segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

PROSA CAÓTICA II, CADERNO 1, 1985/2000

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Ameno e alegre estava o tempo em pleno inverno. Fiz anotações neste caderno e separei livros para leitura, para consulta. A necessidade do reestudo de idéias antigas, informações perdidas na memória.
Em descuidado relaxamento na rede, os pensamentos buscando fatos agradáveis da minha vida passada, escutei ao longe o alarido. Como bramem no pasto as ovelhas acossadas por cachorros famintos, estrugiram os berros, os latidos, o tropel.
Saí para ver, temendo prejuízos no rebanho. Numa clareira na catinga, os filhos dos moradores brincavam agachados, andavam-de-quatro, imitavam os bichos, mergulhados no capim, numa tropelia costumeira. Uma simulação perfeita, real para os ouvidos.
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Ao sentar-me à máquina para escrever, pergunto-me mais uma vez: “Qual o sentido destas anotações? Serão publicadas, lidas algum dia?”
Não se trata de um diálogo com os livros, de um monólogo entediado. Esforçar-me-ei para que sejam conhecidas, apesar da ausência nelas de exemplaridade. Empenho-me, todavia, em oferecer estas manifestações do meu espírito, como fonte de idéias minhas e de outros, aproveitáveis de algum modo.
Lembro-me de Virgínius da Gama e Melo no seu amor à literatura. Dedicou a sua vida não somente à realização da sua obra de escritor, mas em criar, igualmente, condições para que outros o fizessem.
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A sua concepção da vida e da arte é a de que tudo se realiza num mundo miserável, onde a condição humana periclita, reduz-se a de um “piolho, de um carrapato-chupa-sangue e pardo, errante entre os pêlos da onça.” Esta evidência do seu pessimismo diante da vida, em face do mundo que é re-presentado na figura de uma onça que via desfazer-se “em pó, em cinza, em sarna, o que ainda lhe restava de sua vida demente e sem grandeza”, é revelada por Quaderna que vê os homens como uma raça piolhosa, “raça também sarnenta e sem grandeza, coçando-se idiotamente como um bando de macacos diante da ventania crestadora, enquanto espera a morte, à qual está, de véspera condenada.”
A visão de Quaderna – que outra coisa não é, senão a sua cosmovisão – encerra uma revelação trágica entre todas. É quando ele, ao descrever ao Corregedor a aparição sobrenatural, manifesta dolorosamente a sua decepção pela inferioridade e malignidade do que lhe ocorrera, dizendo: “O pior, porém, é que não se tratava nem de uma Onça digna, uma Onça Malhada como aquela que o Profeta Nazário e Pedro Cego tinham visto.”
O Profeta e o Cego são porta-vozes de toda aquela massa de ignorantes e místicos sertanejos, cujos anseios consistem na busca de um mundo justo e melhor, representado na idéia de riqueza e felicidade. Um mundo virtuoso, portanto, cuja pureza é produzida com instinto plástico espontâneo na bela figura da Onça Malhada, que tem nos olhos pedras preciosas, é fértil, cantadeira, propõe-se a tornar felizes os que nela acreditarem.
A visão de Quaderna é deformada, deformação que o entristece e desespera cada vez mais, ao compreender a decadência inelutável da estrutura que o originou, jogando-o à mercê de um sebastianismo inconsequente e criminoso. Todos os sonhos “monárquicos-de-esquerda”, fruto de um falso conhecimento da realidade, que povoam o mundo do Poeta-Decifrador-Astrólogo, não resistem à imagem rejeitada da Onça sarnenta e piolhenta.
Acredito haver certa identidade entre minha teses e as observações de Rachel de Queiroz sobre A PEDRA DO REINO. Sem maior esforço as localizamos em comentários da romancista cearense, encontrando na narrativa “reclamos de usurpação”, “Suassuna olha para esse mundo com a visão do exilado, ainda na adolescência arrancado ao seu sertão natal.”

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Sobre Virgínius da Gama e Melo.
A literatura histórica, amplamente exercitada na Paraíba a par de uma historiografia inaugurada por José Octávio de Arruda Melo, inspirado em José Honório Rodrigues e outros ensaístas modernos, indicar-nos-ão claramente, no choque entre perrepistas e liberais, e no episódio do assassinato do poeta e vereador Félix Araújo, o peso histórico, a identificação de pessoas, o envolvimento de famílias, a descrição de lugares onde se desenrolam os acontecimentos das narrativas virginianas.
Virgínius realiza a exploração de um passado politico da Paraíba, ele contemporâneo dos fatos, testemunha e/ou participante, pelo en-volvimento de pessoas que lhe eram caras, pelos laços de família. É um esforço doloroso e cruel, uma autoflagelação que ele pratica na construção de seus romances, sem uma palavra de simpatia pelos atos dos líderes na condução da massa ignorante, sem que constitua objetivo da acão desenvolvida, a eliminação da miséria, da pobreza.
A única reflexão de um personagem com traços intelectualizados que ele permite nos seus dois romances, é a de Carlos Agra, em “A Vítima Geral”, um spengleriano na classificação do próprio autor, que denuncia a decadência física e moral dos homens da região “padecendo de fome crônica, subnutridos. E ainda mais esses políticos irresponsáveis numa agitação que só tem finalidade pessoal.”
O mais é a narrativa crua dos acontecimentos, a descrição fiel de personalidades deformadas, para as quais, a conquista do poder representa a sociedade com o erário, o enriquecimento pessoal. Virgínius parece que deseja a condenação póstuma dos oportunistas e dos impostores, e a execração dos remanescentes daquele mundo viciado, ao recriar as fases de crise e de trans-formação da vida política paraibana. São romances em que a trama se de-senvolve sem influência do autor, pelo caráter estereotipado dos personagens, pelo sentido histórico dos fatos.
Entendo que Virgínius conseguiu superar o dilema de Irving Howe, que duvida “da possibilidade de alguém escrever um romance político, que seja realmente romance, isto é, mais imaginativo que um documento, e menos subjetivo que um panfleto.”
Foi esse o Virgínius que eu conheci e me habituei a admirar, capaz de condenar o exercício de todas as tiranias, quando defendia os artistas e pensadores russos “dissidentes”, e ao mesmo tempo tinha a coragem de afirmar diante dos fatos, que os norte-americanos não eram mais os campeões da democracia e da liberdade.
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O meu amor pelos livros em certa época tornou-se meio fetichista. Adorava-os em brochuras ou na riqueza de encadernações. Mas um livro, sempre. Comprava-os, escolhia lugares apropriados na estante para guardá-los, e ficava durante dias a receber estranhos eflúvios do seu conteúdo desconhecido.
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Freqüento em Sousa um bar-restaurante, para jantar, para beber cerveja com amigos, para “curtir música ao vivo”, como dizem. Escuto as canções nas vozes agradáveis dos cantores, a execução primorosa em ins-trumentos musicais modernos dos ritmos em voga. Habituei-me a ouvir música, popular e erudita, desde a juventude, e, atento aos critérios para aferição dos valores musicais específicos, no meu julgamento, os rapazes que integram a banda são ótimos artistas.
“Quem são? Onde moram?” A pergunta ocorre-me como a um velho sousense que sou. Na minha cidade houve um tempo em que algumas famílias, além da riqueza de posses, reservavam para seus filhos a instrução, o cultivo das artes. Caricatura tórrida, certamente, na identificação de Oliveira Viana, acharia que tal virtuosismo só podia ser obra de um Pordeus, ou de um Gadelha do ramo do Maestro Nicodemos. Assim também na política, na alta burocracia, éramos levados a pensar, pois oportunidades não se ofereciam para o “vulgo vil sem nome” de que falava o poeta fidalgo Luiz de Camões.
“Quem são? Onde moram?” Insitia.
Filhos do povo, pude saber depois. Moram em pequenas casas no centro da cidade, classe-média-baixa, ou nos subúrbios, filhos de traba-lhadores. São artístas, trabalham para viver. Nenhum filho, neto ou bisneto daquelas prendadas familias, para as quais, a música era um ornamento, um destaque especial além do nome.
Fico a pensar em quantos talentos murcharam no passado, vítimas da poderosa discriminação. Não conheci o velho Nicodemos. Conheço seu filho, o excelente músico Nicó, exímio em solar todos os instrumentos que compõem uma banda de música. Esse não deixou descendentes músicos. Um sinal dos tempos.
Os ricos começam mesmo a ser tangidos das ruas e praças onde se aglomera o povão, perfeitamente integrado no ruge-ruge das multidões. Uns se afastam ofuscados, outros comandam o ritual da reunião.


sábado, 8 de janeiro de 2011

PROSA CAÓTICA II, CADERNO 1, 1985/2000

PROSA CAÓTICA II, Caderno 1 /1985/2000
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Para livrar-me do desconforto com os trabalhos na casa, viajei para Sousa. A minha cidade de nascimento continua sua intrépida luta contra o atraso. As ruas cheias de gente, muita atividade comercial. As pessoas isolaram-se mais, em grupos de interesses iguais. Assim se cumprimentam, assim ignoram a presença de estranhos.
Automóveis caros, de modelos novos, exibem o triunfo de fortunas recentes, a estabilidade de alguns, a investida aventureira, a alienação de todos. Afastados do centro da cidade os pobres amontoam-se nos subúrbios, e mendigam, exercem um precário comércio ambulante de bugigangas, per-seguidos, corridos pela indiferença dos demais em relação à sua sorte.
Visitei minha mãe doente, imobilizada há anos por uma trombose. Encontro-a todas as vezes que a vejo, o olhar distante, respondendo com monossílabos às minhas indagações carinhosas e apressadas. Às vezes ela faz perguntas. Quer saber dos outros filhos. Fumante inveterada, a doença colheu-a quando ainda administrava com a eficiência que todos lhe reconheciam, a casa, a família. Meu pai falecera três anos antes.
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Concluídos os serviços na casa. O regime de empreitada, com esforço redobrado dos trabalhadores, possibilitou-lhes uma boa remuneração. Mais um motivo para comentários despeitados. Cuidarei, agora, de organizar a minha pequena estante, os meus papéis, cuja ordem imposta pela empregada, não consigo por enquanto, decifrar.
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Ontem à noite caiu uma grande chuva. Alegria geral com perspectiva de um bom inverno, para os mais otimistas.
Os passarinhos, há meses quase desaparecidos, voltaram como por encanto. Chego a pensar que o canto dos pássaros não é apenas a forma de comunicação entre os de sua espécie, para o agrupamento, a guerra, a re-produção. Algo existe na modulação das horas próprias, como que uma integração com o mundo circundante, um hino à natureza, à vida.
As vozes dos homens primitivos assim devem ter ressoado no desenvolvimento de sua experiência social, do trabalho, até chegar ao signo, à palavra, que o ajudou a dominar a natureza, na designação de objetos e fenômenos. Daí para a abstração, o degrau que o transformou no ser superior na escala animal.
Os poetas dizem que os rios cantam, que as flores sorriem, e advertem contra as trapaças do tordo e a crueldade do mês de abril... aves e estações inexistentes no clima do semiárido nordestino.
A arte é aquela forma de integração, de apropriação do mundo mediante a consciência, o instinto animal, e refletem, como experiência social, no complexo relacionamento dos indivíduos, na sua especificidade, a dialética dos fenômenos do desenvolvimento social.
Estamos, é verdade, bastante afastados das sonoras modulações dos nossos irmãos passarinhos. Tudo, entretanto, submetido a leis.
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As lembranças da mais tenra infância, aí pelos quatro a cinco anos, diluiram-se ao longo de uma juventude marcada pela necessidade. Não aquela pobreza enraizada na família, mas a que se sobrepõe ao fracasso de um dos ramos. A primeira humilha, deixa na personalidade a marca da obstinação, da resistência; a segunda revolta; criam bodes expiatórios, transferem res-ponsalidade e fazem os indivíduos maquinadores de vingança sem-razão, dissi-mulados, calculistas.
Na minha casa, para as refeições havia mesas para adultos e para as crianças, tantas eram as pessoas entre hóspedes, visitantes, costureiras e amigos circunstanciais dos meus pais chegados de última hora. O pessoal da arrumação, da cozinha, desdobrava-se.
Ordens rigorosas não permitiam que as crianças se acercassem de onde os adultos conversavam, a não ser quando eram trazidas para serem exibidas como modelos disso ou daquilo. Quantas vezes fui arrancado dos meus brinquedos com outros de minha idade, levado a contragosto para diálogos absurdos, que só me aborreciam!
De minha mãe, lembro-me nessa época, com vestidos limpos e vistosos, o inseparável cigarro, perfumada, a conversar com modistas, mostrando às visitas os inumeráveis álbuns de fotografias da família. Tratava-me com carinho, o seu caçula, e eu procurava o seu colo para os prantos provocados pelos ferimentos e contusões sofridos em brincadeiras, ou beliscões que me aplicavam os irmãos mais velhos quando incomodados por mim.
Meu pai colocava-me nas suas pernas e acariciava-me, beijava-me, e arrancava-me lágrimas esfregando os pêlos duros de sua barba na minha pele delicada.
Quando fui mandado para a escola, comecei a perceber que mudanças ocorreram na nossa vida sem que eu notasse. Tudo estava sendo medido, controlado. Os meus irmãos mais velhos e também as minhas irmãs, devem ter sentido mais dolorosamente o declínio. Rareavam as visitas. Minha mãe conservava a respeitabilidade de sua origem abastada em Mossoró, família de grandes comerciantes, morando em aristocráticos sobrados que conheci muitos anos depois.
A nossa ascendência em linha reta dos “Leite Ferreira” de Piancó, mandados pela Casa da Torre para colonizar aquele pedaço de sertão, mantendo-se pelas posses e prestígio político, desde o Império, com repre-sentantes na vida política do estado, não nos afetava. A mim, pelo menos.
Morávamos em Sousa, onde meu pai dedicava-se a atividades comerciais, e esta cidade como todo o peso de suas potencialidades, na luta entre os potentados locais, ignorando os nossos tios e avós, deputados e doutores, assistiu à queda da nossa fortuna. Todo nosso patrimônio resumiu-se a uma pequena propriedade rural entregue a arrendatários, a casa onde mo-rávamos, e duas outras, vendidas depois para gastos eventuais.
Meu pai, liquidados os seus negócios, entrou para o serviço público estadual, comportando-se com o seu temperamento expansivo e o seu espírito jovial, a mesma pessoa alegre e digna.
Sobrevivemos como os sousenses e com os sousenses, no clube, na política, na igreja, na feira, na escola.
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Est modus in rebus, sabedoria do velho Horácio.
Com o meu pai aprendi a cercar-me de livros, não para exibir cultura, mas para abrir as portas de outros mundos. Acredito que ele assim procedia, pois não conheço textos de sua lavra. Ficou, todavia, o hábito salutar.
Li muito, sem nenhuma orientação em fases da minha juventude. A literatura começou a me cativar com as páginas descritivas, as historietas infantis dos livros escolares, ainda no curso primário. Surpreendiam-me, que, letras e palavras reunidas pudessem criar paisagens, acontecimentos. Depois vieram os nossos clássicos pré-modernistas: Macedo, Alencar, Castro Alves, Bilac, Euclides, os Azevedo, o romance nordestino entre muitos, que me remetiam para os seus modelos de além-mar.
Numa cidade sem livros, isto é, onde o livro é artigo fora do comércio, circulando apenas as “letras cambiárias”, foi difícil o meu apren-dizado, a minha iniciação literária.
Poesia e prosa de ficção, nacional e estrangeira em tradução, foram as minhas poucas leituras, sem caráter seletivo, debruçado apenas sobre os sentimentos, os dramas, as paixões humanas. O amor e o ódio. A vitória e a derrota. O homem e o seu destino: o seu passado, o seu futuro.
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Tem chovido regularmente, fato digno de registro nesta região, nos meses de janeiro e fevereiro. Os pequenos proprietários rurais, os trabalhadores desassistidos, mas cheios de confiança em Deus, lançaram no solo as sementes que puderam guardar, ou conseguiram através de compra e empréstimo, precários, nesta circunstância.
A despeito da farta propaganda pelo rádio, as anunciadas “sementes selecionadas para distribuição entre os agricultores” não chegaram nos postos do governo. E como tem acontecido tantas vezes, uma praga de lagartas não controlada, destruiu quase toda plantação.
Esperança é o que resta. Em que não consigo entender. A sobrevivência, a vida em condições subhumanas.
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Na mesa DA CRÍTICA E DA NOVA CRÍTICA, de Afrânio Coutinho. A miragem dos Estados Unidos da América. Pena que uma inteligência brasileira tenha sofrido tão lamentável cooptação.
Quanto a Nação investiu no seu cabedal de conhecimentos! Valeria a censura? Poderei ser acusado de radical. Ou de mesquinho, o que seria pior. Afinal de contas, argumento em meu favor, o sangue brasileiro e o norte-americano foram derramados na luta contra o nazismo e o fascismo.
Notórias são as ligações do New Criticism com os “temas principais do fascismo”, desenvolvidos abertamente na The American Review, remontando as origens do “movimento” à agitação “ideologicamente conservadora” dos Southern Agrarians, no Sul dos E.U.A. A afirmação é do crítico Keith Cohen no ensaio inserido por Luís Costa Lima no seu TEORIA DA LITERATURA E SUAS FONTES.
Não desprezo, em absoluto, a especialização dentro dos estudos literários. Ninguém o faria. O que não aceito são os caprichosos exercícios de empatia, o rico e curioso jogo de palavras novas na dissimulação de propósitos velhos, deixando de lado a noção basilar de literatura como fato socialmente condicionado.
O aprendizado, ou melhor, a especialização de Afrânio Coutinho nos E.U.A., no campo da crítica literária, submeteu-o de tal maneira a certos modelos daquele país, que o fez esquecer as palavras portuguesas que corres-pondem a expressões usadas por ele como meaning, close analyses, e vai por aí.
Os culturalistas reacionários defendem a tese do desinteresse, da imparcialidade da arte. Através das formas e conteúdos da arte na sua espe-cificidade, eles precisam saber, evidencia-se o processo dialético do desen-volvimento da sociedade. “O interesse social é o conteúdo da arte”. Isso eles querem negar.
Na divulgação de sua tese, AC defende como estéticos os elementos internos da arte literária, valendo por si, independente do meio, da datação histórica, da sociedade que a produziu ou inspirou, como ele queira.
A abordagem da obra literária pelo método intrínseco, preço-nizado por AC, exclui da apreciação a vida, que é o conteúdo da literatura, e retoma a questão Kantiana da “coisa em si”, inteiramente superada do ponto de vista do desenvolvimento da ciência e da filosofia.
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Leitura no volume VI da HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL, de Otto Maria Carpeaux, de duas páginas sobre Baudelaire:
“Nas vicissitudes póstumas da poesia de Baudelaire é possível acompanhar as deformações, transformações, e transfigurações que a imagem do poeta ‘vase de tristesse, ô grand taciturne’ sofreu nos olhos da posteridade: “do ‘satan d’hôtel garni, un Belzebuth de table d’hôtel, de Brunetiére, até ‘notre Baudelaire’, do católico Fumet.”
“São três imagens diferentes de Baudelaire. Cada uma parece compatível com as duas outras... seria ao mesmo tempo o romântico deses-perado, o boêmio perverso, o pecador arrependido. Baudelaire é em ‘Tableau Parisiens’ o primeiro poeta da grande cidade moderna. Sua teologia do Mal e sua filosofia das ‘correspondences’  entre todas as coisas do Universo são as bases de sua ampliação da poética:  a estética do Feio”.
Registra Carpeaux o caráter precussor na poesia que reflete a obra de Baudelaire, ao nível do que aconteceu no romance e na psicanálise (depois dele) com Zola e Freud. “A poesia de Baudelaire é consciente no máximo grau”, assevera.  Mesmo quando feita para ‘epater le burgeois’.
Nessa leitura, a torturada condição humana é resgatada das sombras. Os versos dos poetas em face do seu mundo burguês, opondo-se a ele, o redimem.
Transcrevi os fragmentos acima, que nos fornecem a paisagem humana e a concepção estética de um poeta e do seu tempo, e também um panorama crítico interpretativo, para compará-lo ao estudo do professor Ramom Jakobson sobre Les Chats, reduzindo à coordernação das proposições da língua, todos aqueles aspectos comentados e que interessam à sociedade e à história.
Vejamos alguns parágrafos do estudo do mestre de Praga:
“O soneto compreende três frases complexas delimitadas por um ponto, a saber: cada um dos dois quartetos e o conjunto dos dois tercetos... as três frases apresentam uma progressão aritmética: 1) um só verbo conjugado (aiment); 2) dois (cherchet, êut pris); 3) três (prennent, sont, etoilent). Por outro lado, cada uma das três frases só tem um único verbo conjugado: 1) qui... sont; 2) s’ils pouvaient; 3) qui semblent.”
“...o sujeito animado não é nunca expresso por um substantivo, mas sim por adjetivos substantivados na primeira linha do soneto (Les amoreux, les savants) e por pronomes pessoais ou relativos nas orações ulteriores... Se, no início do soneto, o sujeito e o objeto participavam igualmente da classe do animado, os dois termos da oração final pertencem à classe do inanimado... Até aqui o poema se nos apareceu formado de sistemas de equivalências que se encaixam uns nos outros, e que oferecem, em seu conjunto, o aspecto de um sistema fechado. Resta-nos abordar em último aspecto, sob o qual o poema aparece como sistema aberto, em progressão dinâmica do começo ao fim.”
Não posso deixar de perguntar: como se sentiriam os autores, vendo assim estudada a sua obra? Acredito que eles indagariam: Qual a significação do trabalho artístico desvinculado do mundo dos fatos sociais? Em que, tal concepção da obra de arte literária (de Jakobson), fixará na história o papel do escritor?
A comunicação tem por objetivo o entendimento, e submeter-se à análise, à compreensão. O estético em literatura restringe-se à comunicação inteligível da experiência humana, à transmissão pelo conteúdo abstrato das palavras, de imagens sensíveis. Não se propõe a obedecer nem criar códigos lingüísticos. Não esqueçamos a lição de Gorski: “a língua é o meio de rea-lização do pensamento.”
O esforço de Roman Jakobson, não auxilia sequer as especulações e estudos gramaticais. Não passa de um mero jogo de palavras, sem importância para o estudo da literatura e da língua na qual o poeta escreveu. Parafraseando Mme. Stael, diria que se trata de um exercício fútil demais para se nivelar à ciência, e complicado demais para o lazer, o divertimento.
Talvez, arauto de novos tempos, com a progressiva invasão da “informática” nos variados campos de atividades do homem, o trabalho jakobsoniano permita computadorizar leituras, e descobrir significações escondidas do perceber humano na obra dos artistas.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

PROSA CAÓTICA II, CADERNO 1, 1985/2000

PROSA CAÓTICA II, Caderno 1, 1985/2000
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Apesar do administrador, faz-se necessária a minha palavra final nos negócios da fazenda. Trabalhadores e vizinhos procuram tirar vantagens de minha pouca experiência, e, em comentários maldosos, minar a autoridade do administrador, ou encarregado. Dá para perceber.
Na estante os livros oferecendo-se. Indefinição de objetivos imediatos. A fazenda não é para mim, fator único de alienação. A literatura, igualmente, não é ocupação insubstituível no mundo dos meus compromissos. Letras e números. Entre os valores humanos, inútil aferir-lhes a preeminência. Como na questão das letras e das armas, mutatis mutandis, no Quixote. Uma questão de escolha.
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Encontrei no meio de papéis guardados há muito tempo, alguns contos e o esboço de um romance. Antigos projetos que abandonei ao longo de mais de vinte anos. A atividade política tomava o meu tempo, transformava-se num projeto de vida. Até a advocacia abandonei. Foi um período de leitura de jornais, infindáveis reuniões, presença anunciada em todos os lugares.
Afastado da militância partidária, diminuídos os seus compromissos, pretendo retomar aqueles projetos literários. Tenho dúvidas se escreverei o romance desejado, pois não consigo movimentar os personagens, elaborar a trama com eficiência. Poemas de circunstâncias, curtos e líricos, contos breves, relatos de pequenos dramas, daí não passará a minha literatura, desconfio. E estas anotações, que tomam no momento, grande parte do meu tempo.
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 “Podemos dizer – escreveu Álvaro Lins – que todos os gêneros de poesia se encontram na Bíblia, o que talvez não impressione muito por se tratar de um livro essencialmente poético. Impressiona muito mais a comprovação de que também contém todas as formas de romance. Nas suas páginas e nos seus episódios serão encontrados o romance regionalista, o naturalista, o psicológico, o introspectivo, o ideológico. A Bíblia não é só um grande poema, mas um conjunto de grandes romances.”
Algumas pessoas de destorcida formação religiosa, acreditam que a Bíblia é um livro dirigido para a morte, quando, na verdade o é para a vida também. A existência de povos e de raças, de famílias e de pessoas nos seus dramas coletivos e pessoais, nos seus problemas mais genéricos ou íntimos, demonstra e difunde. Uma lição de vida, portanto. Explica o homem e a sua praxis.
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Releitura de O EU PROFUNDO E OUTROS EUS, de Fernando Pessoa, e de POESIA, de T. S. Eliot, em tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira.
Estes poetas não morrerão. Poderão desaparecer por certo tempo, mas, serão redescobertos, reestudados sempre. Aliaram á coincidentes concepções poéticas, uma preocupação com a momentânea realidade, o homem, transitoriamente histórico.
A reescritura de textos que realiza Eliot e a multiplicação de planos e visões estéticas de Pessoa e seus heterônimos, constituem um trabalho de “arqueólogo do espírito” do homem, descobrindo o passado, perlustrando o futuro.
A poesia como ciência da alma.
A emoção. Dorme no cérebro, no fundo da consciência esse poderoso sentimento, até que despertado, caracteriza o fazer humano. A arte é profundamente emocional. A leitura dos versos destes dois poetas transmite-nos esta certeza. Mas, igualmente racional e intencional, se atentarmos para o “vanguardismo” técnico presente nas suas obras.
A arte poética não se esgota na renovação formal.
Fernando Pessoa escreveu: “Um poema é a projeção de uma idéia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão somente o meio de que a idéia se serve para se reduzir á palavras.”
Escritura de Eliot: “The only way of expressing emotion in the form of art is by finding an objective correlative; in other words, a set of projects, a situation, a chain of events which shall be the formula of particular emotion.”
Pessoa fala em “emocionalizar o pensamento”, e Eliot assinala “the intensity of the artistic process.”
O tema oferece-se, para uma análise de aproximação da técnica de construção poética entre esses autores.
10
Fui procurado por um morador da fazenda que me pediu trabalho. Eles já não dispõem para comer, de um grão sequer da última colheita. São forçados a comprar caro, nas bodegas, a miserável feira da semana.
– Vou pensar em alguma coisa – disse para confortá-lo, como se a fome pudesse esperar.
Ele baixou a cabeça, aparentemente conformado.
A seca prolongou-se além do previsto. O fornecimento de dinheiro sob forma de adiantamento, no nosso regime de parceria agrícola, depende de invernos regulares, da implantação de roçados para garantia do pagamento.
Criei tarefas eventuais, entre outras, reparo no teto da casa onde moro, para oferecer-lhes oportunidade de ganho, abaixo, contudo, do mínimo legal. É o regime vigente no meio. Apesar de indefensável a minha posição, pago melhor que os demais proprietários vizinhos. Eles já me olham ressentidos e acusam-me de dificultar-lhes o relacionamento com seus trabalhadores. “Ganha fácil do governo. Devia pagar melhor. Nós não temos essa condição.”  Falam ressentidos a meu respeito.

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Os trabalhos na casa começaram pela ala sul por ser mais conveniente pra mim, e mudei-me para o lado norte. Vozes estranhas mudando os meus hábitos. Desconforto. Presenças incômodas.

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O desenvolvimento das ciências e as modernas técnicas estão criando uma nova sociedade. Vivemos um momento de “fratura da história.” A “cartilha” de Stálin, nada tem com a repressão que ele instalou na URSS. Facilita a assimilação de textos de Marx e Engels, capacitando o ativista para o descobrimento das contradições específicas do seu povo e do seu tempo.
Marxista fanático desde a juventude  – acentuam seus biógrafos –, afeito à discussão e à ação política ao lado de Lênin, é também um dos responsáveis pela criação da ética bolchevique, um comportamento que sustentava a imagem do homem e dos costumes dos proletários fundadores do estado soviético.
Melodramático, enérgico e orgulhoso como o retrataram, liderava o partido, chefiava o governo, gostava da companhia de intelectuais e se considerava um deles. Lia e comentava a história, discutia o teatro e o cinema, aprovava a estética do realismo socialista que definia e conceituava: “O artista deve mostrar a vida com veracidade. E se ele mostra nossa vida verdadeira, não pode deixar de mostrá-la avançando para o socialismo. Isso é e será realismo socialista”. Khruchiov o batizou de “o homem de sete faces.” O resultado político, para ele estava em primeiro lugar, como se evidencìou no período ditadura com os processos, as execuções e o terror, censurando e distribuindo edições falsas de jornais.
Parece que os comunistas brasileiros deixaram de lado a leitura dos clássicos, e divulgam novidades européias e norte-americanas de conteúdo revisionista, estimulados por interpretações artificiosas de filósofos de segunda mão.

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Edmund Wilson no seu RUMO À ESTAÇÃO FINLÂNDIA: “Há vários motivos que explicam o reconhecimento insuficiente dado a Marx e Engels como escritores. Sem dúvida, um deles é o fato de que as conclusões a que eles chegaram eram contrárias aos interesses das classes que mais lêem e que fazem as reputações dos escritores. A tendência a boicotar Marx e Engels, que se verifica tanto entre os historiadores literários quanto entre os economistas, constitui uma notável corroboração da teoria marxista da influência da classe sobre a cultura. Porém há outro motivo também. Marx e Engels não acreditavam mais em almejar a glória filosófica ou literária. Acreditavam ter descoberto as alavancas que regulam os processos da sociedade humana, que liberam e canalizam suas forças; e, embora nem Marx nem Engels tivessem talento de orador ou de político, eles tentavam fazer com que suas capacidades intelectuais atuassem o mais diretamente possível na realização de objetivos revolucionários. Estavam tentando fazer que sua prosa se tornasse “funcional”, no sentido em que o termo é empregado em arquitetura, coisa que não ocorrera nem com o jornalismo de Marat nem com a oratória de Danton. Como seus objetivos eram de âmbito internacional, não estavam nem mesmo preocupados com seu lugar na história do pensamento alemão. Assim, Marx escreveu sua resposta a Proudhon em francês; e os escritos de Marx e Engels desse período misturam francês, alemão e inglês, entre artigos de jornal, polêmicas e ma-nifestos que só recentemente foram reunidos pelos russos e publicados na íntegra.”(p. 158)

sábado, 1 de janeiro de 2011

PROSA CAÓTICA II
(TEXTOS POLÍTICOS E LITERÁRIOS)
O DURO RECOMEÇO
1985/ 2007
(jornal)
Prefácio
CADERNO I

(1985/2000)


1

Trinta e um de dezembro de 1985. Não escolhi a data. O último dia do ano nada tem de marcante na decisão, a não ser a determinação inesperada de colocar o papel na máquina de escrever, e começar. A idéia de um balanço de atividades ocorre de imediato, tão acostumados estamos a esse tipo de comportamento, estimulados pela necessidade de ordenamento de nossas vidas. Talvez uma idéia, um projeto antigo.
Aos cinqüenta e três anos sobrou-me tempo, em parte aproveitado, para saber posicionar-me em face da sociedade, das suas instituições, dos seus preconceitos. Afastei-me da família. Um acontecimento difícil de entender para os amigos.
Homem da cidade passei a viver numa fazenda antiga, situada numa região pobre, de clima instável, castigada ciclicamente pelas secas. Sem a comodidade de que dispunha na capital, moro numa casa de reboco grosseiro e telha-vã, piso áspero de cimento e fogão a lenha que enegrece as paredes e o teto da cozinha. Sem energia elétrica, uma geladeira e lampiões a gás, atendem-me nas horas quentes e para as leituras noturnas.
Não sou exigente quanto à comida, e a empregada, de origem rural, mas criada em casa abastada da cidade, sabe usar a geladeira, mantém limpo o banheiro, assegura água filtrada para bebermos. Conhece o uso adequado de pratos e talheres, a distinção no preparo dos alimentos para as três refeições do dia, enfrenta sem dificuldade a distância dos centros de abastecimento.
Do ponto de vista da minha comodidade material, em face da minha decisão, vivo bem, cuidado respeitosamente por ela, como dona da casa, o que a satisfaz e envaidece. Uma pobre vida, passiva e devotada, como das personagens de Gertrude Stein.
A minha presença e os meus hábitos, em tudo uma novidade por aqui, que todos observam, e intuem explicações nada exemplares.
2
Os rumos de minha vida e a minha determinaçã diferem, em nada imitam à do Jacinto, de Eça, mas, um pouco se assemelham, nas suas constatações, justitificativas e resultado. Do Príncipe da Grã Ventura personagem de A Cidade e as Serras, herdeiro da quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, de um apartamento no 202 dos Campos Elísios, cultivei, em princípio, a sua equação metafísica “suma ciência x suma potência = suma felicidade”. A melancolia, e algumas vezes o imprevisto, o tédio citadino me levaram a tais conclusões, permitiram o desenlace.
Vale a pena resumir acontecimentos, reflexões e dores que assaltaram o jovem e delicioso personagem que fugiu para Paris: “que criação augusta a da cidade... só o fonógrafo me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante que me separa do bicho... agora era por intervenção de uma máquina que abotoava as ceroulas”.  Tempos depois, circunstâncias o levaram a novos raciocínios. [...] A mesmice  – eis o horror das cidades!.. na natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido... é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento.”  E insiste impetuoso. [...] O seu retorno à vida consciente, entre os vivos, nesta “reconciliação com a natureza. [...] o renunciamento às mentiras da civilização é uma linda história...”
 A imperiosa realidade do instinto, todavia, é que ditara as necessidades. Colheu o herói:
“Mas, caramba, faltam mulheres! [...]  Com efeito era grande e forte a Joaninha...”  e sumamente indicativos, transcreve  “dois versos de uma balada cavalheiresca:
Manda-lhe um servo querido,
Bem hajas dona formosa!
E que lhe entregue um anel
E com um anel uma rosa...
O meu Príncipe já não é o último Jacinto, porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Terezinha... e um Jacintinho.” Pois, tal, aconteceu comigo.
                                                                                            *
A visita semanal da minha segunda e atual família, que passara a morar na cidade, alegrava o meu espírito possuído de envolvente expectativa quanto ao nosso futuro.  Uma tragédia corriqueira quanto ao fato em si.
Em tudo aqui sou diferente dos demais: tenho livros e os leio. Os mais velhos, os proprietários - recorrem ao antigo respeito aos letrados -, insinuam o meu comportamento como uma imitação, que somente o adotavam os tonsurados. Em tempo passado, famílias mantinham em casa professores para os filhos, até padres que cuidavam também da educação religiosa dos agregados.
3
Na estante, entre outros livros trazidos da minha biblioteca na cidade, TEORIA DA LITERATURA, de Wellek e Warren, que ainda não li. Andei folheando o volume, depois de tantos anos de sua publicação, numa quase “leitura dinâmica”, de que se falou muito no passado e na qual não acredito como coisa séria. Mas li trechos, e entendo que necessito de algumas releituras e meditações para conhecer as idéias desses teóricos modernos.
O livro pareceu-me, pela bibliografia que completa o volume, uma espécie de marketing literário, para usar conceito mercantil, no lançamento de produtos no comércio. Reuniram-se os autores numa sociedade de idéias e estudaram os gostos que perduram, tendências novas e variações, dentro destes gostos, excluídos os contrários à manutenção do “mercado consumidor”.
Uma novidade, fruto de muito trabalho, baseado numa vasta cultura, numa exposição ordenada e acadêmica.
Afrânio Coutinho oferece, também, uma extensa bibliografia para o estudo da literatura, útil para uma visão crítica do fenômeno estético-literário. Como em Wellek e Warren, um catálogo, uma lista de convidados.
Torno claro, numa tomada de posição, que entendo “a formação e o desenvolvimento da literatura como parte do processo histórico total da sociedade. A essência e o valor estético das obras literárias, e também sua ação, é parte daquele processo geral e unitário pelo qual o homem se apropria do mundo mediante sua consciência.” (Lukács. Critica).
Alguns intelectuais paraibanos que bebem a ideologia da classe dominante, e curtem os seus porres estruturalistas, numa imprensa subsidiada, numa universidade alienada de bolsistas, mestres e peagadês em regime de confinamento pedagógico e de idéias, torcem o nariz, desdenhosos, quando ouvem falar de Marx, Engels, Nelson Werneck Sodré, Garaudy, Carpeaux e tantos outros estudiosos da literatura, dos fenômenos sociais.
Queiram eles ou não, a literatura, assim como a arte, é um fato, um produto social. A obra literária iguala-se a uma greve de portuários, a uma desordem e quebra-quebra de desempregados, a um mural de Picasso, de Portinari, às gravuras rupestres de Pedra Lavrada e da Pedra do Ingá, na Paraíba e também das cavernas de Altamira, na Espanha, das grutas de Lascaux na comunidade de Montignac na França, entre mais localidades em todos os continentes.
Não foi sem razão, que o autor da monumental HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL, parafraseando Lênin afirmou que “o estruturalismo é o ópio dos intelectuais”.
Que importância poderá alguém, em sã consciência, atribuir aos milhares de palavras gastos pelo professor Roman Jakobson no seu estudo sobre Les Chats, de Charles Beaudelaire, do ponto de vista da literatura?
O mestre de Praga, egresso de Moscou, hoje pontifica em manobras científico-diversionistas nas universidades norte-americanas.
Esse é o objetivo da especialização mesquinha, menor, rica em terminologia, mas determinada por posições sociais retrógradas.
4
Natal e Ano Novo longe da família. Ocorrem-me lembranças que sufoquei no fundo da memória. Prefiro esquecê-las, ou silenciar.
Num tempo mais recuado, do Natal guardo recordações precisas, uma mistura de comemorações burguesas no seio da família, e o perambular triste e solitário em ruas apinhadas de gente. Tempo da infância na casa dos meus pais, e nas ruas do Recife, na juventude, estudante de parcos recursos financeiros,  morando em quarto de pensão.
O nascimento do Salvador, a significação de Sua vinda ao mundo não me despertaram jamais reflexões profundas. Muito cedo me inculcaram a existência de um Papai Noel, a quem eu deveria prestar contas do meu comportamento de menino e a quem me dirigir para receber recompensas. O mais era traduzido em farta comida, pratos raros, canções estrangeiras, frenesi comercial e anedotas. Assim o Ano Novo, sem nada que me induzisse a um inventário de ações.
Sozinho, a cidade distante, recorro à leitura para encher o tempo.
5
Na véspera de Ano Novo tive companhia para o jantar. A empregada estava com a fisionomia carregada. Ela é uma velha amiga da minha família, e lamenta sempre que pode o meu isolamento, o afastamento do lar. Conheceu-nos em dias de grande prestígio social, estimados e festejados. Escolhendo as palavras, temerosa de minha reação, exprobra-me comovidamente a decisão que me jogou nestes ermos.
Moradores da fazenda saborearam comigo a suculenta sopa. Alegres com a carne farta que não consta de suas refeições, criavam ditos. Como são estreitos os horizontes dessas pobres criaturas! Sem dinheiro no bolso, não puderam comparecer à festa anual na cidade.
Descobri que em dias e ocasiões especiais, eles chegam para colher sentenças, informações, que ouvem curiosos. Têm-me na conta de pessoa de grande conhecimento dos fatos do mundo, que troco em miúdos para eles. É de minha experiência fora do mundo onde moram, que esperam explicações para as suas dúvidas.
No alpendre, deitado na minha rede ampla e macia, ora cochilava ora escutava o que diziam. Somente a narrativa de tragédias animava as suas conversas. Acidentes, assassinatos, doenças graves em pessoas conhecidas, davam um colorido especial às frases, às exclamações de espanto.
O rádio anunciava animados réveillons. Indiferentes, eles viviam em outro mundo. Com a execução do Hino Nacional, avisei-lhes que entra-vamos no novo ano, e perguntei-lhes se conheciam a música que o rádio tocava.
Eram três homens de mais vinte e cinco anos, casados, anal-fabetos. Olharam-se com curiosidade e um deles disse que conhecia alguns trechos.
– É aquela que fala na “patamar”– quis explicar.
– Acertou! – exclamei num elogio, e completei. – É o hino nacional do Brasil.
Não adiantava perder tempo em explicações. Eles jamais entenderiam, pois não tinham noção de pátria, nação, estado. Nunca frequentaram escola.
– O índio... prá falar a verdade não conheço – disse outro, com franqueza.