domingo, 6 de fevereiro de 2011

Prosa Caótica II, Cad 3, 1988/1990


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Um vento solto açoita a catinga. A expressão “vento solto” é usada pelos sertanejos para o vento que sopra na seca. É um vento forte e sem direção certa, quase sem interrupção, apenas abrandando, rodopiando em redemoinhos, inesperadamente, nas horas quentes. Às vezes entra casa à dentro o hálito de fornalha batendo portas e janelas. Vem do inferno, dizem.

Terminado o inverno, dedicam-se todos à colheita, todos têm para comer o produto das roças, mas persiste a preocupação com os preços do que necessitam comprar na cidade: querosene, sal, sabão, roupas ordinárias, minúsculas redes. Precisam também de trabalho, de um ganho extra, uma diária para atenuar a miséria.

Passei os festejos de São João na cidade. Voltei para a fazenda no São Pedro. O administrador fez uma fogueira votiva em frente à minha casa, e trouxe milho verde para assar com a palha, como é o costume. Moradores da vizinhança chegaram para conversar. Participei de um jogo de sueca que organizei, pela impossibilidade de sustentarmos um diálogo qualquer. As pessoas da cidade, com nível médio de renda e de cultura, sentir-se-ão isoladas neste mundo como ele é.
Sem outro atrativo para a data festiva, as crianças pediram a presença de um adulto para “contar histórias”. Trata-se de um costume antigo, referenciado por Câmara Cascudo, e que, no meu entendimento, carrega todo o peso de um sonho de libertação. Não foi possível atender-lhes o hábito guardado na memória, eventual e esporadicamente estimulada. Desapareceram no Nordeste onde vivo os contadores de história.
2
Durante o período – quase noventa dias – em que parei a redação destas notas, refleti sobre a minha atividade de caracterizado amadorismo literário, traduzido não somente no ato de escrever, mas na discussão e abordagem de temas que o pro-fissionalismo – alienado embora – oferece com atrativos pseudocientíficos, calcados em estudos sistemáticos. A minha prosa ressente-se de leituras apressadas da adolescência, e perde-se em reminiscências que a memória faculta desordenadamente. Mesmo assim, longe de constituir-se em exemplo, esgota-se desatualizada.
3
Houve uma época em que os escritores brasileiros eram lidos quase exclusivamente pelos confrades. A obra literária era facilmente aceita e elogiada, pela necessidade do retorno do elogio, da distribuição de premiações, como esclarece Nelson W. Sodré no seu EM DEFESA DA CULTURA.
O desenvolvimento das relações capitalistas e industriais refletiu na atividade literária, o varejo da obra de encomenda, desligada da evolução cultural do país. Se hoje temos um público leitor já formado, este é muitas vezes obrigado a consumir best-sellers duvidosos, pela divulgação e pelo preço acessível, e que nada têm com a vida brasileira. Existe, é verdade, uma escassa publicação de autores nacionais e estrangeiros, em literatura e ciência e vendidos a preços proibitivos, perdidos nas bibliotecas de algumas instituições, quase inacessíveis nas li-vrarias.
Defende-se a classe dirigente. O conteúdo revolucionário da arte literária e das ciências, como partes da teoria geral do conhecimento, refletindo a realidade dialética do desenvolvimento da sociedade e da natureza, constituem uma permanente ameaça à sonhada imutabilidade de estruturas de-cadentes, dos privilégios burgueses. Outro aspecto a destacar na posição dos intelectuais com a eficiência socialista e as crises capitalistas é a especialização mesquinha, patrocinada. Assim os trabalhadores intelectuais, fechados em círculos estreitos, pro-duzem uma caricatura de arte, cumprem impo-sições burocráticas e de mercado. Modismos são confundidos com novas formas literárias, fruto aleatório do desenvolvimento cultural.
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A propriedade e suas exigências começaram a tomar o meu tempo. No longo intervalo entre estas anotações e as que reuni em outro caderno, desviei-me do meu projeto de leituras. As coisas na fazenda não andam mal, porém, o administrador, para agir como outros o fazem, costuma procurar-me para dar conta de serviços contratados, colheita, estado do rebanho. Nada que produza consideráveis rendimentos financeiros. Vivo de uma aposentadoria no serviço público e procuro tornar-lhes a vida menos pesada. Recebo-o com poucas palavras, sem muito interesse, pois sei que tudo está a contento. Ele tenta mostrar o seu desempenho para assegurar a boa situação que desfruta em relação aos demais. Sou tomado de profunda emoção diante de sua figura rude, os gestos acanhados, submisso.
Pesa na consciência do trabalhador rural nordestino o desamparo ancestral, a indefesa condição de servo de gleba, a distinção marginal em face da lei, o que é uma dura realidade. Vive a vida possível, vislumbrando apenas em rápidas reflexões, as mudanças que poderão acontecer. Sabe da existência de sindicatos de trabalhadores, de direitos assegurados, mas pouco reclama.
Defende-se da grosseira exploração na contratação de empreitadas, esperando que um erro na avaliação da tarefa, lhe dê condições de melhor remuneração pelo trabalho duramente executado. Vejo na preferência pelo contrato de empreitada, uma forma do trabalhador esquivar-se à exploração permanente, que o submete à condições indiscutíveis. Assim eles entendem, tenho certeza.
No ambiente adormecido da fazenda começo a sentir-me isolado. Percebo que me olham penalizados com a minha solidão. Extraordinárias criaturas que do fundo de uma vida miserável, arrancam ainda do íntimo um sentimento de compassiva solidariedade.
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Fiz algumas viagens à Sousa e terminei envolvido nos assuntos da política local. Participei de reuniões para escolha de candidatos nas eleições de novembro. Não quero retornar à vida passada. Velhos amigos que me ajudaram, necessitam agora da minha experiência na política partidária, do apoio para os seus candidatos. Não consigo furta-me aos apelos. As questões locais e as atividades na fazenda têm muita força, a esta altura da vida, dedicada quase inteiramente à luta pelo poder e pelo dinheiro.
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Sobre a política e a administração pública, alguns trechos de um comentário sobre um livro atual, ainda não publicado em tradução no Brasil. Li-o no INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE (1982), a bordo de um Jumbo da Air France, entre Paris e Roma, lembrando o que fazia o conterrâneo Assis Chateaubriand. Na impossibilidade de uma tradução “literária”, sem outras pretensões, vai o texto original:
THE FUTURE OF INTELECTUALS AND THE RISE OF THE NEW CLASS, by Alwin W. Gouldner, reviewed by John Leonard.
“What is the ‘New Class’ that is taking over? Acoarding to A.W.G., Max Weber Professor of Social Theory at Washington University in St. Louis, the New Class consists of scientists, educators, managers, comunicators, publicity agents, maybe literary critics and other ‘professionals’ whose business it is to run culture. Culture – knowledge and skills – is in fact the capital of the New Class.
What does the New Class want? Gouldner is specific: more money and more power. ‘The New Class’, he says, ‘believes its high culture represents the greatest achievment of the human race, the deepest ancient wisdom and the most advanced modern scientific knowledge. It believes that these contribute to the welfare and whealth of the race, and they should reveive correspondingly greater rewards.’
He goes on: ‘The New Class believes that the world should be governed by those possessing superior competence, wisdom and science – that is, themselves. The Platonic Complex, the dream of the philosopher king with which western philosophy begins, is the depest wish-fulfilling fantasy of the New Class. But they look around and see that the men who employ them do not begin to understand the simpliest aspect of their techinical epecialities, and the politicians who rule them are, in Edmund Wilson’s words, unique having mannaged to be corrupt, uncultivated all at once.
Have they these secular priests and treasonous clerks, some desadvantages? Yes. They are divided into two camps; the intellectuals, who are roamantic moralists, predisposed to utopianisnm, and the tecnical intelligentsia, who are amoral puzlle solvers and mnagement types. The intellectuals go on about what is ‘good’, the technical inteligentsia want to be left alone. And the fact they are all elitists and careerists makes them hather unsymoathetic to the rest of us, who must muddle along in our own inferiority complexes.”
Não li o livro de Gouldner, apenas a recensão da qual transcrevi os trechos acima. Essa conduta do intelectual em face da sociedade, decorre da contradição pessoal entre a sua vida burguesa e a inevitável condição do trabalhador assalariado, embora “não integrado ao modo de produção capitalista.”
No avançado estágio de progresso técnico e científico atingido pelos EUA, os intelec-tuais, vencido o antagonismo que se revela em indivíduos isolados, têm um papel fundamental no processo de desenvolvimento da luta para o socialismo, na linha de frente da classe operária. Assim Marshall Berman, Edmund Wilson, John dos Passos e tantos corajosos humanistas ame-ricanos.
Luckács afirma que “quanto mais complexos e complicados são os problemas, tanto maior é o papel que a literatura deve desenvolver na evolução social, na preparação ideológica das grandes crises.
7
Realizo-me literariamente redigindo estas notas. Impressões de leituras que não fazem de mim um crítico. Escrevo poesia e prosa. Faltam-me a força criadora do artista e os conhecimentos teóricos do crítico. Insisto, não desisto. O que fazer?
Houve um tempo na minha vida, dedicado à leitura. Uma espécie de fuga do meu mundo, que o achava prosaico demais, perdido na obssessão dos grandes dramas, como se estes somente existissem na ficção lirterária.
 Quase nunca me satisfaz o que escrevo. Relido e texto surpreende-me a deficiência no uso da língua: repetição de palavras, dúvidas relativas à gramática.
No plano das ideias e da criação, receio sempre estar repetindo coisas alheias, decalque de apressadas leituras, ou identidade de pensamento com escritores consagrados e preferidos.

sábado, 29 de janeiro de 2011

PROSA CAÓTICA II, CADERNO 2, 1988/2000



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Li em Ascendino Leite aborrecida censura aos escritores brasileiros “maravilhosamente bem postos e bem remunerados, num país livre que já não persegue ninguém por motivos políticos, muito menos os que vivem de assinar manifestos.” (Os Dias Memoráveis).
Modelo de “euismo” como ele próprio qualifica esse defeito do caráter ou da perso-nalidade, AL goza as delícias de altos proventos, merecidos reconheço-o, conquistados sem o risco de assinar manifestos contestatórios. O que não condiz, certamente, com a sua formação política e intelectual.
Reclama ainda o autor de o SALTO MORTAL, o minguado espaço oferecido pela im-prensa brasileira para denunciar “as atrocidades soviéticas contra os direitos humanos.”
Militante no jornalismo brasileiro, Ascendino Leite sabe que não é bem assim, como ele declara no seu jornal literário. Neste “país livre que já não persegue ninguém”, temos assegurado o privilégio de poder ignorar que não existe tortura maior do que a fome, o desamparo da lei, forja-dores da violência.
No Nordeste vivem milhões de torturados brasileiros, neste “país livre”, nas condições que ele testemunhou e viveu. Mas para ele, essa história de brasileiro sem casa e sem comida na Cidade Maravilhosa, nas belas tardes de São Pedro, onde ele escreve o seu jornal blasé, deve ser propaganda antigoverno do comunista Ferreira Gullar. Nesta ordem de raciocínio, o meu parente Ascendino também deve achar que o povo passa fome por preguiça, ou por capricho, pois se não tem feijão para comer, churrasco de carne de boi e tortas de chocolate seria uma opção melhor.
Uma Maria Antonieta de caderno e lápis na mão pensaria assim, rabiscaria sentimentos puerís, verdades duvidosas, num diário de intimidades socialmente indecentes. Ele mesmo o reconhece no seu jornal, quando fala da “escassa validade social da literatura de intimidades.”
A diferença entre Ascendino Leite e Callado, Drummond, Barbosa Lima Sobrinho, Montello, Houais e Gullar (que ele abomina até o nome), é que estes patriotas são capazes de se comover com a miséria, a pobreza, e de lutar contra esses males que têm origem na estrutura iníqua da sociedade brasileira.
Os ossos de Mário de Andrade, acre-dito, estalaram no túmulo com os ecos da “san-tificação” de Euclides da Cunha, pretendida por Ascendino, para quem, o Nordeste existe apenas como entidade mítico-literária. Eis o mal apontado pelo criador de Macunaíma: a falsificação, o desvio da conotação puramente socialista de OS SERTÕES, transformado em página de antologia e belas letras. Uma grosseira traição.
Deixo uma recomendação ao leitor eventual (os literatos de profissão sabem como fazê-lo) do famoso livro: comece pela “Nota Pre-liminar” onde ele escreveu: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi na significação integral da palavra um crime. Denunciemo-lo.” E no final do livro, objurgando comentaristas especiosos, em “Notas do Autor I assevera: “Não tive o intuíto de defender os sertanejos porque este livro não é um livro de defesa; é, infelismente, de ataque.”

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Numa página de Huxley encontrei uma categoria de indivíduos na qual incluo o autor de A VIUVA BRANCA. Trata-se daquelas pessoas que, por circunstâncias favoráveis “de ordem inte-lectual, econômica, psicológica e biográfica... para elas as instituições existem como uma espécie de armação sólida, sobre a qual podem executar quaisquer ginásticas que queiram. A rigidez da sociedade como um todo torna possível, a esses privilegiados, transpor os limites morais e intelectuais sem risco algum. Nenhuma culpa se lhes pode inquinar.” (SEM OLHOS EM GAZA. Grifei).
ARS GRATIA ARTIS.
Não condeno de forma irrecorrível a escrita escapista do mestre Ascendino Leite. O que não aceito é a sua consciente intolerância. A sua compreensão acomodada das tarefas próprias do intelectual, do homem de letras em face do seu povo e do seu país. Da sua literatura, diria melhor.
Atrái-me, entretanto, a sua literatura. A qualidade do estilo, o poder de divagação, a ilu-minação de sua vida interior despertam-me a curiosidade. Encontro-me nele em ocasiões de relaxamento e preguiça, gozo certo prazer. Em suma, um documento exemplar e agradável para o conhecimento de fatos de sua vida, e de fases da vida literária do país, do ponto de vista de um publicista católico, como o classificariam com autoridade.     

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De uma carta de Ezra Pound ao poeta Williams Carlos Williams:
“Eliot, no banco ganha £ 500. Muito cansado para escrever teve uma depressão; durante a convalescença na Suiça escreveu WASTE LAND, uma obra prima; uma das mais importantes 19 páginas de língua inglesa. Voltou ao banco e está de novo em pedaços, fisicamente.”
Certa categoria de intelectuais recusa o seu sepultamento nos escombros da classe média. A sua condição de trabalhador humilha-o, e o oferece no holocausto dos pequeno-burgueses aviltados. Somente a consciência de classe incorpora o homem plenamente à história. Vale para o trabalhador e para o detentor do capital.
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                    Continuo sem uma definição na escritura destas notas. Resta a alegria de colher, ao longo das folhas datilografadas, algo que represente um sentimento verdadeiro, uma preocupação socialmente relevante. Fatos comuns, a superfície dos acontecimentos, deixando de lado a arquitetura típica, contraditória da sociedade, ocupam estas páginas. A dificuldade para a reflexão, para a ação solidária e responsável.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

PROSA CAÓTICA II, CADERNO 2, 1988/2000

PROSA CAÓTICA II – Caderno 2, 1988/2000

1
Ao nascer do sol, já estou de pé. Deito-me cedo e entrego-me aos pensamentos, sozinho no alpendre. Ventos fortes, pingos de chuva ou o avançado da hora empurram-me para dentro de casa.
Gosto de ficar em silêncio, espreitando o espetáculo da natureza, como se receasse interromper o desenrolar das cenas noturnas.
Gira o universo. Estrelas aparecem e desaparecem no céu. A Via Láctea no infinito encantamento de suas lendas desenha-se num fundo negro, profundo. Relâmpagos iluminam o nascente, ronca o trovão. O gado fica imobilizado esperando a chuva para começar a andar numa forma de resistência e adaptação ao belo e incomparável fenômeno natural da tempestade.
A chuva vem montada no vento, que escouceia, sopra com violência. “O vento é o cavalo da chuva”, ensina a retórica sertaneja.
Ao amanhecer, os pássaros cantam todos de uma vez. Destacam-se as modulações do sabiá, do galo de campina. Vozes harmoniosas no meio do alarido. Luz e sombras. As matas reverdecidas depois da longa letargia da seca.
Avisto trabalhadores vindos de suas casas distantes, dirigindo-se para a jornada nas roças. Homens e mulheres, velhos e crianças, em alegres discussões e desafios. A perspectiva de colheita, a superação das dietas forçadas desanuvia-lhes as feições duras como pedras.
Mesmo sabendo que lhes é negado o produto do seu trabalho, retesam os músculos como condenados, o suor pingando do rosto, fazendo manchas escuras nos sovacos, nas costas.
2
Releitura do que venho escrevendo há alguns dias, sem regularidade. Nada além de simples exercício que me impus, de um gesto filho do ócio. O trivial sem estilo.
Lembro de uma página de Huxley. Anotações de um caderno do intelectual Antony Beavis. A lógica do raciocínio de uma mente poderosa. E eu com os meus pobres escritos, sem leitores, rabiscando para mim mesmo.
É uma longa transcrição, mas vale como exercício de memória e autocrítica.
“Acton quis escrever a História do Homem em termos de uma História da Idéia de Liberdade. Mas não se pode escrever uma História da Idéia de Liberdade, sem ao mesmo tempo, escrever uma História do Fato da Escravização.”
“Nas suas sucessivas tentativas de conceber a Ídéia de liberdade, o homem está constantemente trocando uma forma de escravização por outra.”
“A Escravização primitiva é a escravização ao estômago e à estação adversa. Escravização à natureza, numa palavra. A fuga à natureza se consegue pela organização social e pela invenção técnica. Numa cidade moderna é possível esquecer que existe esta coisa chamada natureza – particularmente a natureza em seus aspectos mais inumanos e hostis. Metade da população da Europa vive no universo forjado por ela mesma.”
“Suprimamos a escravização à natureza e surge imediatamente outra forma de escravização. A escravização às instituições. Instituições ju-rídicas, religiosas, militares, econômicas, educacionais, artísticas e científicas.”
“Toda história moderna é uma História da Idéia de nos libertarmos das Instituições. E é igualmente a História do Fato da Escravização às Instituições. É porque se procura por em prática a Idéia de Liberdade que as Instituições se trans-formam.”
3
Herdei do meu pai o espírito boêmio, dessa boemia livresca com certa dose de álcool. E a tendência ocasional para o isolamento, a introspecção. O dinheiro para mim não tem importância além do que se fizer necessário para despesas indispensáveis e modestas.
A avareza, a usura – um veneno da alma.                                                 
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1 - ...estrelas vegetais...Pasto espacial de melancólicos bois...(?).  
Thiago de Melo mora em Paris com Simeão Estilita.
 Preferiu a Torre Eiffel às palafitas de Manaus.
2 - Distribuindo sorrisos.
Como o trapezista.
Voando perigosamente sobre o picadeiro.
O falso artista. Assim ganha dinheiro.

        Há pessoas que se realizam no sofrimento, na distância das coisas, dos seres queridos. Descobrem a pobreza do seu mundo desfrutando da riqueza de outros. Um caso para o divã do psicanalista. Ou para o julgamento da história.
5.........
Estas anotações perdem o sentido de um relatório de fatos, como imaginei. Reproduzem no nível de minhas preocupações, o problema capital da vida espiritual da sociedade. Indagação a que Marx respondeu com um axioma: “Não é a consciência do homem que determina a sua existência. É, pelo contrário, a sua experiência social que determina a sua consciência.”
Uma história da idéia...
Antony Beavis percebeu claramente o processo de desenvolvimento, de mudanças quali-tativas que se operam na sociedade. É uma história do real. O motor está na base, na prática determinadora das instituições.
Querer provar o contrário, ou opor particularizações metafísicas, é como aplicar um “raciocínio lógico a uma situação não existente criada por uma idéia fixa ou uma alucinação.”
A literatura nos estudos linguísticos e estruturalistas – um desvario, uma idéia fixa, uma condenação da lógica dialética. Reflexo das situações sociais, ao mesmo tempo que expressão estilística do espírito objetivo, autônomo, assim o mestre Carpeaux vê a literatura.
Forma e conteúdo na sua complementaridade.
As dimensões sintagmáticas e paradigmáticas da literatura, fundadas no conceito de sobredeterminação de certa formação do inconsciente, como o sonho, não passa de piada, de  miragem no direcionamento dos estudos freudianios.
6
Em Sousa, encontro entre os nossos, indecisão para escolha do candidato a prefeito, causada pela prolongada ausência de Antônio Mariz. Preso a compromissos de trabalho na Assembléia Nacional Constituinte, ele pouco tem aparecido.
Esse é o papel do líder. Esperam-no para as decisões que deverão nos levar à vitória, para oferecer-lhe mais uma condecoração.
A submissão a um projeto familiar de realização política, prejudicou a luta socialista de Antônio Mariz. Pai, avô, bisavô, tios, primos, foram governadores, deputados, senadores. Esse traço caseiro, a prosápia, refreou-lhe o ímpeto, desviou a linha de sua ação. Mas entre os paraibanos – é preciso que se diga – pelo seu caráter, pelo exemplo dos seus, permanece admirado pelas qualidades morais no trato da coisa pública. Não vejo, atualmente, entre os políticos paraibanos, outro que pudesse arrancar o Estado do caos administrativo, da frouxidão moral em que o enterraram os últimos governos.
Lembro-me de Ernani Sátyro, reacionário “íntegro”, no seu sonho monárquico de uma casa de reis. O lema do seu governo era con-traditório no enunciado: “tradição e renovação.” Tradição pelo que fizeram os seus antepassados, pelo que ele fazia e pelo que certamente o fariam outros com o seu sobrenome. Enfim, a renovação no seu estilo inarredável.
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Quando Marshall McLuhan afirmou que “o artista é detentor do poder de ver com clareza e julgar o meio vigente criado pela mais recente tecnologia”, ensinou-nos que, a arte é instrumento e meio eficiente, como reflexo da realidade, para o conhecimento, e que o artista é um descobridor das características e situações típicas da evolução social.
Os artistas são as antenas da raça. Li essa afirmação, acredito, em Ezra Pound, no seu ABC OF READING.
A prática do intercâmbio cultural pode levar-nos à descoberta e identificação da fonte comum entre as manifestações artísticas em todo o mundo, explicando e desvendando “mistérios” que ainda envolvem o homem.
Apesar das características e peculiaridades de cada povo, a soma dos esforços e conquistas do pensamento humano constitue o elo comum, o patrimônio de toda humanidade. A obra filosófica de Karl Marx e as composições de Haendel, alemães pelo nascimento, sugiram na Inglaterra.

8
Em João Pessoa, para onde viajei no início da semana, apelos da minha vida passada. Nada, entretanto que me integre fundo nas preocupações de outras épocas. Encontrei pessoas de antiga convivência, a começar pelos meus filhos e minha ex-mulher. Outras, curiosas sobre a vida que estou levando, procurando envolver-me nas suas pretensões junto à administração estadual, insinuam o meu retorno à capital, numa solicitude ocasional e fingida.
Não sou prisioneiro senão de mim mesmo. Impossível, portanto, a frouxa tentativa de resgate. Estive com o governador (Tarcísio Buriti) e lhe fiz entrega do meu livro A FACE DO TEMPO, que começarei a distribuir com as livrarias e com os amigos, que já se mostravam impacientes e desesperançados com o meu ingresso no mundo das letras – publicar um livro.
A visita foi improvisada. Tive de acompanhar um vereador amigo, para testemunhar reclamações de desprestígio na área de sua atuação. Coisas da velha política que ainda não posso evitar – dever de solidariedade a amigos do passado, que ainda acreditam em influência que não tenho.
Evito sempre que posso, encontros no esquema do governo, para não confundirem a minha presença eventual e forçada, com intenções que não tenho: “ser visto para ser lembrado”.
Notei que o meu comparecimento inesperado à audiência deixou o governador preocupado. Com certeza, receio de um pedido pessoal, ou desejo de uma vingança como do seu estilo. Como deputado, fiz-lhe oposição durante o seu primeiro governo e as feridas, estou certo, ainda não cicatrizaram. Falou-me sem entusiasmo, de um novo projeto de utilização do “Espaço Cultural”, que aplaudi sinceramente. Não sei se o movimento, e se os programas de cultura são modestos para a gigantesca estrutura da Fundação José Lins do Rêgo, ou se a sua direção não tem tido um bom desempenho. O fato é que a extraordinária praça com seus equipamentos, não apresenta um trabalho condizente com as suas potencialidades.
No ônibus, de volta para Sousa, para a fazenda, pensamentos indefinidos. Ocorre-me o verso de Drummond: “No elevador penso na roça / Na roça penso no elevador.”

9
“Ninguém pode abrir sozinho o seu túnel pessoal para a claridade do dia sem o risco de morrer sob os entulhos.”
Esta reflexão de Aníbal Machado, encontrei-a no jornal de Ascendino Leite. Ele se compraz em pensamentos como este, em temores secretos, que o fazer literário revela.