caro Paulo, sabemos que os espíritos nos escutam, peço desculpas pelas digressões, a forma tumul-tuada das minhas palavras, neste momento de dor. Mas no caos da vida moderna, o que restaria a um pobre exilado rural? Como você em “A Rosa e a França”, repudio o trágico pessimismo, o desespero, os desvios totalitários nietzcheanos. O mundo contemporâneo, onde tudo que é sólido desmancha no ar, como acredita Marshall Bermam, mais do que nunca precisa do estoicismo-epicurismo que assegurava ser a vida o maior bem, em face da morte e do efêmero. É a minha crença.  Você continua vivo entre nós com a obra de ação e pen-samento que realizou, deixou como legenda.    ..................

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

PROSA CAÓTICA II - O DURO RE COMEÇO)
CADERNO II (1985 /1990)
1 - Ao nascer do sol já estou de pé. Deito-me cedo e entrego-me aos pensamentos, sozinho no alpendre. Ventos fortes, pingos de chuva ou o avançado da hora empurram-me para dentro de casa. Gosto de ficar em silêncio, espreitando o espetáculo da natureza, como se receasse interromper o desenrolar das cenas noturnas.
Gira o universo. Estrelas aparecem e desaparecem no céu. A Via Láctea no infinito encantamento de suas lendas desenha-se num fundo negro, profundo. Relâmpagos iluminam o nascente, ronca o trovão. O gado fica imobilizado esperando a chuva para começar a andar numa forma de resistência e adaptação ao belo e incomparável fenômeno natural da tempestade.
A chuva vem montada no vento, que escouceia, sopra com violência. “O vento é o cavalo da chuva”, ensina a retórica sertaneja.
Ao amanhecer, os pássaros cantam todos de uma vez. Destacam-se as modulações do sabiá, do galo de campina, chilrear de vozes harmoniosas no meio do alarido. Luz e sombras. As matas reverdecidas depois da longa letargia da seca.
Avisto trabalhadores vindos de suas casas distantes, dirigindo-se para a jornada nas roças. Homens e mulheres, velhos e crianças, em alegres discussões e desafios. A perspectiva de colheita, a superação das dietas forçadas desanuvia-lhes as feições duras como pedras.
Mesmo sabendo que lhes é negado o produto integral do seu trabalho, retesam os músculos como condenados, o suor pingando do rosto, fazendo manchas escuras nos sovacos, nas costas.
2 - Releitura do que venho escrevendo há alguns dias, sem regularidade. Nada além de simples exercício que me impus, de um gesto filho do ócio.
O trivial sem estilo.
Lembro de uma página de Huxley. Anotações de um caderno do intelectual Antony Beavis. A lógica do raciocínio de uma mente poderosa. E eu com os meus pobres escritos, sem leitores, rabiscando para mim mesmo.
É uma longa transcrição, mas vale como exercício de memória e autocrítica.
“Acton quis escrever a História do Homem em termos de uma História da Idéia de Liberdade. Mas não se pode escrever uma História da Idéia de Liberdade, sem ao mesmo tempo, escrever uma História do Fato da Escravização. Nas suas sucessivas tentativas de conceber a Ídéia de liberdade, o homem está constantemente trocando uma forma de escravização por outra.”
“A Escravização primitiva é a escravização ao estômago e à estação adversa. Escravização à natureza, numa palavra. A fuga à natureza se consegue pela organização social e pela invenção técnica. Numa cidade moderna é possível esquecer que existe esta coisa chamada natureza – particularmente a natureza em seus aspectos mais inumanos e hostis. Metade da população da Europa vive no universo forjado por ela mesma. Suprimamos a escravização à natureza e surge imediatamente outra forma de escravização. A escravização às instituições. Instituições jurídicas, religiosas, militares, econômicas, educacionais, artísticas e científicas.”
“Toda história moderna é uma História da Idéia de nos libertarmos das Instituições. E é igualmente a História do Fato da Escravização às Instituições. É porque se procura por em prática a Idéia de Liberdade que as Instituições se transformam.”
3 - Herdei do meu pai o espírito boêmio, dessa boemia livresca com certa dose de álcool. E a tendência ocasional para o isolamento, a introspecção. O dinheiro para mim não tem importância além do que se fizer necessário para despesas indispensáveis e modestas. Mesmo assim o procuro como instrumento e meio indispensável de realização de trocas. Mas o que pesa mesmo na vida das pessoas e ressoam em memórias, reflexões e angústias é a busca pela própria individualidade no campo e na cidade, a tentativa de compreender o significdo da morte e o questionamento dos dogmas da religião. É o que povoa a mente de cada um em transfigurações.
4 - Algo ocupa insistentemente a minha mente, traz-me à lembrança uma leitura da juventude nos momentos de sonhos românticos acossados pela antevisão do futuro. Recebi o livro das mãos de uma pessoa refinada, vestia, com elegância, os gestos discretos, porém efeminados, o sobrenome da nobreza europeía, Grimaldi. Refiro-me aos “Cadernos de Malte Laurids Brigge” do atormentado poeta Rainer Maria Rilke. Ele perorava pretensiosamente em dúvidas cruéis num retorno a Paris: “11 de setembro, Rue Toullier. É para cá, então que as pessoas vêm para viver; eu diria, antes, que aqui se morre. Estive fora. [...] Há um número imenso de pessoas, mas o número de rostos é muito maior, pois cada uma delas possui vários. Há pessoas que ostentam um rosto por anos a fio, e, obviamente ele se gasta, [...] seus filhos devem usá-los. [...] Isso tem, é claro, a sua tragicidade.[...] não estão acostumados a poupar rostos. [...] Voilà votre mort, monsieur. As pessoas morrem do jeito que der; morrem a morte que cabe à doença que têm (pois desde que todas as doenças são conhecidas, também se sabe que os diferees epílogos letais cabem às doenças e não às pessoas; e o doente, por assim dizer, não tem nada a fazer).”
Há os casos de doenças da alma, como a inquietude e a indecisão sobre escolha de modo de viver e de lugar para viver. E os enfrentamentos mortais na guerra e nas disputas pessoais. Eis a morte adrede preparada. E ainda mais cuéis indagações que povoavem a mente do personagem nas suas indagações mórbidas, nietzcheanas: “É possível que apesar de invenções e de progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, tenhamos ficado na superfície da vida? [...] É possível que toda história universal tenha sido mal-entendida? [...] É possível que existam pessoas que digam ´Deus´e pensem que se trata de algo comum a todos? [,,,] Porem, se tudo isso é possível, se tiver apenas uma centelha de possibilidade - então, por tudo que há de sagrado neste mundo, algo tem de acontecer.”

5 - Do meu “diário poético”, que não é diário, mas anotações dispersas:
I- ...estrelas vegetais...
Pasto espacial de melancólicos bois...(?).
Thiago de Melo mora em Paris com Simeão Estilita.
Preferiu a Torre Eiffel às palafitas de Manaus.
II - Distribuindo sorrisos.
Como o trapezista,
Voando perigosamente sobre o picadeiro.
O falso artista. Assim ganha dinheiro.

Há pessoas que se realizam no sofrimento, na distância das coisas, dos seres queridos. Descobrem a pobreza do seu mundo desfrutando da riqueza de outros. Um caso para o divã do pcanalista. Ou para o julgamento da história.

6 - Estas anotações perdem o sentido de um relatório de fatos, como imaginei. Reproduzem no nível de minhas preocupações, o problema capital da vida espiritual da sociedade. Indagação a que Marx respondeu com um axioma: “Não é a consciência do homem que determina a sua existência. É, pelo contrário, a sua experiência social que determina a sua consciência.”
Uma história da idéia...
Antony Beavis percebeu claramente o processo de desenvolvimento, de mudanças qualitativas que se operam na sociedade. É uma história do real. O motor está na base, na prática determinadora das instituições. Querer provar o contrário, ou opor particularizações metafísicas, é como aplicar um “raciocínio lógico a uma situação não existente criada por uma idéia fixa ou uma alucinação.”
A literatura nos estudos linguísticos e estruturalistas – um desvario, uma idéia fixa, elucubrações dolorosas, uma condenação da lógica dialética. Reflexo das situações sociais, ao mesmo tempo expressão estilística do espírito objetivo, autônomo, assim o mestre Carpeaux vê a literatura. Forma e conteúdo na sua complementaridade.
As dimensões sintagmáticas e paradigmáticas da literatura, fundadas no conceito de sobredeterminação de certa formação do inconsciente, como o sonho, não passa de piada, de miragem no direcionamento dos estudos freudianios.
7 - Em Sousa, encontro entre os nossos, indecisão para escolha do candidato a prefeito, causada pela prolongada ausência de Antônio Mariz. Preso a compromissos de trabalho na Assembléia Nacional Constituinte, ele pouco tem aparecido. Esse é o papel do líder. Esperam-no para as decisões que deverão nos levar à vitória, para oferecer-lhe mais uma condecoração.
A submissão a um projeto familiar de realização política prejudicou a luta socialista de Antônio Mariz. Pai, avô, bisavô, tios, primos, foram governadores, deputados, senadores. Esse traço caseiro, a prosápia, refreou-lhe o ímpeto, desviou a linha de sua ação. Mas entre os paraibanos – é preciso que se diga – pelo seu caráter, pelo exemplo dos seus, permanece admirado pelas qualidades morais no trato da coisa pública. Não vejo, atualmente, entre os políticos paraibanos, outro que pudesse arrancar o Estado do caos administrativo, da frouxidão moral em que o enterraram os últimos governos.
Lembro-me de Ernani Sátyro, reacionário “íntegro”, no seu sonho monárquico de uma casa de reis. O lema do seu governo era contraditório no enunciado: “tradição e renovação.” Tradição pelo que fizeram os seus antepassados, pelo que ele fazia e pelo que certamente o fariam outros com o seu sobrenome. Enfim, a renovação no seu estilo inarredável.
8 - Quando Marshall McLuhan afirmou que “o artista é detentor do poder de ver com clareza e julgar o meio vigente criado pela mais recente tecnologia”, ensinou-nos que, a arte é instrumento e meio eficiente, como reflexo da realidade, para o conhecimento, e que o artista é um descobridor das características e situações típicas da evolução social. Os artistas são as antenas da raça. Li essa afirmação, acredito, em Ezra Pound, no seu ABC OF READING.
A prática do intercâmbio cultural pode levar-nos à descoberta e identificação da fonte comum entre as manifestações artísticas em todo o mundo, explicando e desvendando “mistérios” que ainda envolvem o homem. Apesar das características e peculiaridades de cada povo, a soma dos esforços e conquistas do pensamento humano constitue o elo comum, o patrimônio de toda humanidade. A obra filosófica de Karl Marx e as composições de Haendel, alemães pelo nascimento, sugiram na Inglaterra.
(CONTINUA)

sábado, 29 de dezembro de 2012



LUIZ GONZAGA E SOUSA
O destino ligou Luiz Gonzaga, o Gonzagão, à nossa cidade de Sousa, o que comprovam dois momentos de sua vida, marcantes para ele e para os sousenses.  Sobre este assunto são conhecidas declarações dele, testemunhadas, e também fotografias em que aparece em reuniões sociais e festivas de que participou, que existem em arquivos pessoais de filhos de Sousa. Resumo:  num dos seus exclamativos comentários sobre sua vida, gravados com a música de fundo da sanfona,  fala que deixou a casa paterna e sentou praça, que as forças armadas  recrutavam até nas feiras sertanejos jovens. Veio parar em Sousa que acantonava uma unidade do exército. Vivia o país um período político agitado por freqüentes en-frentamentos armados entre os governos estadual  e federal. Era o tempo dos “tenentes”, que culminou com a Revolução de Trinta. Presenciou o fuzilamento do comandante, leal ao governo federal, reagindo a ação golpista planejada. Participou como obreiro de reunião da Loja Maçônica Calixto Nóbrega e guardamos fotografia do evento.  Gonzagão ligou-se com intimidade à nossa terra. Foi amigo pessoal  de Deusdete Queiroga de Oliveira, destacado empresário sousense, que o hospedava e dele conseguia o gesto de consideração de participar e tocar nas comemorações do São João  em Sousa, a mais tradicional festividade social do sertão nordestino. Assim passava a noite inteira conosco, sem a correria atual provocada pelos contratos de apresentação de várias cidades na mesma noite. Estive presente com os sousenses no Clube Campestre e no BNB Clube onde se apresentou, dividindo mesa em demorados momentos, desfrutando o chiste que enfeitava a sua conversa. Fui brindado por ele com uma extensa gravação  exaltando o meu nome e a minha candidatura a deputado estadual em 1978, por solicitação do meu compadre Dezinho Queiroga. Mais de cinco minutos de gabolice e piadas que me exaltavam, com o Boiadeiro como música de fundo, executado por ele na sanfona, que eu divulgava  nos programas de rádio, e como carro chefe dos meus comícios de feira. A votação que obtive ultrapassou os 9600 votos, o que jamais acontecera em Sousa até aquela data.  As votações maiores obtidas por outros candidatos até hoje, não foram, proporcionalmente, em relação ao número de votantes, maior do que aquela, acredito.
Ao lado um flagrante na casa de Dezinho Queiroga com os amigos e correligionários Nivaldo Sá  e Chico Braga, verdadeiros baluartes das nossas campanhas eleitorais.

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GONZAGÃO E A TRADIÇÃO SERTANEJA, ONDE ENTRAM PELOS SEUS DESCENDENTES, O MAJOR MIGUEL SÁTIRO E BASÍLIO QUIDUTE DE SOUSA FERRAZ (adotava no cangaço o cognome de Basilio Arquiduque Bispo de Lorena – Guerreiros do Sol, Frederico Pernambucano de Melo), E JOSÉ MATOS ROLIM (meu avô patrerno) TAMBÉM BACHAREL DO RECIFE.
O colega bacharel da turma de 1964 da Faculdade de Direito do Recife Flávio Sátiro Fernandes, eminente constitucionalista e mestre do Direito, postou no Facebook a sua fotografia e fez referência ao meu nome e de outros mais íntimos no seu relacionamento,  no 48º aniversário de nossa formatura, despertou a minha atenção para a vida no Recife daquele tempo.  Também fui jovem naqueles idos e guardo a memória da com-vivência com a juventude nordestina principalmente a pernambucana, mais numerosa, que freqüentava a famosa Escola do Direito, chamada a Casa de Tobias (Barreto). Refiro por entender necessário, para acentuar o prestígio dos acadêmicos de direito na capital pernambucana e conferir notoriedade a este comentário, alguns brasileiros notáveis que ali estudaram: Castro Alves, Gonçalves Dias, Fagundes Varela, Augusto dos Anjos, José Lins  do Rego, Osman Lins para citar alguns poetas e romancistas,  e políticos e juristas como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José Américo,  Pontes de Miranda, José Mário Porto, Rui Carneiro, Salviano Leite, Otacílio Silveira, Aloisio Bonavides, Clovis Lima, Álvaro Gaudêncio  entre tantos outros.
Mas rendo uma homenagem sentida e especial ao compositor e cantor Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que estimulou o meu sentimento de amor ao mundo do sertão, aos seus costumes, aos protagonistas da vida social local, no centenário do seu nascimento,  e evocarei a sua música que nos embalava na alegria da vida estudantil. Pernambuco é para mim uma referência essencial nas minhas lembranças, nas minhas reflexões de natureza intelectual, nos meus sentimentos políticos centrados no humanismo que veio com o Iluminismo e desaguou no marxismo leninismo que era o substratato das teses políticas da esquerda da época.
Repito o que afirmei outras vezes: nasci na minha querida cidade de Sousa onde abri os olhos para a vida; Campina Grande me apresentou ao mundo da literatura; Recife me alistou na frente de luta democrática. Hoje pachorrentamente recolhido ao campo, curto essas lembranças com a contribuição valiosa da televisão e da internet para me situar no mundo.
Pois bem. Numa daquelas noitadas alegres, chovia fino, e adentrando um bar na descida da Ponte do Santa Isabel para o 13 de Maio, nas proximidades da Faculdade, encontrei o colega José Quidute, no sempre amarrotado terno de diagnonal branco – um luxo para a época  -, de gravata, que gesticulava e cantava alto a música tocada na radiola: Riacho do Navio, de Luiz Gonzaga. Era a sua terra de nascimento. Sentei-me à sua mesa, começamos o papo sobre a eleição para o diretório acadêmico, o mulherio, comprei uma ficha e apertei a tecla do baião Paraíba, a minha terra também de nascimento.
 Muitas horas passamos e sapatear e bater com os pés no rítimo da música que tocava. O colega Quidute, este saltava com a rapidez e o trejeito de cangaceiro, de quem sacava uma arma da cintura, empolgava o ambiente. Quidute era branco e tinha uma farta cabeleira negra que esvoaçava e todos aplaudiam. Eu, sem muito jeito, também dava os meus pulos, batia com força os pés no chão, mal sucedido numa tentativa de rabo-de-arraia fiquei de cócoras. Parecia um desafio. Cansados, quando um sentava o outro levantava. Bebíamos cerveja e comíamos  siri, caranguejo, espeto de carne.  A madrugada nos levou exaustos para os tabiques dos nossos quartos de pensão, nos sobradões coloniais.  -----------------------------
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Notas da Fazenda


ARIANO SUASSUNA E O PREMIO NOBEL DE LITERATURA
Oportuna a lembrança do senador Cassio Cunha Lima, propondo na tribuna do senado a indicação do nome do paraibano Ariano Suassuna para disputar o prêmio nobel de literatura em 2012. O mérito intelectual e criativo de Ariano no campo da literatura, transpõe para o romance e para o teatro a memória efetiva nacional, a partir do Descobrimento, fincada no Nordeste onde aportaram as caravelas de Cabral. Outros momentos representativos do processo civilizatório nacional existiram, como ressalta Darcy Ribeiro, porém a babel sulina confunde, fala de outro mundo, igualmente nacional, reconheço, porque a nossa tradição tem muita força, mas sem raizes na tradição ibérica, africana, tupi, tapuia que deu origem ao tipo nacional mesmo. Alguma palavras mais. 
No seu ROMANCE DA PEDRA DO REINO E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI E VOLTA, Ariano Suassuna revela-se no vivido, defrontando-o à realidade decadente da vida sertaneja, deformada pelo colonialismo cultural e econômico, destruidor e indesejável. E o perpassar dos fatos da política. A sua concepção da vida e da arte é a de que tudo se realiza num mundo miserável, onde a condição humana periclita, reduz-se a de um “piolho, de um carrapato-chupa-sangue e pardo, errante entre os pêlos da onça.” Esta evidência do seu pessimismo diante da vida, em face do mundo que é representado na figura de uma onça que via se desfazer “em pó, em cinza, em sarna, o que ainda lhe restava de sua vida demente e sem grandeza”, é revelada por Quaderna que vê os homens como uma raça piolhosa, “raça também sarnenta e sem grandeza, coçando-se idiotamente como um bando de macacos diante da ventania crestadora, enquanto espera a morte, à qual está, de véspera condenada.”
A visão de Quaderna – que outra coisa não é, senão a sua cosmovisão – encerra uma revelação trágica entre todas. É quando ele, ao descrever ao Corregedor a aparição sobrenatural, manifesta dolorosamente a sua decepção pela inferioridade e malignidade do que lhe ocorrera, dizendo: “O pior, porém, é que não se tratava nem de uma Onça digna, uma Onça Malhada como aquela que o Profeta Nazário e Pedro Cego tinham visto.” O Profeta e o Cego são porta-vozes de toda aquela massa de ignorantes e místicos sertanejos, cujos anseios consistem na busca de um mundo justo e melhor, representado na idéia de riqueza e felicidade. Um mundo virtuoso, portanto, cuja pureza é produzida com instinto plástico espontâneo na bela figura da Onça Malhada, que tem nos olhos pedras preciosas, é fértil, cantadeira, propõe-se a tornar felizes os que nela acreditarem. A visão de Quaderna é deformada, deformação que o entristece e desespera cada vez mais, ao compreender a decadência inelutável da estrutura que o originou, jogando-o à mercê de um sebastianismo inconsequente e criminoso.Todos os sonhos “monárquicos-de-esquerda”, fruto de um falso conhecimento da realidade, que povoam o mundo do Poeta-Decifrador-Astrólogo, não resistem à imagem rejeitada da Onça sarnenta e piolhenta. Acredito haver certa identidade entre as minhas observações e as de Rachel de Queiroz sobre A PEDRA DO REINO. Sem maior esforço as localizamos em comentários da romancista cearense, encontrando na narrativa “reclamos de usurpação”, “Suassuna olha para esse mundo com a visão do exilado, ainda na adolescência arrancado ao seu sertão natal.”
A sua obra literária, na reflexão de Ascendino Leite sobre o romance paraibano, “tem algo nela da têmpera tolstoiana, que entrevimos nos cossacos vencedores do efêmero – recriados nos instinto, solícitos sempre às dores gerais. Um povo eterno.” A construção retórica e literária de Ariano reflete-se, inclusive na discussão ordinária de assuntos essenciais à nossa formação cultural como povo, nação, refletida no seu protesto veemente contra o chamado “forró de plástico”. Um fenômeno verdadeiramente universal.   -----------------------------------