segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Praça Rural



PRAÇA E CAMPO - SEMENTES DE INCLUSÃO SOCIAL
            Quero construir praças no campo. Uma idéia que não tiro da cabeça na solidão que vivo na fazenda, sem outra opção que a televisão, a internet, os livros. Outros também sentem essa falta. A exclusão social nos alcança. Necessitamos do contato humano, de conversas, de negócios, de festas nossas não de sua representação. Alerto os governantes. Não se trata de problema orçamentário, mas existencial.
Li sobre a Demografia, os seus conceitos, as suas leis. Não em profundidade, devo esclarecer, mas o suficiente para assenhorear-me dos seus princípios básicos. E nas reflexões sobre a verificação de sua validade, descortino, ou melhor, assisto e participo da grande mobilidade que determina a situação atual das populações quanto à nacionalidade, naturalidade e sua fixação. O desenvolvimento das relações sociais que criaram a conjuntura atual foge à regra da evolução racional, diria razoável, submetida sempre e determinada, pela influência ou imposição de regras determinadas pelo Senhor Mercado Neoliberal. O Estado Global que conhecemos nada mais é do que o “Estado Mínimo”, reduzidos o seu tamanho e poder de decisão à simples formalidade da sua ação. Vale o Mercado Global fukuyamiano. Esta é a grande verdade. A história o comprova desde o êxodo bíblico às remoções populacionais estalinistas. A invasão das áreas desenvolvidas economicamente, ou litorâneas, pelas populações pobres em todos os lugares, na Europa e nos Estado Unidos principalmente, e falando do nosso país, o exemplo de São Paulo e outros estados do Sul, vêm a calhar. Por outro lado, a pilhagem de bens materiais e culturais pelos centros mais poderosos, leva à penúria imensas áreas da terra, a perda da identidade de nações, a um destino errático, em diásporas que se repetem. O campo é sempre a vítima. Até aqui na pequenina Paraíba, na cidade de Pombal, a população inteira de um distrito, ali residente, distante apenas trinta quilômetros da sede do município, foi condenada a perder todos os serviços públicos que ali funcionavam, e teve de aceitar a transferência do seu domicílio eleitoral ex-oficio, na marra, por uma questão de economia das finanças públicas: menor despesa com a construção de estradas, com a instalação de equipamentos burocráticos e seus serviços.  
Tento explanar, nestas considerações, algo a propósito do isolamento quase absoluto a que estão submetidas pessoas que ainda vivem no campo no nosso país, por escolha ou vítimas de coerção, de um dissimulado constrangimento. Tal fato levou os agentes do Mercado à criação de um novo ramo do direito chancelado por organismo público (UNICEF) o “direito à cidade”, explicitado em painéis com metas específicas, em São Paulo e no Rio de Janeiro a propósito de direitos da criança. Puro favorecimento da atividade mercantil, concentrando a exposição e comercialização dos produtos sem maiores procedimentos ou despesas. Barateamento da prática, aumento do lucro. Nada sequer parecido faz o Mercado em relação ao meio rural. Senão macaqueações exaltando um comportamento algo primitivo e atrasado, destruindo um passado inteiro de experiências de vida. Chamo a atenção dos pensadores do novo mundo, para o fato de que ainda vivem moradores no campo, que lá se reúnem para negócios e para o lazer, para as atividades lúdicas. E são pessoas. E que a noção de “praça” não se restringe à planta arquitetônico-urbanística exclusivamente, de um espaço no seu traçado, para uso na cidade. É preciso criar praças rurais. Quero criar praças rurais. Serão expressões de uma realidade cuja vivência nada pode reproduzir, apenas estimular parcerias vivenciais na indústria, na arte. O processo produtivo agrícola e pecuário, as festas votivas, as gestas que fizeram nascer a agilidade da poesia, do cordel, são frutos da vida campestre, impossível encontrá-las na cidade.  Desaparecerão sem referências apropriadas à sua natureza e origem.  Somente as praças rurais as salvarão.
 Cientistas e intelectuais sofrem assustados os efeitos da perda da tranqüilidade e pela insegurança que domina a vida social em todo o planeta. Classes, castas, religiões, crendices, seitas se entrechocam no ambiente social urbano, levando a explosões fratricidas. É a submissão ao Mercado. A ciência e a técnica permitem a produção de bens e serviços, até a ameaça de exaustão do produto explorado, industrializado e do ambiente natural. A cultura, esta, criminosamente perde a noção de sua cristalização em tradição e costume. Tudo vale como mero folguedo. E esta riqueza resta inutilizada, perdida em estoques guardados com segurança, ou abandonados ao relento, e em projetos anotados em livros volumosos nas estantes, na memória dos computadores. Criação de mitos inconcebíveis numa sociedade justa. E é precisamente esta sociedade justa que eles tentam inviabilizar. Esquecemos a significação do que chamamos parcerias: a divisão, a distribuição do produto fruto da experiência local para universalizar o consumo. Falo de parcerias mesmo no exato significado da palavra: troca. Transferência simultânea de experiências. `As vezes tão aparentemente desnecessárias, como levar apresentações do Festival de Inverno de Campos do Jordão para São Paulo, apenas por uma vaidosa concepção da   visibilidade do trabalho dos que o fazem, cujo mérito deve ser reconhecido como de grande valor social, para eles lá em Campos do Jordão. 

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Praça Rural

PRAÇA RURAL III
(Notas da Fazenda)
Acatando sugestão do amigo César Nóbrega – esquerdista de plantão – que me presta valiosa colaboração na possível atualidade dos comentários que divulgo neste blog, fiz assinatura da revista “Brasileiros” editada em Pinheiros, São Paulo. Buscava informações para basear argumentos em defesa de um projeto que imaginei e entrego para discussão pública – a criação de Praças Rurais. Recebido o primeiro número da revista, o 36, com suplemento, espantaram-me e me encantou o luxo do papel utili-zado na impressão primorosa, e, no nível do escalão financeiro dos anunciantes, nem é bom falar. Vale a pena conferir. Mas adianto: nada de preconceito contra a exibição da beleza e esmero de um produto jornalístico; muito menos de abatimento moral, e de empedernido complexo de inferioridade em relação ao poder do dinheiro. Para mim, naquele escalão VIP da nação, estava o mapa da mina para financiar o meu projeto, pela presumível prodigalidade que às vezes a riqueza permite, pela sua inescusável origem rural (ver Chico Buarque: “o meu pai era mineiro, minha mãe era baiana, o meu pai pernambucano, o meu avô estrangeiro”?). Engano nos versos? Uma tolice rematada? Guardo esperanças.
Quanto aos escribas ou plumitivos da editoração − melhor chamá-los jornalistas mesmo −, vocábulo mais atualizado e que desfruta no panorama global do planeta um inexcedível prestígio, eles assinam textos verdadeiramente representativos da suspeita parceria pública/privada, no funcionamento de instituições oficiais e civis, a mídia inclusive, desde que respeitadas as regras do “custo-benefício” (quem é quem? qual é qual?) da informação, que o sistema criou. Arre! Porque as regras neste mundo do lucro financeiro são irretratáveis, desde que aferidas pelo Mercado também global que chegou ao “fim da história”, aplaudidas por quem as sofre e as não entende, não as discute. Quanto ao governo, isto é outro departamento, pode tudo, mediante fatu-ramento legal, anunciar, cooptar, chancelar, quem sabe até se desdizer. Porque afirmações peremptórias de certas autoridades mais parecem simulacros e arremedos, para coonestar o que é indecente.
Very important person para ver nas páginas da Brasileiros número 37, como o craque Raí e um machão atlético de cinqüenta anos que “relaxa nas areias Maldivas, pequeno país insular no Oceano Índico” (“Perto do Coração Selvagem”pags. 76 a 79). Coisa assim no gosto do ex-presidente Collor que depois de eleito, sem projeto de governo fugiu dos paparazzi e se refugiou nas Seicheles, ilha ignota também à deriva no remoto oceano. Imaginem os leitores a badalação em Dubai, em Las Vegas, na Avenida Paulista, que tal evento provocou. E em Paris e Aruba. Ali está o dinheiro, corre farto, e o governo atento às opiniões dos turistas que sustentam o Mercado, geram empregos, etc. se põe de acordo. Tradição fala de uma economia atrasada, do passado, não gera riqueza considerável em termos atuais. Este o problema.
   Mas quero, verdadeiramente, falar sobre Praça Rural: sombra e bancos em locais freqüentados no campo, para negócios e lazer dos que ali vivem. Defendo a história e o passado de uma população. Evoluindo o projeto, segue-se a organização burocrática e uso de tecnologia e equipamentos modernos para os fins próprios. Somente assim é possível preservar a paisagem, a memória, a tradição. Porque as festas de São João e a Vaquejada, vistos na cidade, ferem e doem pelo ridículo com que fantasiam e nomeiam os personagens e a comemoração. Se insistirmos muito em vôos transoceânicos e transcontinentais, perderemos a nossa identidade de Nação. Nada contra esse prazer de viajar, falo apenas da defesa da nossa tradição que nos dará identidade e ilustrará a nossa história. Repito: é bom escutar Chico Buarque, quero dizer a sua música, porque a sua literatura e a de Jô Soares, como afirmou Wilson Martins (História da Inteligência Brasileira, diversos volumes) crítico literário que lecionou durante 26 anos em Nova York, é de brincadeira.
*
            A “Brasileiros” 37 que acabo de receber, me premiou com uma excelente entrevista do Ministro da Cultura, usando paletó e brincos, narrando as suas aventuras e participações em fóruns culturais internacionais (mais de vinte em dois anos) acolitado por brilhante comitiva, que deu à Cidade Velha da Ribeira Grande na Ilha de Cabo Verde o título de Patrimônio da Humanidade e evitou que as Ilhas Galápagos perdesse, ao assinalar que temos muito a ver com a primeira “pois boa parte dos escravos que veio para o Brasil passou pelas ilhas”. E quanto às segundas, talvez a criação de cabras? Mas ele afirma do alto de sua prosopopéia: “Não podemos usar a simpatia que o Brasil tem no mundo para sermos um novo imperialismo”. Que coragem! A propósito, quando vejo uma mulher bonita bem “produzida” sem um elegante e rico par de brincos, para mim está faltando algo próprio dela, importante e indispensável; ao ver homens usando qualquer traje, com brincos enfiados nas ore-lhas, para mim está sobrando efeminação, frescura, embora, estranhando os respeite, tolere e com eles conviva, sem usar os penduricalhos. Eu hein! Sou chateado com tal comportamento e tenho muito amigos espadas, machos (acredito), cultos que praticam tal moda. Vá La que seja!
            Descobri, entretanto, para tristeza minha, que naquele circuito esnobe não encontraria apoio para a minha pretensão: criar Praça Rural. É preciso, antes de tudo, avaliar a “dimensão econômica do consumo”. Parece linguagem de ritos de iniciação em sociedades privatistas, de cunho obscuro, esotérico. Porque prevalecendo tal critério de avaliação, no reino das humanidades não funcionarão projetos sociais, somente os mercantis, recomendados segundo regras mercadológicas (marketing?). É o que diz o Ministro de brincos. A ele, contudo, credito a idéia dos Pontos de Cultura, implantados e ativos nas cidades, que estarão certamente presentes nas Praças Rurais, que receberão ainda parte dos sete bilhões por ano que serão “injetados na economia por meio do consumo cultural” – o Vale Cultura −, em discussão no Congresso Nacional, para gáudio do Mercado, e também idéia do Ministro de terno e brincos, segundo ele, derrotando o meu preconceito. Com ele a Praça Rural teria sua vez, pois até agricultor ele se declara ao comentar a gestão do seu antecessor também de brincos: “Gil plantou sementes de uma revolução nas políticas culturais brasileiras e agora estou colhendo os frutos dessa mesma agricultura”.  A prática do plantio e da colheita se realiza no campo e não na cidade, daí a minha esperança que a visão do ínclito burocrata chegue até nós campesinos – às Praças Rurais.
            No princípio era o Verbo, está na Bíblia. E no princípio da sociedade dos ho-mens está o campo, a agricultura. A roça, a Praça Rural, portanto. Senhor Ministro Juca Ferreira, escute e atenda o apelo dos campesinos, dos matutos, dos caipiras que ainda existem, vivem e trabalham. Projete, programe e implante Praças Rurais no país..........


 


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Prosa Caótica II, Cad 3, 1988/1990


PROSA CAÓTICA II, O Duro Recomeço, Caderno III (1988/1990)
1

Um vento solto açoita a catinga. A expressão “vento solto” é usada pelos sertanejos para o vento que sopra na seca. É um vento forte e sem direção certa, quase sem interrupção, apenas abrandando, rodopiando em redemoinhos, inesperadamente, nas horas quentes. Às vezes entra casa à dentro o hálito de fornalha batendo portas e janelas. Vem do inferno, dizem.

Terminado o inverno, dedicam-se todos à colheita, todos têm para comer o produto das roças, mas persiste a preocupação com os preços do que necessitam comprar na cidade: querosene, sal, sabão, roupas ordinárias, minúsculas redes. Precisam também de trabalho, de um ganho extra, uma diária para atenuar a miséria.

Passei os festejos de São João na cidade. Voltei para a fazenda no São Pedro. O administrador fez uma fogueira votiva em frente à minha casa, e trouxe milho verde para assar com a palha, como é o costume. Moradores da vizinhança chegaram para conversar. Participei de um jogo de sueca que organizei, pela impossibilidade de sustentarmos um diálogo qualquer. As pessoas da cidade, com nível médio de renda e de cultura, sentir-se-ão isoladas neste mundo como ele é.
Sem outro atrativo para a data festiva, as crianças pediram a presença de um adulto para “contar histórias”. Trata-se de um costume antigo, referenciado por Câmara Cascudo, e que, no meu entendimento, carrega todo o peso de um sonho de libertação. Não foi possível atender-lhes o hábito guardado na memória, eventual e esporadicamente estimulada. Desapareceram no Nordeste onde vivo os contadores de história.
2
Durante o período – quase noventa dias – em que parei a redação destas notas, refleti sobre a minha atividade de caracterizado amadorismo literário, traduzido não somente no ato de escrever, mas na discussão e abordagem de temas que o pro-fissionalismo – alienado embora – oferece com atrativos pseudocientíficos, calcados em estudos sistemáticos. A minha prosa ressente-se de leituras apressadas da adolescência, e perde-se em reminiscências que a memória faculta desordenadamente. Mesmo assim, longe de constituir-se em exemplo, esgota-se desatualizada.
3
Houve uma época em que os escritores brasileiros eram lidos quase exclusivamente pelos confrades. A obra literária era facilmente aceita e elogiada, pela necessidade do retorno do elogio, da distribuição de premiações, como esclarece Nelson W. Sodré no seu EM DEFESA DA CULTURA.
O desenvolvimento das relações capitalistas e industriais refletiu na atividade literária, o varejo da obra de encomenda, desligada da evolução cultural do país. Se hoje temos um público leitor já formado, este é muitas vezes obrigado a consumir best-sellers duvidosos, pela divulgação e pelo preço acessível, e que nada têm com a vida brasileira. Existe, é verdade, uma escassa publicação de autores nacionais e estrangeiros, em literatura e ciência e vendidos a preços proibitivos, perdidos nas bibliotecas de algumas instituições, quase inacessíveis nas li-vrarias.
Defende-se a classe dirigente. O conteúdo revolucionário da arte literária e das ciências, como partes da teoria geral do conhecimento, refletindo a realidade dialética do desenvolvimento da sociedade e da natureza, constituem uma permanente ameaça à sonhada imutabilidade de estruturas de-cadentes, dos privilégios burgueses. Outro aspecto a destacar na posição dos intelectuais com a eficiência socialista e as crises capitalistas é a especialização mesquinha, patrocinada. Assim os trabalhadores intelectuais, fechados em círculos estreitos, pro-duzem uma caricatura de arte, cumprem impo-sições burocráticas e de mercado. Modismos são confundidos com novas formas literárias, fruto aleatório do desenvolvimento cultural.
4
A propriedade e suas exigências começaram a tomar o meu tempo. No longo intervalo entre estas anotações e as que reuni em outro caderno, desviei-me do meu projeto de leituras. As coisas na fazenda não andam mal, porém, o administrador, para agir como outros o fazem, costuma procurar-me para dar conta de serviços contratados, colheita, estado do rebanho. Nada que produza consideráveis rendimentos financeiros. Vivo de uma aposentadoria no serviço público e procuro tornar-lhes a vida menos pesada. Recebo-o com poucas palavras, sem muito interesse, pois sei que tudo está a contento. Ele tenta mostrar o seu desempenho para assegurar a boa situação que desfruta em relação aos demais. Sou tomado de profunda emoção diante de sua figura rude, os gestos acanhados, submisso.
Pesa na consciência do trabalhador rural nordestino o desamparo ancestral, a indefesa condição de servo de gleba, a distinção marginal em face da lei, o que é uma dura realidade. Vive a vida possível, vislumbrando apenas em rápidas reflexões, as mudanças que poderão acontecer. Sabe da existência de sindicatos de trabalhadores, de direitos assegurados, mas pouco reclama.
Defende-se da grosseira exploração na contratação de empreitadas, esperando que um erro na avaliação da tarefa, lhe dê condições de melhor remuneração pelo trabalho duramente executado. Vejo na preferência pelo contrato de empreitada, uma forma do trabalhador esquivar-se à exploração permanente, que o submete à condições indiscutíveis. Assim eles entendem, tenho certeza.
No ambiente adormecido da fazenda começo a sentir-me isolado. Percebo que me olham penalizados com a minha solidão. Extraordinárias criaturas que do fundo de uma vida miserável, arrancam ainda do íntimo um sentimento de compassiva solidariedade.
5
Fiz algumas viagens à Sousa e terminei envolvido nos assuntos da política local. Participei de reuniões para escolha de candidatos nas eleições de novembro. Não quero retornar à vida passada. Velhos amigos que me ajudaram, necessitam agora da minha experiência na política partidária, do apoio para os seus candidatos. Não consigo furta-me aos apelos. As questões locais e as atividades na fazenda têm muita força, a esta altura da vida, dedicada quase inteiramente à luta pelo poder e pelo dinheiro.
6
Sobre a política e a administração pública, alguns trechos de um comentário sobre um livro atual, ainda não publicado em tradução no Brasil. Li-o no INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE (1982), a bordo de um Jumbo da Air France, entre Paris e Roma, lembrando o que fazia o conterrâneo Assis Chateaubriand. Na impossibilidade de uma tradução “literária”, sem outras pretensões, vai o texto original:
THE FUTURE OF INTELECTUALS AND THE RISE OF THE NEW CLASS, by Alwin W. Gouldner, reviewed by John Leonard.
“What is the ‘New Class’ that is taking over? Acoarding to A.W.G., Max Weber Professor of Social Theory at Washington University in St. Louis, the New Class consists of scientists, educators, managers, comunicators, publicity agents, maybe literary critics and other ‘professionals’ whose business it is to run culture. Culture – knowledge and skills – is in fact the capital of the New Class.
What does the New Class want? Gouldner is specific: more money and more power. ‘The New Class’, he says, ‘believes its high culture represents the greatest achievment of the human race, the deepest ancient wisdom and the most advanced modern scientific knowledge. It believes that these contribute to the welfare and whealth of the race, and they should reveive correspondingly greater rewards.’
He goes on: ‘The New Class believes that the world should be governed by those possessing superior competence, wisdom and science – that is, themselves. The Platonic Complex, the dream of the philosopher king with which western philosophy begins, is the depest wish-fulfilling fantasy of the New Class. But they look around and see that the men who employ them do not begin to understand the simpliest aspect of their techinical epecialities, and the politicians who rule them are, in Edmund Wilson’s words, unique having mannaged to be corrupt, uncultivated all at once.
Have they these secular priests and treasonous clerks, some desadvantages? Yes. They are divided into two camps; the intellectuals, who are roamantic moralists, predisposed to utopianisnm, and the tecnical intelligentsia, who are amoral puzlle solvers and mnagement types. The intellectuals go on about what is ‘good’, the technical inteligentsia want to be left alone. And the fact they are all elitists and careerists makes them hather unsymoathetic to the rest of us, who must muddle along in our own inferiority complexes.”
Não li o livro de Gouldner, apenas a recensão da qual transcrevi os trechos acima. Essa conduta do intelectual em face da sociedade, decorre da contradição pessoal entre a sua vida burguesa e a inevitável condição do trabalhador assalariado, embora “não integrado ao modo de produção capitalista.”
No avançado estágio de progresso técnico e científico atingido pelos EUA, os intelectuais, vencido o antagonismo que se revela em indivíduos isolados, têm um papel fundamental no processo de desenvolvimento da luta para o socialismo, na linha de frente da classe operária. Assim Marshall Berman, Edmund Wilson, John dos Passos e tantos corajosos humanistas americanos.
Luckács afirma que “quanto mais complexos e complicados são os problemas, tanto maior é o papel que a literatura deve desenvolver na evolução social, na preparação ideológica das grandes crises.
7
Realizo-me literariamente redigindo estas notas. Impressões de leituras que não fazem de mim um crítico. Escrevo poesia e prosa. Faltam-me a força criadora do artista e os conhecimentos teóricos do crítico. Insisto, não desisto. O que fazer?
Houve um tempo na minha vida, dedicado à leitura. Uma espécie de fuga do meu mundo, que o achava prosaico demais, perdido na obssessão dos grandes dramas, como se estes somente existissem na ficção literária.
Quase nunca me satisfaz o que escrevo. Relido e texto surpreende-me a deficiência no uso da língua: repetição de palavras, dúvidas relativas à gramática.
No plano das idéias e da criação, receio sempre estar repetindo coisas alheias, decalque de apressadas leituras, ou identidade de pensamento com escritores consagrados e preferidos.

Prosa Caótica II, Cad 3, 1988/1990


1

Um vento solto açoita a catinga. A expressão “vento solto” é usada pelos sertanejos para o vento que sopra na seca. É um vento forte e sem direção certa, quase sem interrupção, apenas abrandando, rodopiando em redemoinhos, inesperadamente, nas horas quentes. Às vezes entra casa à dentro o hálito de fornalha batendo portas e janelas. Vem do inferno, dizem.

Terminado o inverno, dedicam-se todos à colheita, todos têm para comer o produto das roças, mas persiste a preocupação com os preços do que necessitam comprar na cidade: querosene, sal, sabão, roupas ordinárias, minúsculas redes. Precisam também de trabalho, de um ganho extra, uma diária para atenuar a miséria.

Passei os festejos de São João na cidade. Voltei para a fazenda no São Pedro. O administrador fez uma fogueira votiva em frente à minha casa, e trouxe milho verde para assar com a palha, como é o costume. Moradores da vizinhança chegaram para conversar. Participei de um jogo de sueca que organizei, pela impossibilidade de sustentarmos um diálogo qualquer. As pessoas da cidade, com nível médio de renda e de cultura, sentir-se-ão isoladas neste mundo como ele é.
Sem outro atrativo para a data festiva, as crianças pediram a presença de um adulto para “contar histórias”. Trata-se de um costume antigo, referenciado por Câmara Cascudo, e que, no meu entendimento, carrega todo o peso de um sonho de libertação. Não foi possível atender-lhes o hábito guardado na memória, eventual e esporadicamente estimulada. Desapareceram no Nordeste onde vivo os contadores de história.
2
Durante o período – quase noventa dias – em que parei a redação destas notas, refleti sobre a minha atividade de caracterizado amadorismo literário, traduzido não somente no ato de escrever, mas na discussão e abordagem de temas que o pro-fissionalismo – alienado embora – oferece com atrativos pseudocientíficos, calcados em estudos sistemáticos. A minha prosa ressente-se de leituras apressadas da adolescência, e perde-se em reminiscências que a memória faculta desordenadamente. Mesmo assim, longe de constituir-se em exemplo, esgota-se desatualizada.
3
Houve uma época em que os escritores brasileiros eram lidos quase exclusivamente pelos confrades. A obra literária era facilmente aceita e elogiada, pela necessidade do retorno do elogio, da distribuição de premiações, como esclarece Nelson W. Sodré no seu EM DEFESA DA CULTURA.
O desenvolvimento das relações capitalistas e industriais refletiu na atividade literária, o varejo da obra de encomenda, desligada da evolução cultural do país. Se hoje temos um público leitor já formado, este é muitas vezes obrigado a consumir best-sellers duvidosos, pela divulgação e pelo preço acessível, e que nada têm com a vida brasileira. Existe, é verdade, uma escassa publicação de autores nacionais e estrangeiros, em literatura e ciência e vendidos a preços proibitivos, perdidos nas bibliotecas de algumas instituições, quase inacessíveis nas li-vrarias.
Defende-se a classe dirigente. O conteúdo revolucionário da arte literária e das ciências, como partes da teoria geral do conhecimento, refletindo a realidade dialética do desenvolvimento da sociedade e da natureza, constituem uma permanente ameaça à sonhada imutabilidade de estruturas de-cadentes, dos privilégios burgueses. Outro aspecto a destacar na posição dos intelectuais com a eficiência socialista e as crises capitalistas é a especialização mesquinha, patrocinada. Assim os trabalhadores intelectuais, fechados em círculos estreitos, pro-duzem uma caricatura de arte, cumprem impo-sições burocráticas e de mercado. Modismos são confundidos com novas formas literárias, fruto aleatório do desenvolvimento cultural.
4
A propriedade e suas exigências começaram a tomar o meu tempo. No longo intervalo entre estas anotações e as que reuni em outro caderno, desviei-me do meu projeto de leituras. As coisas na fazenda não andam mal, porém, o administrador, para agir como outros o fazem, costuma procurar-me para dar conta de serviços contratados, colheita, estado do rebanho. Nada que produza consideráveis rendimentos financeiros. Vivo de uma aposentadoria no serviço público e procuro tornar-lhes a vida menos pesada. Recebo-o com poucas palavras, sem muito interesse, pois sei que tudo está a contento. Ele tenta mostrar o seu desempenho para assegurar a boa situação que desfruta em relação aos demais. Sou tomado de profunda emoção diante de sua figura rude, os gestos acanhados, submisso.
Pesa na consciência do trabalhador rural nordestino o desamparo ancestral, a indefesa condição de servo de gleba, a distinção marginal em face da lei, o que é uma dura realidade. Vive a vida possível, vislumbrando apenas em rápidas reflexões, as mudanças que poderão acontecer. Sabe da existência de sindicatos de trabalhadores, de direitos assegurados, mas pouco reclama.
Defende-se da grosseira exploração na contratação de empreitadas, esperando que um erro na avaliação da tarefa, lhe dê condições de melhor remuneração pelo trabalho duramente executado. Vejo na preferência pelo contrato de empreitada, uma forma do trabalhador esquivar-se à exploração permanente, que o submete à condições indiscutíveis. Assim eles entendem, tenho certeza.
No ambiente adormecido da fazenda começo a sentir-me isolado. Percebo que me olham penalizados com a minha solidão. Extraordinárias criaturas que do fundo de uma vida miserável, arrancam ainda do íntimo um sentimento de compassiva solidariedade.
5
Fiz algumas viagens à Sousa e terminei envolvido nos assuntos da política local. Participei de reuniões para escolha de candidatos nas eleições de novembro. Não quero retornar à vida passada. Velhos amigos que me ajudaram, necessitam agora da minha experiência na política partidária, do apoio para os seus candidatos. Não consigo furta-me aos apelos. As questões locais e as atividades na fazenda têm muita força, a esta altura da vida, dedicada quase inteiramente à luta pelo poder e pelo dinheiro.
6
Sobre a política e a administração pública, alguns trechos de um comentário sobre um livro atual, ainda não publicado em tradução no Brasil. Li-o no INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE (1982), a bordo de um Jumbo da Air France, entre Paris e Roma, lembrando o que fazia o conterrâneo Assis Chateaubriand. Na impossibilidade de uma tradução “literária”, sem outras pretensões, vai o texto original:
THE FUTURE OF INTELECTUALS AND THE RISE OF THE NEW CLASS, by Alwin W. Gouldner, reviewed by John Leonard.
“What is the ‘New Class’ that is taking over? Acoarding to A.W.G., Max Weber Professor of Social Theory at Washington University in St. Louis, the New Class consists of scientists, educators, managers, comunicators, publicity agents, maybe literary critics and other ‘professionals’ whose business it is to run culture. Culture – knowledge and skills – is in fact the capital of the New Class.
What does the New Class want? Gouldner is specific: more money and more power. ‘The New Class’, he says, ‘believes its high culture represents the greatest achievment of the human race, the deepest ancient wisdom and the most advanced modern scientific knowledge. It believes that these contribute to the welfare and whealth of the race, and they should reveive correspondingly greater rewards.’
He goes on: ‘The New Class believes that the world should be governed by those possessing superior competence, wisdom and science – that is, themselves. The Platonic Complex, the dream of the philosopher king with which western philosophy begins, is the depest wish-fulfilling fantasy of the New Class. But they look around and see that the men who employ them do not begin to understand the simpliest aspect of their techinical epecialities, and the politicians who rule them are, in Edmund Wilson’s words, unique having mannaged to be corrupt, uncultivated all at once.
Have they these secular priests and treasonous clerks, some desadvantages? Yes. They are divided into two camps; the intellectuals, who are roamantic moralists, predisposed to utopianisnm, and the tecnical intelligentsia, who are amoral puzlle solvers and mnagement types. The intellectuals go on about what is ‘good’, the technical inteligentsia want to be left alone. And the fact they are all elitists and careerists makes them hather unsymoathetic to the rest of us, who must muddle along in our own inferiority complexes.”
Não li o livro de Gouldner, apenas a recensão da qual transcrevi os trechos acima. Essa conduta do intelectual em face da sociedade, decorre da contradição pessoal entre a sua vida burguesa e a inevitável condição do trabalhador assalariado, embora “não integrado ao modo de produção capitalista.”
No avançado estágio de progresso técnico e científico atingido pelos EUA, os intelec-tuais, vencido o antagonismo que se revela em indivíduos isolados, têm um papel fundamental no processo de desenvolvimento da luta para o socialismo, na linha de frente da classe operária. Assim Marshall Berman, Edmund Wilson, John dos Passos e tantos corajosos humanistas ame-ricanos.
Luckács afirma que “quanto mais complexos e complicados são os problemas, tanto maior é o papel que a literatura deve desenvolver na evolução social, na preparação ideológica das grandes crises.
7
Realizo-me literariamente redigindo estas notas. Impressões de leituras que não fazem de mim um crítico. Escrevo poesia e prosa. Faltam-me a força criadora do artista e os conhecimentos teóricos do crítico. Insisto, não desisto. O que fazer?
Houve um tempo na minha vida, dedicado à leitura. Uma espécie de fuga do meu mundo, que o achava prosaico demais, perdido na obssessão dos grandes dramas, como se estes somente existissem na ficção lirterária.
 Quase nunca me satisfaz o que escrevo. Relido e texto surpreende-me a deficiência no uso da língua: repetição de palavras, dúvidas relativas à gramática.
No plano das ideias e da criação, receio sempre estar repetindo coisas alheias, decalque de apressadas leituras, ou identidade de pensamento com escritores consagrados e preferidos.