PROSA CAÓTICA II - O DURO RE COMEÇO)
CADERNO II (1985 /1990)
1 - Ao nascer do sol já estou de pé. Deito-me cedo e
entrego-me aos pensamentos, sozinho no alpendre. Ventos fortes, pingos
de chuva ou o avançado da hora empurram-me para dentro de casa. Gosto de
ficar em silêncio, espreitando o espetáculo da natureza, como se
receasse interromper o desenrolar das cenas noturnas.
Gira
o universo. Estrelas aparecem e desaparecem no céu. A Via Láctea no
infinito encantamento de suas lendas desenha-se num fundo negro,
profundo. Relâmpagos iluminam o nascente, ronca o trovão. O gado fica
imobilizado esperando a chuva para começar a andar numa forma de
resistência e adaptação ao belo e incomparável fenômeno natural da
tempestade.
A chuva vem montada no vento, que escouceia, sopra com violência. “O vento é o cavalo da chuva”, ensina a retórica sertaneja.
Ao amanhecer, os pássaros cantam todos de uma vez. Destacam-se as
modulações do sabiá, do galo de campina, chilrear de vozes harmoniosas
no meio do alarido. Luz e sombras. As matas reverdecidas depois da longa
letargia da seca.
Avisto trabalhadores vindos de suas casas
distantes, dirigindo-se para a jornada nas roças. Homens e mulheres,
velhos e crianças, em alegres discussões e desafios. A perspectiva de
colheita, a superação das dietas forçadas desanuvia-lhes as feições
duras como pedras.
Mesmo sabendo que lhes é negado o produto
integral do seu trabalho, retesam os músculos como condenados, o suor
pingando do rosto, fazendo manchas escuras nos sovacos, nas costas.
2
- Releitura do que venho escrevendo há alguns dias, sem regularidade.
Nada além de simples exercício que me impus, de um gesto filho do ócio.
O trivial sem estilo.
Lembro de uma página de Huxley. Anotações de um caderno do intelectual
Antony Beavis. A lógica do raciocínio de uma mente poderosa. E eu com os
meus pobres escritos, sem leitores, rabiscando para mim mesmo.
É uma longa transcrição, mas vale como exercício de memória e autocrítica.
“Acton quis escrever a História do Homem em termos de uma História da
Idéia de Liberdade. Mas não se pode escrever uma História da Idéia de
Liberdade, sem ao mesmo tempo, escrever uma História do Fato da
Escravização. Nas suas sucessivas tentativas de conceber a Ídéia de
liberdade, o homem está constantemente trocando uma forma de
escravização por outra.”
“A Escravização primitiva é a escravização
ao estômago e à estação adversa. Escravização à natureza, numa palavra. A
fuga à natureza se consegue pela organização social e pela invenção
técnica. Numa cidade moderna é possível esquecer que existe esta coisa
chamada natureza – particularmente a natureza em seus aspectos mais
inumanos e hostis. Metade da população da Europa vive no universo
forjado por ela mesma. Suprimamos a escravização à natureza e surge
imediatamente outra forma de escravização. A escravização às
instituições. Instituições jurídicas, religiosas, militares, econômicas,
educacionais, artísticas e científicas.”
“Toda história moderna é
uma História da Idéia de nos libertarmos das Instituições. E é
igualmente a História do Fato da Escravização às Instituições. É porque
se procura por em prática a Idéia de Liberdade que as Instituições se
transformam.”
3 - Herdei do meu pai o
espírito boêmio, dessa boemia livresca com certa dose de álcool. E a
tendência ocasional para o isolamento, a introspecção. O dinheiro para
mim não tem importância além do que se fizer necessário para despesas
indispensáveis e modestas. Mesmo assim o procuro como instrumento e meio
indispensável de realização de trocas. Mas o que pesa mesmo na vida das
pessoas e ressoam em memórias, reflexões e angústias é a busca pela
própria individualidade no campo e na cidade, a tentativa de compreender
o significdo da morte e o questionamento dos dogmas da religião. É o
que povoa a mente de cada um em transfigurações.
4 - Algo ocupa
insistentemente a minha mente, traz-me à lembrança uma leitura da
juventude nos momentos de sonhos românticos acossados pela antevisão do
futuro. Recebi o livro das mãos de uma pessoa refinada, vestia, com
elegância, os gestos discretos, porém efeminados, o sobrenome da nobreza
europeía, Grimaldi. Refiro-me aos “Cadernos de Malte Laurids Brigge” do
atormentado poeta Rainer Maria Rilke. Ele perorava pretensiosamente em
dúvidas cruéis num retorno a Paris: “11 de setembro, Rue Toullier. É
para cá, então que as pessoas vêm para viver; eu diria, antes, que aqui
se morre. Estive fora. [...] Há um número imenso de pessoas, mas o
número de rostos é muito maior, pois cada uma delas possui vários. Há
pessoas que ostentam um rosto por anos a fio, e, obviamente ele se
gasta, [...] seus filhos devem usá-los. [...] Isso tem, é claro, a sua
tragicidade.[...] não estão acostumados a poupar rostos. [...] Voilà
votre mort, monsieur. As pessoas morrem do jeito que der; morrem a morte
que cabe à doença que têm (pois desde que todas as doenças são
conhecidas, também se sabe que os diferees epílogos letais cabem às
doenças e não às pessoas; e o doente, por assim dizer, não tem nada a
fazer).”
Há os casos de doenças da alma, como a inquietude e a
indecisão sobre escolha de modo de viver e de lugar para viver. E os
enfrentamentos mortais na guerra e nas disputas pessoais. Eis a morte
adrede preparada. E ainda mais cuéis indagações que povoavem a mente do
personagem nas suas indagações mórbidas, nietzcheanas: “É possível que
apesar de invenções e de progressos, apesar da cultura, da religião e
da filosofia, tenhamos ficado na superfície da vida? [...] É possível
que toda história universal tenha sido mal-entendida? [...] É possível
que existam pessoas que digam ´Deus´e pensem que se trata de algo comum a
todos? [,,,] Porem, se tudo isso é possível, se tiver apenas uma
centelha de possibilidade - então, por tudo que há de sagrado neste
mundo, algo tem de acontecer.”
5 - Do meu “diário poético”, que não é diário, mas anotações dispersas:
I- ...estrelas vegetais...
Pasto espacial de melancólicos bois...(?).
Thiago de Melo mora em Paris com Simeão Estilita.
Preferiu a Torre Eiffel às palafitas de Manaus.
II - Distribuindo sorrisos.
Como o trapezista,
Voando perigosamente sobre o picadeiro.
O falso artista. Assim ganha dinheiro.
Há pessoas que se realizam no sofrimento, na distância das
coisas, dos seres queridos. Descobrem a pobreza do seu mundo desfrutando
da riqueza de outros. Um caso para o divã do pcanalista. Ou para o
julgamento da história.
6 - Estas anotações perdem o
sentido de um relatório de fatos, como imaginei. Reproduzem no nível de
minhas preocupações, o problema capital da vida espiritual da sociedade.
Indagação a que Marx respondeu com um axioma: “Não é a consciência do
homem que determina a sua existência. É, pelo contrário, a sua
experiência social que determina a sua consciência.”
Uma história da idéia...
Antony Beavis percebeu claramente o processo de desenvolvimento, de
mudanças qualitativas que se operam na sociedade. É uma história do
real. O motor está na base, na prática determinadora das instituições.
Querer provar o contrário, ou opor particularizações metafísicas, é como
aplicar um “raciocínio lógico a uma situação não existente criada por
uma idéia fixa ou uma alucinação.”
A literatura nos estudos
linguísticos e estruturalistas – um desvario, uma idéia fixa,
elucubrações dolorosas, uma condenação da lógica dialética. Reflexo das
situações sociais, ao mesmo tempo expressão estilística do espírito
objetivo, autônomo, assim o mestre Carpeaux vê a literatura. Forma e
conteúdo na sua complementaridade.
As dimensões sintagmáticas e
paradigmáticas da literatura, fundadas no conceito de sobredeterminação
de certa formação do inconsciente, como o sonho, não passa de piada, de
miragem no direcionamento dos estudos freudianios.
7 - Em Sousa,
encontro entre os nossos, indecisão para escolha do candidato a
prefeito, causada pela prolongada ausência de Antônio Mariz. Preso a
compromissos de trabalho na Assembléia Nacional Constituinte, ele pouco
tem aparecido. Esse é o papel do líder. Esperam-no para as decisões que
deverão nos levar à vitória, para oferecer-lhe mais uma condecoração.
A submissão a um projeto familiar de realização política prejudicou a
luta socialista de Antônio Mariz. Pai, avô, bisavô, tios, primos, foram
governadores, deputados, senadores. Esse traço caseiro, a prosápia,
refreou-lhe o ímpeto, desviou a linha de sua ação. Mas entre os
paraibanos – é preciso que se diga – pelo seu caráter, pelo exemplo dos
seus, permanece admirado pelas qualidades morais no trato da coisa
pública. Não vejo, atualmente, entre os políticos paraibanos, outro que
pudesse arrancar o Estado do caos administrativo, da frouxidão moral em
que o enterraram os últimos governos.
Lembro-me de Ernani Sátyro,
reacionário “íntegro”, no seu sonho monárquico de uma casa de reis. O
lema do seu governo era contraditório no enunciado: “tradição e
renovação.” Tradição pelo que fizeram os seus antepassados, pelo que ele
fazia e pelo que certamente o fariam outros com o seu sobrenome. Enfim,
a renovação no seu estilo inarredável.
8 - Quando Marshall
McLuhan afirmou que “o artista é detentor do poder de ver com clareza e
julgar o meio vigente criado pela mais recente tecnologia”, ensinou-nos
que, a arte é instrumento e meio eficiente, como reflexo da realidade,
para o conhecimento, e que o artista é um descobridor das
características e situações típicas da evolução social. Os artistas são
as antenas da raça. Li essa afirmação, acredito, em Ezra Pound, no seu
ABC OF READING.
A prática do intercâmbio cultural pode levar-nos à
descoberta e identificação da fonte comum entre as manifestações
artísticas em todo o mundo, explicando e desvendando “mistérios” que
ainda envolvem o homem. Apesar das características e peculiaridades de
cada povo, a soma dos esforços e conquistas do pensamento humano
constitue o elo comum, o patrimônio de toda humanidade. A obra
filosófica de Karl Marx e as composições de Haendel, alemães pelo
nascimento, sugiram na Inglaterra.
(CONTINUA)
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
sábado, 29 de dezembro de 2012
LUIZ GONZAGA E SOUSA
O destino
ligou Luiz Gonzaga, o Gonzagão, à nossa cidade de Sousa, o que comprovam dois
momentos de sua vida, marcantes para ele e para os sousenses. Sobre este assunto são conhecidas declarações
dele, testemunhadas, e também fotografias em que aparece em reuniões sociais e
festivas de que participou, que existem em arquivos pessoais de filhos de
Sousa. Resumo: num dos seus exclamativos
comentários sobre sua vida, gravados com a música de fundo da sanfona, fala que deixou a casa paterna e sentou praça,
que as forças armadas recrutavam até nas
feiras sertanejos jovens. Veio parar em Sousa que acantonava uma unidade do
exército. Vivia o país um período político agitado por freqüentes en-frentamentos
armados entre os governos estadual e
federal. Era o tempo dos “tenentes”, que culminou com a Revolução de Trinta. Presenciou
o fuzilamento do comandante, leal ao governo federal, reagindo a ação golpista
planejada. Participou como obreiro de reunião da Loja Maçônica Calixto Nóbrega
e guardamos fotografia do evento. Gonzagão ligou-se com intimidade à nossa terra.
Foi amigo pessoal de Deusdete Queiroga
de Oliveira, destacado empresário sousense, que o hospedava e dele conseguia o
gesto de consideração de participar e tocar nas comemorações do São João em Sousa, a mais tradicional festividade
social do sertão nordestino. Assim passava a noite inteira conosco, sem a
correria atual provocada pelos contratos de apresentação de várias cidades na
mesma noite. Estive presente com os sousenses no Clube Campestre e no BNB Clube
onde se apresentou, dividindo mesa em demorados momentos, desfrutando o chiste
que enfeitava a sua conversa. Fui brindado por ele com uma extensa
gravação exaltando o meu nome e a minha
candidatura a deputado estadual em 1978, por solicitação do meu compadre
Dezinho Queiroga. Mais de cinco minutos de gabolice e piadas que me exaltavam,
com o Boiadeiro como música de fundo, executado por ele na sanfona, que eu
divulgava nos programas de rádio, e como
carro chefe dos meus comícios de feira. A votação que obtive ultrapassou os
9600 votos, o que jamais acontecera em Sousa até aquela data. As votações maiores obtidas por outros
candidatos até hoje, não foram, proporcionalmente, em relação ao número de
votantes, maior do que aquela, acredito.
Ao lado um
flagrante na casa de Dezinho Queiroga com os amigos e correligionários Nivaldo
Sá e Chico Braga, verdadeiros baluartes
das nossas campanhas eleitorais.
***
GONZAGÃO E A TRADIÇÃO SERTANEJA,
ONDE ENTRAM PELOS SEUS DESCENDENTES, O MAJOR MIGUEL SÁTIRO E BASÍLIO QUIDUTE DE
SOUSA FERRAZ (adotava no cangaço o cognome de Basilio Arquiduque Bispo de
Lorena – Guerreiros do Sol, Frederico Pernambucano de Melo), E JOSÉ MATOS ROLIM
(meu avô patrerno) TAMBÉM BACHAREL DO RECIFE.
O colega bacharel da turma de
1964 da Faculdade de Direito do Recife Flávio Sátiro Fernandes, eminente
constitucionalista e mestre do Direito, postou no Facebook a sua fotografia e
fez referência ao meu nome e de outros mais íntimos no seu relacionamento, no 48º aniversário de nossa formatura, despertou
a minha atenção para a vida no Recife daquele tempo. Também fui jovem naqueles idos e guardo a
memória da com-vivência com a juventude nordestina principalmente a pernambucana,
mais numerosa, que freqüentava a famosa Escola do Direito, chamada a Casa de
Tobias (Barreto). Refiro por entender necessário, para acentuar o prestígio dos
acadêmicos de direito na capital pernambucana e conferir notoriedade a este
comentário, alguns brasileiros notáveis que ali estudaram: Castro Alves,
Gonçalves Dias, Fagundes Varela, Augusto dos Anjos, José Lins do Rego, Osman Lins para citar alguns poetas e
romancistas, e políticos e juristas como
Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José Américo,
Pontes de Miranda, José Mário Porto, Rui Carneiro, Salviano Leite,
Otacílio Silveira, Aloisio Bonavides, Clovis Lima, Álvaro Gaudêncio entre tantos outros.
Mas rendo uma homenagem sentida e
especial ao compositor e cantor Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que estimulou o
meu sentimento de amor ao mundo do sertão, aos seus costumes, aos protagonistas
da vida social local, no centenário do seu nascimento, e evocarei a sua música que nos embalava na
alegria da vida estudantil. Pernambuco é para mim uma referência essencial nas
minhas lembranças, nas minhas reflexões de natureza intelectual, nos meus
sentimentos políticos centrados no humanismo que veio com o Iluminismo e
desaguou no marxismo leninismo que era o substratato das teses políticas da
esquerda da época.
Repito o que afirmei outras
vezes: nasci na minha querida cidade de Sousa onde abri os olhos para a vida; Campina
Grande me apresentou ao mundo da literatura; Recife me alistou na frente de
luta democrática. Hoje pachorrentamente recolhido ao campo, curto essas
lembranças com a contribuição valiosa da televisão e da internet para me situar
no mundo.
Pois bem. Numa daquelas noitadas
alegres, chovia fino, e adentrando um bar na descida da Ponte do Santa Isabel
para o 13 de Maio, nas proximidades da Faculdade, encontrei o colega José
Quidute, no sempre amarrotado terno de diagnonal branco – um luxo para a
época -, de gravata, que gesticulava e
cantava alto a música tocada na radiola: Riacho do Navio, de Luiz Gonzaga. Era
a sua terra de nascimento. Sentei-me à sua mesa, começamos o papo sobre a
eleição para o diretório acadêmico, o mulherio, comprei uma ficha e apertei a
tecla do baião Paraíba, a minha terra também de nascimento.
Muitas horas passamos e sapatear e bater com
os pés no rítimo da música que tocava. O colega Quidute, este saltava com a
rapidez e o trejeito de cangaceiro, de quem sacava uma arma da cintura,
empolgava o ambiente. Quidute era branco e tinha uma farta cabeleira negra que
esvoaçava e todos aplaudiam. Eu, sem muito jeito, também dava os meus pulos,
batia com força os pés no chão, mal sucedido numa tentativa de rabo-de-arraia fiquei
de cócoras. Parecia um desafio. Cansados, quando um sentava o outro levantava.
Bebíamos cerveja e comíamos siri,
caranguejo, espeto de carne. A madrugada
nos levou exaustos para os tabiques dos nossos quartos de pensão, nos sobradões
coloniais. -----------------------------
sábado, 1 de dezembro de 2012
Notas da Fazenda
ARIANO SUASSUNA E O PREMIO NOBEL DE LITERATURA
Oportuna a lembrança do senador Cassio Cunha Lima, propondo na tribuna do senado a indicação do nome do paraibano Ariano Suassuna para disputar o prêmio nobel de literatura em 2012. O mérito intelectual e criativo de Ariano no campo da literatura, transpõe para o romance e para o teatro a memória efetiva nacional, a partir do Descobrimento, fincada no Nordeste onde aportaram as caravelas de Cabral. Outros momentos representativos do processo civilizatório nacional existiram, como ressalta Darcy Ribeiro, porém a babel sulina confunde, fala de outro mundo, igualmente nacional, reconheço, porque a nossa tradição tem muita força, mas sem raizes na tradição ibérica, africana, tupi, tapuia que deu origem ao tipo nacional mesmo. Alguma palavras mais.
No seu ROMANCE DA PEDRA DO REINO E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI E VOLTA, Ariano Suassuna revela-se no vivido, defrontando-o à realidade decadente da vida sertaneja, deformada pelo colonialismo cultural e econômico, destruidor e indesejável. E o perpassar dos fatos da política. A sua concepção da vida e da arte é a de que tudo se realiza num mundo miserável, onde a condição humana periclita, reduz-se a de um “piolho, de um carrapato-chupa-sangue e pardo, errante entre os pêlos da onça.” Esta evidência do seu pessimismo diante da vida, em face do mundo que é representado na figura de uma onça que via se desfazer “em pó, em cinza, em sarna, o que ainda lhe restava de sua vida demente e sem grandeza”, é revelada por Quaderna que vê os homens como uma raça piolhosa, “raça também sarnenta e sem grandeza, coçando-se idiotamente como um bando de macacos diante da ventania crestadora, enquanto espera a morte, à qual está, de véspera condenada.”
A visão de Quaderna – que outra coisa não é, senão a sua cosmovisão – encerra uma revelação trágica entre todas. É quando ele, ao descrever ao Corregedor a aparição sobrenatural, manifesta dolorosamente a sua decepção pela inferioridade e malignidade do que lhe ocorrera, dizendo: “O pior, porém, é que não se tratava nem de uma Onça digna, uma Onça Malhada como aquela que o Profeta Nazário e Pedro Cego tinham visto.” O Profeta e o Cego são porta-vozes de toda aquela massa de ignorantes e místicos sertanejos, cujos anseios consistem na busca de um mundo justo e melhor, representado na idéia de riqueza e felicidade. Um mundo virtuoso, portanto, cuja pureza é produzida com instinto plástico espontâneo na bela figura da Onça Malhada, que tem nos olhos pedras preciosas, é fértil, cantadeira, propõe-se a tornar felizes os que nela acreditarem. A visão de Quaderna é deformada, deformação que o entristece e desespera cada vez mais, ao compreender a decadência inelutável da estrutura que o originou, jogando-o à mercê de um sebastianismo inconsequente e criminoso.Todos os sonhos “monárquicos-de-esquerda”, fruto de um falso conhecimento da realidade, que povoam o mundo do Poeta-Decifrador-Astrólogo, não resistem à imagem rejeitada da Onça sarnenta e piolhenta. Acredito haver certa identidade entre as minhas observações e as de Rachel de Queiroz sobre A PEDRA DO REINO. Sem maior esforço as localizamos em comentários da romancista cearense, encontrando na narrativa “reclamos de usurpação”, “Suassuna olha para esse mundo com a visão do exilado, ainda na adolescência arrancado ao seu sertão natal.”
A sua obra literária, na reflexão de Ascendino Leite sobre o romance paraibano, “tem algo nela da têmpera tolstoiana, que entrevimos nos cossacos vencedores do efêmero – recriados nos instinto, solícitos sempre às dores gerais. Um povo eterno.” A construção retórica e literária de Ariano reflete-se, inclusive na discussão ordinária de assuntos essenciais à nossa formação cultural como povo, nação, refletida no seu protesto veemente contra o chamado “forró de plástico”. Um fenômeno verdadeiramente universal. -----------------------------------
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Vista
parcial da mata atlântica no Cabo Branco derrubada pelo governador
Ricardo Coutinho. Nos 58.346 km² do território paraibano, outro local
não existiria para implantação do seu megalômeno projeto de auditório
(mais um entre outros 30 praticamente ociosos na capital) anunciado em
linguagem de camelô como estação-ciência? Julguem os frequentadores do
facebook.
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domingo, 28 de outubro de 2012
Notas da Fazenda
26/10/2012 12:12 - Eilzo Matosisonomia |
ALERTA DEFENSORES PÚBLICOS. UMA QUESTÃO REPUBLICANA, DE CIDADANIA
O
governador Ricardo Coutinho é conhecido pela rispidez de suas palavras,
pela crueldade de suas decisões. Complexos que ele guarda na
consciência. Vingança é a sua praia. Pagar a folha salarial é sua
obrigação, todavia, escolhe e decide regras sobre datas, categorias,
exclusão, etc. E a lei, a justiça? Letra morta, espantalho para ele.
Vejamos a situação dos defensores públicos. Hoje aposentado, quando fui
nomeado os salários eram iguais: juiz, promotor, defensor público
(advogado).
Não
se realiza a relação jurídico-processual, procedimental sem a presença
dos três. Veio a discriminação odienta que perdura e se agrava com o
Boca Torta. Agora é pressionar, isolar no purgatório da indefinição, do
desconhecimento, da negação de direitos. Afinal, colegas defensores,
vocês se submetem à obrigação de fazer rapapés para promotores e juizes.
Serviçais como sempre. O problema é salarial, isonômico, não é de
"boquinhas". Estudaram todos nas mesmas faculdades, aprenderam nos
mesmos livros, interpretam e discutem a aplicação das mesmas leis.
Juiz
e promotor, simplesmente burocratas: salário aproximado 20 mil,
defensor público representante dos cidadãos que reunidos criaram a
república salário aproximado 6 mil. Aqueles dispõem de gabinetes,
assessores, seguranças, militares armados. Para vocês os corredores
do fórum Agora o governador criou funções gratificadas e vocês lutam
pelo prêmio miserável como o cachorro faminto pelo osso roído,
putrefato. Cuidado, no momento da reivindicação: não cheguem muito perto
do governador que ele é cruel e violento e falam que morde, rasga,
estraçalha ideias, argumentos, faz correr lágrimas em faces inocentes. É
o seu jeito. Até acredito pela sua boca torta e dentes de vampiro. E a
sua crônica pessoal, a sua folha corrida criminal registra estelionato,
formação de quadrilha, corrupção, e vai por aí. Um perigo real.
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Comente:
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Notas da Fazenda
BERNARDO BERTOLUCCI
Adquiri na
capital, em visita recente, cópias em dvd de filmes antigos, assistidos na
minha juventude nos cinemas do Recife, principalmente no São Luis, Moderno,
Trianon e Art Palácio, na feliz vida de
estudante. Acabo de assistir, em casa ao
clássico de Bernardo Bertolluci "Antes
da Revolução". Registro a epígrafe literária de Tayllerand escolhida pelo
cineasta: "Quem não viveu os anos anteriores à revolução não pode saber o
que é a alegria de viver". Na verdade tive a felicidade de viver tal
momento, quer na revolução anunciada na vida política e econômica do país (anos
50/60 século XX), quer no despertar do sentimento amoroso na adolescência, em
plena ebulição dos hormônios e nos primeiros anos da vida adulta. Tempo de
leituras, reflexões, reuniões, ativismo enfim, encontros e desencontros. Afinal
assim é a vida.
A minha formação familiar burguesa permitia um
pragmatismo fruto da oposição entre ação e conhecimento, francamente paradoxal.
Tal acontecia como num personagem da trama de Bertolucci, que vaticinava, na
conclusão do mestre: "Aqui termina a vida e começa a sobrevivência".
Este é o destino dos burgueses na luta pela preservação de bens patrimoniais,
no choque de interesses. E até na perda e/ou esquecimento do ambiente
comunitário, coletivo, social mesmo, em episódios que marcaram e se tornaram
legenda de viver. As paisagens, as relações desfeitas. Doeram fundo. Mas alegro-me sobrevivendo a
esses momentos.
PRIMEIRA DAMA PAMELA BORIO
Essa bela e suave "dama de peito macio" como trataria Ariano Suassuna
no relato de Quaderna, não pode deixar de opinar politicamente, especialmente
falando mal de alguns, esquecida de si mesma e de projetos administrativos de
interesse público, que deveriam despertar a sua atenção. Segue a norma do
carrancudo boca torta seu marido governador, tipo no estilo Hitler, Pinochet,
Nero,Fujimori e outros réus e indiciados em falcatruas e crueldades na sua passagem na vida pública. Surpreende saber,
dá pena, mas é verdade. Blogs divulgam notícias que desmascaram a falsa moral
do governador:
Polícia Federal invade fazenda de Pietro, conhecido como o
homem do caixa 2 de RC
Pelo menos 10 agentes da
Polícia Federal invadiram a fazenda do empresário Pietro Harley Dantas Felix na
manhã de hoje no município de Taperoá.
Segundo as primeiras informações, os
agentes foram cumprir mandados de busca e apreensão, após uma denúncia dando conta
de crimes ligados as eleições 2012.
Pietro estaria apoiando a candidata
do PSB, Socorro, a prefeitura de Taperoá.
Até agora já se tem notícias da
apreensão de armas de fogo de vários calibres no interior da fazenda.
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